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Criador de Dilbert lança romance esquisito

18 de outubro de 2002, 00:00

O autor dos quadrinhos que retratam a vida corporativa agora publica um livro que embroma o leitor: não é engraçado, nem didático, científico, filosófico, religioso ou ficção.

Por Webinsider

Fábio Fernandes

Scott Adams é um sujeito de sorte. Criador da tira em quadrinhos Dilbert, que satiriza o cotidiano de uma grande empresa de tecnologia, ele é publicado em mais de duzentos jornais em cinqüenta e oito países. Publicou 22 livros com seu personagem, e como se não bastasse, resolveu investir na indústria alimentícia. É presidente da empresa Scott Adams Foods e co–proprietário do Stacey’s Café, um restaurante na Califórnia. Para completar o incrível currículo, Adams é hipnotizador diplomado, além de formado em ciências econômicas e dono de um MBA em administração de empresas na conceituada Universidade da Califórnia em Berkeley.



Não é de surpreender, portanto, que Adams resolvesse um dia – ao menos temporariamente – chutar o balde de Dilbert e escrever outra coisa. Outros quadrinhos, talvez, ou quem sabe um romance? Acertou quem pensou na segunda opção – que o leitor brasileiro tem a oportunidade de ler agora.



O livro se chama Partículas de Deus (Ediouro) e está classificado na quarta capa como sendo de Inspiração. Entretanto, na introdução, Adams adverte: o livro não se enquadra nos rótulos habituais das publicações. Mas o que ele diz logo em seguida nos dá uma pista importante sobre o conteúdo do livro:



Eu argumento que se trata de uma ficção, pois os personagens não existem. Há quem argumente que não é ficção porque as opiniões e filosofias dos personagens podem ter um impacto duradouro sobre o leitor.



Esta definição do que não é ficção é bastante discutível. Afinal, autores como Kafka e Dostoiévski provocam impactos fortes sobre seus leitores há cerca de cem anos e nem por isso seus livros, por mais realistas que pareçam, deixam de ser obras de ficção. Mas Scott Adams não é um nem outro, e nem tem essa pretensão. Então, qual é a sua intenção?



Ainda na introdução, ele explica: o personagem principal de Partículas de Deus é um homem que sabe tudo. Literalmente tudo, frisa Adams. Numa conversa com um rapaz, ele discorre sobre Deus e o universo utilizando o princípio socrático da maiêutica – em outras palavras, fazendo com que, num jogo de perguntas, o interlocutor descubra as respostas certas.



E quais são as respostas certas? É aí que está o problema deste livro. Adams diz que o personagem enuncia uma série de “fatos” científicos (aspas dele). Algumas das afirmativas mais estranhas são consistentes com aquilo em que os cientistas geralmente acreditam, e uma parte é constituída de bobagens engenhosas, preparadas para dar a impressão de verdadeiras. E recomenda: Para obter o máximo de prazer, compartilhe Partículas de Deus com amigos inteligentes e depois discutam a história. Tente descobrir o que está errado nas explicações mais simples.



Maldade de Adams. Na verdade, Partículas de Deus é cheio de pequenas armadilhas para o leitor. Armadilhas não muito evidentes para quem não estudou ciência, filosofia ou religião – porque o livro é um apanhado de conceitos científicos e filosóficos jogados rapidamente para o leitor no que parece um arremedo de O Mundo de Sofia. Mas, ao contrário de Jostein Gaarder, que é professor de filosofia e escreveu um livro mais didático, sem tirar de vista nem por um momento que toda a história de Sofia não passava de ficção, Scott Adams usa uma lógica cambeta em Partículas de Deus para, entre outras coisas, passar a perna em Einstein e rever toda a ciência moderna, além de retrabalhar inteiramente (e superficialmente) conceitos como paranormalidade, religião, relacionamentos e carma, entre mais alguns outros.



Mas a pergunta que não quer calar é: com que propósito? O livro não é engraçado (nem se pretende a isso, como Adams alerta na introdução), e também não é didático. Não parece um livro científico, nem filosófico ou religioso. Como ficção, não decola. E aí nos lembramos do que foi dito no começo desta resenha: Há quem argumente que não é ficção porque as opiniões e filosofias dos personagens podem ter um impacto duradouro sobre o leitor.



Quem argumenta isso? Adams tira o corpo fora na introdução afirmando categoricamente que as opiniões expressas pelos seus personagens não são as suas próprias. Mas, em um livro que se propõe a ensinar algo – ainda que no território da ficção – será que devemos acreditar?



Dizem que todo criador deixa muito de si mesmo nos personagens que cria. No caso de Scott Adams, poderíamos dizer que seu espelho no mundo da ficção é Dilbert, o funcionário atrapalhado e preguiçoso que ele criou nas suas tiras de grandes sucesso. Mas, depois de ler atentamente Partículas de Deus, a impressão que fica é que na verdade Adams é Dogbert – o cachorro de Dilbert, inteligentíssimo… porém manipulador e um tapeador de primeira. [Webinsider]


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