Sequências e refilmagens do cinema norte-americano erram e acertam

05 de dezembro de 2016

O hábito de dar sequência, refilmar ou tentar inventar algo novo em cima de um filme de sucesso pode acabar em algo desastroso, que nem os mais ardorosos fãs conseguem aturar.

Hollywood nasceu, cresceu e continua um centro de produção de filmes com o objetivo de realizar filmes comerciais e/ou de boa bilheteria. Os antigos produtores dos grandes estúdios admitiam filmar algum projeto que não desse muita renda, mas que melhorasse a reputação técnica ou cultural dos produtores perante a crítica.

Em se tratando de produções comerciais existe sempre, infelizmente, o outro lado da moeda: na busca de novas fontes de receitas produtores se sentem compelidos a apelar para um roteiro que dê resultados financeiros imediatos, e aí correm o risco de, como diziam os mais antigos, “dar com os burros n’água”. E se a crítica ou o público não notam, é até possível passar pelo desastre fílmico despercebido.

Nós que somos fãs não devemos nos iludir: o cinema é basicamente e na sua maior parte uma atividade cujo objetivo é faturar bilheteria, para financiar outros filmes ou enriquecer produtores ou estúdios.

Como o custo de produções de bom nível costuma ser pesado, nos espaços onde a produção é rígida ocorre sempre uma feroz vigilância em torno das pessoas envolvidas na filmagem e com o orçamento.

No passado, Cleópatra, por exemplo, foi um projeto que quase levou a Fox à falência. A então atriz/vedete Elizabeth Taylor ficou doente, criou problemas, e quase o filme não termina.

Os produtores do passado eram obcecados em assistir copiões, vigiar horários de trabalho e/ou colocar prepostos no set de filmagens, que iriam espionar e correr para contar aos patrões qualquer irregularidade.

É fato histórico que Orson Welles chegou a Hollywood ainda muito jovem e totalmente incipiente como diretor de cinema, porém com um contrato com a RKO que lhe dava carta branca para fazer “um filme em preto-e-branco”.

Welles percebeu logo cedo o policiamento do estúdio, e toda vez que chegava alguém da direção no set de filmagem ele mandava parar tudo e começava a entreter os intrusos com truques de mágica. Os homens ficavam irritados, mas não podiam fazer nada, por causa do contrato. É claro que isto gerou todo o tipo de ressentimento, como Welles comentaria em entrevista à BBC nos anos 80.

Principalmente, porque ele mesmo era o produtor do filme. Em dado momento, a direção da RKO o autorizou a fazer “testes de filmagem”, e Welles espertamente rodou o filme como “testes”, até que a direção não conseguir mais reverter a realização do roteiro. Ironicamente, Cidadão Kane é até hoje um dos ícones do cinema de vanguarda, produzido em um grande estúdio, com ambições primariamente financeiras.

A briga entre diretores e produtores em Hollywood é emblemática e representa até hoje o conflito muitas vezes irreconciliável entre arte e comércio. Idealmente, o cinema deveria ser apenas o veículo pelo qual técnicos e artistas iriam expressar as virtudes do ofício, mas na vida real, em um território como o norte-americano, este objetivo é muito difícil de atingir.

É verdade que grandes filmes e espetáculos saíram de estúdios comerciais, mas o conflito nunca teve fim. Certa feita, alguém perguntou a John Ford, um repórter se não me engano, como ele escolhia os atores dos seus filmes, e ele, sempre sarcástico, respondeu “Quem escolhe os meus atores é a mulher do produtor”.

O lado prevalente do comércio em Hollywood

O studio system acabou há décadas, mas o formato de produção não: o dinheiro sempre fala mais alto. E o maior perigo de ganhar grande bilheteria em filmes de sucesso é a tentação de fazer outro igual, em sequência. Os americanos chamam isso de “cash cow”, em referência a uma fábrica de dinheiro, tipo vaca que jorra dinheiro pelas tetas ao invés de leite.

É claro que, diante da incerteza, o grande público corre para ver a segunda ou terceira parte do filme de sucesso. E não é incomum ser tomado de uma enorme decepção!

Muitos diretores se recusam a fazer a sequência de um filme que deu certo na primeira vez, e com razão, porque a continuação da estória costuma não ter sentido ou não ter a mesma originalidade do primeiro, se tornando assim uma espécie de “déja vu”.

O mais chato é quando o roteiro da segunda parte inclui diálogos ou cenas repetidas do outro filme. Mel Brooks, por exemplo, que fez algumas boas comédias, repetiu as mesmíssimas anedotas em filmes subsequentes, a uma altura em que elas já nem tinham mais graça ou eram previsíveis. Este tipo de repetição denuncia cansaço do cineasta ou falta total de interesse ou inspiração para criar alguma coisa nova.

A gente conta nos dedos os casos onde a sequência funcionou como peça de cinema, e às vezes até melhor do que o original. A maioria acabou se tornando mais uma forma de ganhar dinheiro.

A refilmagem é muito, mas muito pior

Com exceção de algumas adaptações de filmes estrangeiros, que permitiram aos realizadores fazer algo novo de outro filme conhecido, a refilmagem acaba sendo uma contrafação de algo que deu certo no passado. Os Sete Samurais, dirigido por Akira Kurosawa, foi repetido no western Os Sete Magníficos, quatro anos depois.

Quem assiste Vida de Inseto, da Pixar, percebe logo que os animadores adoram a estória mostrada por Kurosawa. Até na comédia Três Amigos se enxerga os rastros da obra do cineasta japonês, muito embora basicamente o filme tenha se proposto a criticar o studio system, que foi impiedoso com muitos atores.

Na história do cinema, é possível identificar situações onde a refilmagem passa a ter um valor técnico decorrente da época quando foi feita. Um exemplo notório é o do filme O Grande Motim, que foi lançado em 1935 com atores de significativa reputação, com filmagem convencional em preto-e-branco, e depois relançado em Ultra Panavision 70 mm, processo moderníssimo em 1962, e com atores de grande calibre, como Trevor Howard e Marlon Brando.

Pessoalmente, eu prefiro a refilmagem, pela sua grandiosidade técnica e impecável realização. Abaixo uma imagem da espetacular saída do porto, bem no início do filme. Bronislay Kaper, o grande compositor, participou de ambas as versões.

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De anos para cá Hollywood vem insistindo em refilmagens abaixo da crítica. Filmes que outrora se tornaram grandes arrecadadores e ganharam prestígio com os fãs, voltaram às telas com roteiros de qualidade duvidosa. O perigo deste tipo de projeto é macular a imagem que ficou do filme no qual ele se baseia.

Não vou aqui citar caso por caso, mas pretendo ilustrar o meu ponto de vista com alguns exemplos:

Guerra Nas Estrelas (parte IV) não é um filme espetacular ou irrepreensível. O projeto original objetivou levar a garotada aos cinemas. Pesquisa da época mostrou que a maior frequência das salas de cinema era a do público adolescente. George Lucas teve a sensibilidade de fazer valer esta pesquisa, apenas tomando o cuidado de deixar um lastro para o público adulto.

A narrativa é intencionalmente a mesma usada nos seriados das antigas matinês dos cinemas. Na época, Star Wars inovou ao colocar em perspectiva um filme com o som Dolby Stereo, e ficou reconhecido como o filme lançador daquele formato de som, embora não tenha sido o primeiro.

O novo Guerra Nas Estrelas é, na minha modesta opinião, um desastre do início ao fim. Seus realizadores nunca foram capazes de trazer à baila uma estória convincente. O roteiro é cheio de remendos dos filmes passados.

E vem com a infeliz ideia de ressuscitar Hans Solo e a Princesa Leia, cujos atores estão visivelmente desgastados e desmotivados com seus respectivos personagens. A estória é pífia, com uma produção que apenas serviria como demonstração de recursos técnicos, para quem se importa com isso.

Aliás, quando eu vejo o nome J.J. Adams envolvido com uma coisa dessas, eu já boto os dois pés para trás. O cineasta conseguiu destruir a imagem de fã que eu tinha da série Star Trek, seguindo um roteiro que tentava deslumbrar o suposto lado rebelde de James T. Kirk, sem consegui-lo.

É uma situação mais ou menos parecida com o filme 2010, que tenta explicar porque o computador HAL ficou paranoico no primeiro filme, a ponto de matar todo mundo.

Existe uma lição de moral nisso tudo aí: todo espectador tem a sua própria visão dos personagens e dos enredos. Querer fazer isso no lugar dele e impor uma verdade que não é a que ele percebeu pode acabar por desconstruindo a visão obtida quando o filme original foi lançado no cinema, e o pior, não acrescenta nada de útil.

Ora, Star Wars teve três prequelas com os números de 1 a 3, conduzidas pelo realizador original, que foram três enormes perdas de tempo. Eu comprei a caixa com todos os filmes, para dar a mim mesmo uma chance de mudar de ideia. Não consegui. Lucas afirmou que com novos recursos técnicos de computação gráfica ele poderia realizar imagens impossíveis naquela época. Sim, mas que contribuição elas deram?

A imagem dos novos filmes consegue ser pior do que as sequências feitas em película. E ele desviou a sequencia dos roteiros introduzindo personagens gráficos horríveis, com maneira de falar absurda, que depois viraram motivo de crítica e pilhéria. A meu ver, não se pode subestimar os fãs. Na realidade, de todos os filmes da saga, somente “O Império Contra Ataca” foi unanimidade de ficção científica de bom nível, entre críticos e aficionados.

Um desses dias eu revisitei “The Karate Kid”, cujo título em português (A Hora da Verdade) quase ninguém conhece. O filme começa com o que parece ser um monte de babaquices sobre a solução de problemas de um adolescente na base da porrada, mas, felizmente, ao invés disso, ele se presta a uma série de questionamentos sobre o confronto entre o bem e o mal, muito bem escritos.

Existem detalhes neste filme que eu aposto devem ter passado despercebidos pelo grande público. Por exemplo, quando Miyagi começa a ensinar o frágil adolescente Daniel a arte marcial do caratê, ele manda o menino lixar o chão, encerar carros, pintar a cerca, etc. A princípio o que ele está fazendo é tornar intuitivos, eu diria medulares, os gestos de defesa da luta.

Mas, consciente ou não, o roteirista introduziu ali conceitos de adaptação muscular, usados até hoje na preparação de atletas, que eu vou me permitir não aprofundar aqui. Talvez o ponto mais eloquente do filme ocorre quando Miyagi diz a Daniel o sentido da aquisição do equilíbrio, mencionando que não é só o físico que está em jogo, mas também e principalmente o mental. Nos nossos cursos de Medicina nós ensinávamos aos alunos que “saúde” é um estado de equilíbrio entre o mental e o físico, porque um desvio de um tem influencia no outro!

O filme de 1984 certamente não teria tido o mesmo impacto, se não fosse a colaboração do veterano e carismático ator Pat Morita, e a inspirada trilha sonora de Bill Conti.

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Quando o novo Karate Kid saiu, sinceramente eu não tive a coragem de ver o que tinham feito com ele. Por favor, me perdoem a indagação, mas Jackie Chan? É só ler a indignação de quem viu e postou críticas no IMDb para entender que um filme desses não poderia chegar perto do primeiro, pela falta de sinceridade de propósitos.

O primeiro filme recorre à fantasia dos contos de fada, quando Miyagi bate e esfrega as mãos para curar Daniel antes da luta final. Mas não sem ter uma base médica, a que demonstra que o calor pode arrefecer um processo inflamatório muscular. O esfregar das mãos gera calor, possivelmente não em um nível exigido pelo processo de alívio da dor, e certamente não tão rapidamente, como aparece no filme.

No momento desta “cura” Bill Conti contribui com uma orquestração dramática espetacular, dando o suspense que a plateia espera para a catarse final: o bem derrotando o mal, que é a base do filme todo. Nem os autores conseguiram se superar nos filmes seguintes. Talvez se deixassem como estava, ficariam na lembrança dos fãs de uma forma irretocável e mais digna.

The Karate Kid não é nenhuma obra-prima, mas alcança o seu objetivo e permite a revisita a longo prazo. Querer se aproveitar apenas do seu lado comercial e fazer algo semelhante é, salvo melhor juízo, o mesmo que jogar lama em algum objeto que se quer manter limpo! [Webinsider]

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6 respostas para “Sequências e refilmagens do cinema norte-americano erram e acertam”

  1. Fabio F disse:

    Faz muito tempo que eu digo que Hollywood tem vivido nos últimos anos uma imensa crise criativa. Não se investe em nada novo, não se arrisca um único centavo, só investem no que tem retorno garantido. E tome remake, tome continuação, tome prequel, tome adaptação de quadrinhos… É dose. Tenho dado alguma atenção ao cinema europeu e ao cinema americano mais independente pq são os nichos onde ainda se vê coisas novas sendo feitas. Aqui em Porto Alegre existe um maravilhoso festival de cinema chamado Fantaspoa, Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, que já está pela sua 14ª ou 15ª ou coisa parecida. Esse festival é realizado por dois caras abnegados, doidos por cinema que criaram sozinhos um pequenino festival alternativo e que foi aos poucos, ao longo dos anos, tomando proporção e hj em dia apresenta a cada ano mais de 70 filmes, todos eles fora do maistream, muitos em estréia mundial, além de cursos ligados a cinema e (a parte que eu realmente mais gosto) dezenas de sessões comentadas pelos próprios diretos, atores e produtores. Vem gente da Europa, EUA, e nesse 2016 até um diretor israelense deu as caras por aqui (O filme se chama Freak Out, o diretor não consigo lembrar o nome). Claro que em se tratando de cinema super alternativo e de baixo e médio orçamento, aparecem às vezes algumas porcarias que não dá pra acreditar, mas tem tb uma imensa quantidade de filmes estupendos, que não só não devem nada pra Hollywood como muitas vezes são bem melhores do que o que as majors andam nos apresentando. Onde eu quero chegar é que existe vida fora do que está disponível nos cinemas dos shoppings… Ainda sobre o Fantaspoa, no festival do ano passado tive a grata oportunidade de conversar com o diretor espanhol Juan Carlos Fresnadillo, que mora e trabalha em Hollywood, e ele comentou sobre a frustração de trabalhar em um local onde existem excelentes profissionais, os melhores recursos técnicos, muita grana pra investir e mesmo assim não se consegue emplacar nenhum projeto diferente ou inovador, pq ninguém quer arriscar…

  2. João Carlos disse:

    Outra refilmagem horrível foi a de planeta dos macacos de 2001. Aliás, da série original, só primeiro prestava.

  3. João Carlos disse:

    Olá Paulo
    Muito bom continuar lendo seus textos!
    Para mim, o pior caso refere-se ao bom (não ótimo) Spider Man de 2002, refilmado quase cena à cena em 2012. A mesma estória recontada apenas dez anos depois…
    Exemplos destes são muitos: Dirty Dancing, Psicose, Ben Hur, A Profecia, Caçafantasmas (durmi na versão feminina atual), etc

    • Fabio F disse:

      O remake de Psicose é um atentado ao cinema. Se ele tem algum mérito é o fato de ser muito mais aterrorizante que a versão original. Isso pq qualquer fã de cinema fica horrorizado ao ver o que o diretor Gus Van Sant fez…

    • Oi, João Carlos,

      Obrigado por prestigiar a coluna com seus comentários.

      Realmente, a lista é enorme. Eu até não me importaria de assistir refilmagens se elas contribuíssem com algo novo, mas a impressão que fica é que há uma escassez de imaginação generalizada de bons roteiristas.

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