Está difícil ir ao cinema e não é por causa da idade

21 de dezembro de 2016

Filmes recentes destinados a grandes bilheterias chegam às telas com problemas técnicos capazes de fazer fãs e cinéfilos desistirem de frequentar os cinemas.

Eu sei que sou suspeito para comentar alguma coisa negativa a respeito dos filmes e das salas de cinema atuais, pois afinal eu fui frequentador por décadas a fio dos chamados “palácios” de cinema, além, é claro dos eventuais “poeiras” do meu tempo de menino.

Eu vejo vários méritos nos cinemas modernos em formato de estádio, que incluem a impossibilidade de que um espectador da frente possa atrapalhar a nossa visão da tela, problema comum dos cinemas antigos, cujo salão era plano.

Eu também entendo que a manutenção dos grandes cinemas se tornou inviável ao longo do tempo, não só por motivos financeiros como principalmente pelo inchaço urbano e a violência que o acompanha.

Há tempos não se pode sair de carro para ir ao cinema e estacionar com tranquilidade nas proximidades sem ser achacado, ou achar uma vaga na rua que preste, sem multa. E deixando o carro de lado, se é obrigado a fazer uso de um transporte público de qualidade questionável. Tudo parece conspirar contra um hábitos dos mais saudáveis que eu conheci.

E se, por um lado, se pode (e se deve) recorrer ao shopping onde o cinema está disponível com uma relativa segurança, por outro é desagradável para os antigos cinéfilos entrar em uma sala onde a tela é quadrada (!?), o som é apenas razoável e o ar refrigerado regulado para habitantes do polo norte.

Então, no final, o formato de estádio é o que menos importa, porque ninguém se sente bem tendo que aturar duas horas de frio congelante (as mulheres são particularmente sensíveis a ele por causa do metabolismo mais baixo), sem ter um casaco para se proteger.

Com a introdução da projeção digital, uma das coisas de certa forma constrangedora que eu observo é a perigosa proximidade dentro dos cinemas do nível de qualidade da imagem e do som reproduzidas por um home theater moderno. É por isso, creio eu, que de vez em quando algum amigo comenta que foi ao cinema, mas depois que saiu lá de dentro percebeu que “lá em casa é melhor”. E é mesmo!

Acho difícil compreender como o pacote DCI, que foi imposto ao novo cinema com projeção digital, pode incluir trilhas sonoras achatadas, ou seja, muito barulho e pouca dinâmica.

A compensação de dinâmica foi prevista no desenvolvimento do codec AC-3, mais tarde chamado de Dolby Digital, e é acertada no setup do decodificador, como mostra a ilustração abaixo. O objetivo é melhorar a audição do programa diminuindo a distância entre os sons mais altos e os mais baixos.

O processo em si é adaptativo, mas inaceitável sob o ponto de vista da reprodução correta de qualquer trilha sonora, e só deve ser usada em casos excepcionais. Em codecs atuais, existe a possibilidade de acerto automático da faixa dinâmica, através de informações contidas nos metadados da trilha sonora.

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A dinâmica pode ainda ser “achatada” intencionalmente, no processo de mixagem feito no estúdio de pós-produção. E este parece ser o cenário no qual “A Chegada” foi realizado, ou seja, não creio ter sido algum problema no alinhamento do cinema onde o filme foi exibido.

Para efeitos de acerto em instalação de home theater, o ideal é desligar este tipo de controle, ou, se for o caso de um equipamento mais recente, ajustar em “Auto” e ver se funciona a contento.

Mas, pior do que o som talvez, é projetar vídeo em tela quadrada, como eu vi recentemente. Aí a gente começa a pensar como os amigos, e acaba se convencendo que de fato “em casa é melhor”.

Eu acho tudo isso muito triste, e confesso que tenho imensa saudade dos tempos das salas enormes, com cortina, com luzes diminuindo de intensidade no início da sessão, cabines com projetores cujas lanternas eram brilhantes o suficiente para oferecer uma projeção de alto nível.

Quando se tem vontade de levantar e ir embora

Ora, no dia 25 deste mês de novembro, abriu a exibição do filme de ficção científica “A Chegada”, e eu, que sou fã do gênero, fui tomado de grande expectativa. No dia do lançamento, leio a crítica do Globo, com o bonequinho em pé batendo palmas. Opa, então eu aumentei mais ainda a esperança de ver algo novo finalmente.

Entrei na primeira sessão, às 12:15, e comigo entrou muita gente, uma coisa inédita para este horário. O filme começa depois de mais de trinta minutos de anúncios e trailers, para qualquer um ficar impaciente. A projeção Panavision, 2.35:1, em uma tela quadrada, é dura de aturar, mas a gente na hora dá um desconto, para poder apreciar o filme.

Depois de uns quinze ou vinte minutos aproximadamente, olhando uma imagem escura, sem contraste algum, às vezes fora de foco (não sei como conseguiram esta proeza), eu começo a me sentir sonolento, coisa raríssima quando vou ao cinema. E luto contra o sono durante a maior parte da projeção.

O filme não tem ritmo, nada de novo acontece com os personagens, o roteiro se arrasta em uma interminável monotonia. E aí eu me lembro da apreciação crítica do Globo e me pergunto que diabo o bonequinho estava bebendo ou fumando quando viu esse filme.

Depois, olhando de curiosidade as críticas do IMDb, até para saber se era só eu, e aí eu leio várias pessoas condenando as mesmas coisas que eu notei relativas ao filme, à imagem, e à estória. Alguns sugerem que quem não viu não perca tempo com aquilo. E eu vou falar o quê? As obras de ficção clássicas se permitem temas complexos e até narrativa lenta, sem nunca induzir o espectador ao sono!

Como cada um vê um filme de maneira pessoal é possível que alguém entre no cinema e saia satisfeito. No caso específico de “A Chegada”, é também possível que o espectador entre e saia sem entender aquela estória direito. Não posso contar o fim, mas posso adiantar que não tem qualquer resquício de entrelaçamento com o suposto objetivo de ficção científica a que se propõem os cineastas.

A câmera que causa tontura e vômito

Eu li a expressão “vomit camera”, escrita por alguém que posta críticas no IMDb, a respeito do lançamento recente do filme Jason Bourne, parte da franquia do mesmo nome. Nas críticas deste tipo é óbvio que a tremedeira da câmera provoca uma sensação desagradável a quem assiste, não necessariamente produzindo algum efeito clínico importante.

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De fato, é inacreditável que os cineastas que teimam em usar um diretor de fotografia que concorde em filmar planos de alguns segundos (3 ou menos), cortar rápido para outro plano, e com a câmera balançando o tempo todo, estejam convencidos de que este tipo de linguagem é eficiente para aumentar a freneticidade do filme. Frenético, sim, convincente não.

E a impressão que me passa é de incompetência de quem faz o filme, pura e simplesmente. Basta estudar um pouco de cinema, sua linguagem e seus diretores, para perceber que a edição de planos tem um ritmo que deve de preferência se integrar com o desenrolar da estória. E é isso, em última análise, o que faz uma boa montagem ter qualidade, ou seja, quando ela flui de acordo com o que é mostrado na tela. Eu tive, por coincidência, um professor de técnica que nos dizia que muitas vezes um filme ruim se salva na sala de montagem.

Parece que muitos dos cineastas atuais não acreditam mais nisso, ou então não estudaram cinema com o devido cuidado. Se o tivessem feito, teriam visto, por exemplo, John Ford deixar a câmera imóvel sem que o filme perdesse o ritmo por um segundo sequer. Ou Alfred Hitchcock alterar somente o ângulo da câmera para causar suspense, e o fazia com inacreditável maestria.

Em “Jason Bourne”, a câmera balança o tempo todo em várias tomadas, como se o técnico que a segura estivesse perdendo o equilíbrio. Depois do processo de câmera na mão, que tinha alguns problemas nesta direção, ser substituído pela filmagem com o uso do tripé chamado Steadicam, a versatilidade dos planos com câmera na mão em movimento alcançou níveis de equilíbrio nunca antes imaginados.

Não há, portanto, desculpa técnica alguma de se perder o equilíbrio com a câmera em uma tomada de um plano, a não ser que isto seja feito de propósito. Se foi, com que objetivo? Não creio que chegue a induzir ao vômito, mas é um bocado desconfortável visualmente, além de não mostrar nada de interessante para o desenrolar da estória.

Aliás, Dib Lufti, o lendário diretor de fotografia brasileiro, usou a câmera na mão em “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, para induzir o espectador a ficar zonzo com a imagem. Mas não se nota, que eu me lembre, câmera balançando a esmo, na realidade são tomadas em planos muito bem planejados e competentemente rodados.

Para assistir “Jason Bourne” é preciso forçar o cérebro a sublimar a anarquia sem sentido da minutagem dos planos e da câmera que parece que vai cair no chão a qualquer momento.

O filme em si não é tão ruim como os críticos do IMDb fazem crer. Passado o ambiente frenético ainda sobra espaço para uma crítica ao comportamento compulsivo de alguns tipos de mulher.

Entre “A Chegada” e “Jason Bourne”, eu sou um que prefiro ficar com o segundo, que se destina apenas ao entretenimento, e não é soporífero em nenhum momento!

[Webinsider]

. . . . .

Leia também:

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A “inafundável” Molly Brown

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8 respostas para “Está difícil ir ao cinema e não é por causa da idade”

  1. Alisson Cesar da Silva disse:

    Bom texto! reflete a opinião e a sensação de muitos indo ao cinema … Pode ser um exagero da minha parte, porém acredito que a massificação e a preocupação com retorno financeiro podem ser as respostas para problemas desse tipo, e ainda no exagero acredito que isso esteja afetando as histórias e até mesmo gêneros, e que muitos críticos se vendem, pois muitos filmes com problemas são exaltados por ela… Gostaria de saber sua visão em relação a isso.
    Você acredita que a busca por altas bilheterias está afetando a qualidade e a variedade de filmes que vão aos cinemas?

    • Alisson,

      A busca da bilheteria sempre afetou a qualidade e/ou o conteúdo do que Hollywood produziu. Isso é fato histórico. Star Wars, por exemplo, antes de receber o o.k. da produção os estúdios estavam pasmos de ver a queda de bilheteria, e ao fazer uma pesquisa de mercado descobriram que os maiores frequentadores eram os mais jovens. A partir desta premissa Star Wars IV foi rodado.

      A diferença agora é que o nível baixou demais, os roteiros quase não têm trama, as estórias são exageradamente repetitivas, e os melhores filmes em bilheteria do passado recente viraram apenas peças de ação, sem nenhum conteúdo que preste.

      Se os críticos aceitam matéria paga eu não sei, mas o conflito de opiniões revela que ou a gente não entende mais nada de cinema ou então esses caras estão vendo coisas que ninguém enxerga.

      Eu tive professores de cinema que eram críticos profissionais e publicavam em jornais de grande circulação. Por isso, até hoje eu tenho gratas lembranças daquelas aulas (crítica, história e técnica) e uma confessa admiração por todos eles.

      Às vezes, eu leio críticas nos jornais, com a sensação de não ter mais noção de que se a pessoa que escreve se propôs ou não a elaborar um trabalho nos moldes que eu aprendi. Pode ser que a política editorial do jornal o impeça de fazer isso. E no final, quem perde somos nós, ao nos orientarmos por uma crítica equivocada.

  2. Bernardo disse:

    Paulo,

    Eu, como tantos outros, fui enganado pela LG e comprei um painel 4K que não é bem 4K (UH6100). Só depois de comprar descobri que a LG emprega uma estrutura chamada de RGBW em suas TVs de entrada. Nesse tipo de painel, um dos subpixels em cada pixel é substituído por um subpixel branco. Isso faz com que, em alguns momentos, um determinado pixel não seja capaz de exibir a cor verde, vermelha ou azul. Assim, apesar da TV ter o número correto de pixels, ela não é exatamente 4K. As cores ficam estranhas e a qualidade de imagem é bem sofrível. Existe alguma calibração que possa diminuir o problema?

    Pelo visto joguei dinheiro fora. Dá vontade de jogar essa TV pela janela.

    P.S.: O painel RGBW empregado pela LG nesses modelos é diferente do RGBW empregado por ela nas TVs OLED. No OLED, cada pixel é formado por quatro subpixels, branco, vermelho, verde e azul.

  3. ivo disse:

    Paulo. Texto primoroso que bem reflete o sentimento atual dos antigos cinefilos como nós. Volto a deduzir: o cinema digital veio apenas para enfatizar o lucro, quer nos estudios,nas pequenas medias e maiores produtoras, quer nas bilheterias. Fraternal abraço
    Ivo

    • Oi, Ivo,

      Acho que você está certíssimo, e no meu entender o que está havendo é uma deturpação do uso de novos recursos. Não haveria nada errado no uso de câmeras digitais, mas daí a impor a projeção digital nos cinemas, e mandar retirar os projetores de película há um abismo considerável.

  4. Fabio F disse:

    Mais um excelente artigo. Cinema é disparado o passa tempo/entretenimento que eu mais gosto, seguido de perto por shows musicais. Imagine então meu desespero constatando que o cinema tem sido uma experiência cada vez mais desagradável e os shows musicais que me interessam estão rareando na medida em que os artistas e as bandas que eu gosto estão morrendo ou se aposentando. Sem falar o preço proibitovo dos ingressos (paguei absurdos R$850 para ver os Rolling Stones aqui uns meses atrás). Sou fã de rock, heavy metal e hard rock, mas não consigo gostar de nada surgido nos últimos, sei lá, 25 anos… Voltando ao cinema, afora a baixa qualidade dos lançamentos, temos que lidar com a péssima educação dos frequentadores (Porto Alegre deve ter o público de cinema mais mal educado do mundo. O portoalegrense classe média ou média-alta típico é genericamente falando, um arrogante adepto do “posso fazer o que quiser pq to pagando”), falhas na projeção, inconcebíveis e inacreditáveis 30 minutos de propaganda e trailers, e mesmo com o filme da sessão das 19h começando as 19:25 ainda tem gente entrando depois do filme ter inciado (o cinema deveria proibir isso), passando na tua frente, galera conversando, telas de celular brilhando a todo momento, e por aí afora. Tenho me limitado aos cinemas alternativos, às mostras e festivais (felizmente a cidade tem um número razoável) e quando busco um mais “cinemão” e tenho que recorrer ao shopping, escolho as noites de segunda-feira, em geral bem mais vazias e potencialmente menos irritantes. Mas tá brabo…

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