Um festival de enganação

10 de março de 2017

O mercado de eletrônicos e o interesse do consumidor nem sempre batem. O fabricante diz que reinventou a roda, mas o mercado não entrega. Caso do Blu-Ray 4K.

Eu sei que enganação é uma palavra forte, mas é uma possibilidade que se pode esperar quando os nossos instintos notam algo de estranho no ar. Qualquer um pode enganar terceiros. É o que normalmente os políticos fazem na frente do eleitor e neste caso o festival de enganações parece que nunca termina.

Mas, no caso da tecnologia, nenhum fabricante deveria, a meu juízo, sair anunciando que reinventou a roda. E em um espetáculo midiático mostrar para todo mundo a mais nova revolução tecnológica sem ter depois demonstrado evidências de que testes exaustivos de laboratório foram feitos para sustentar o que estava sendo afirmando na frente da plateia e em divulgação da palestra em algum tipo de mídia de vídeo.

Assim aconteceu ano retrasado quando então eu fui um que ficou impressionado com a nova GPU Pascal, lançada bombasticamente pela Nvidia. “Um novo rei”, disse o CEO da empresa, se gabando de que a versão 1080 da linha superava em duas vezes a velocidade da placa gráfica, ultra cara, Titan, o rei deposto.

Não passou nem um ano e os problemas começaram a pipocar, e não sem motivo: até onde eu sei o aumento de clock em componentes deste tipo (CPU, GPU, memória, etc.) não passa impune sem sacrificar a alimentação do computador como um todo. Alguns componentes passam a exigir fontes de alimentação mais robustas, sistemas de arrefecimento de calor mais eficientes, seja do componente, seja de peças associadas a ele, em particular os reguladores de tensão (VRMs), que esquentam às vezes sem controle.

O calor que um componente trabalhando em clock elevado produz é insuportável, e deve ser evitado ou contornado, para tornar a operação do sistema estável. Por causa disso, na hora de se escolher uma placa mãe adequada para uma montagem demandante, uma das primeiras coisas a se observar é a capacidade de refrigeração da mesma, e, é claro, considerando-se a ventilação do gabinete onde ela será instalada.

Todas as placas gráficas da série 10, fabricadas com a GPU Pascal, apresentaram algum tipo de problema, entre eles o da inicialização errática na partida a frio, centelhamento (“flickering”) intermitente na imagem, calor brutal causado pela insuficiência de arrefecimento provocado pela instalação incorreta do backplate, tela preta, diminuição do batimento no aumento de demanda de reprodução (quadros por segundo) e outras gracinhas que deixam qualquer usuário maluco.

Um vídeo posterior ao lançamento da série 10, disseminado pela rede, mostra uma dessas placas pegando fogo:

A reação do fabricante foi imediata, oferecendo conserto ou troca. Infelizmente, a impressão que ficou foi péssima, e a gente aqui se indagando se houve de fato uma bateria de testes feitas antes da nova GPU ser lançada.

A obsessão em oferecer placas gráficas cada vez mais velozes e cheias de novos recursos tem uma contrapartida que se revela cruel com qualquer fabricante: os erros e as falhas são descobertas rapidamente! Quando então as promessas midiáticas cedem lugar à incredulidade do usuário, não importa se os problemas poderão ter conserto eventualmente. E se existe uma obsessão que muitos usuários têm é o aumento da performance de componentes, não importa o custo financeiro ou desgaste das peças. Qualquer palavra negativa pode significar a morte ou descrédito de um novo produto. Se for “revolucionário”, pior ainda!

No estranho domínio do Blu-Ray 4K

A gente fala em Blu-Ray 4K e por enquanto nem sombra de ser lançado no Brasil, algo inédito para um país onde a HDTV foi uma das primeiras a ser implantada nesta faixa do planeta. O usuário desde o ano passado tem a seu dispor aparelhos de televisão super atualizados, capazes de reproduzir 4K e HDR, portanto passíveis de aceitar o Blu-Ray 4K.

Não é de hoje o mar de incertezas sobre se o formato irá algum dia alcançar as nossas praias.

Nos países comercialmente mais agressivos abordados pelos fabricantes, foram lançados alguns leitores de mesa. Mas, mesmo assim, basta ler o que os consumidores que se aventuram no formato escrevem nas áreas de comentários dos fóruns e a gente começa a ter dúvidas se o Blu-Ray 4K terá sucesso ou irá descambar para um novo nicho.

Lendo recentemente uma lista de discussão sobre o sonolento filme A Chegada, disposta no site Blu-Ray.com, o que se pode perceber é o nível de decepção, não com o filme (afinal, há gosto para tudo), mas quanto à transcrição para o disco.

Começa que alguém divulgou, e só pode ter sido de propósito, que a master (DI) usada para transferir a imagem tinha 2K de resolução. Sendo assim, a imagem final que aparece no disco vem de um processo de upscaling para a resolução de 4K nativa do formato.

Depois, as queixas se concentraram naquilo que já estava para lá de óbvio nas salas de cinema: um breu de fazer gosto, com tomadas de câmera fora de foco (“flou”), perturbando a visão de quem assiste.

No que tange à resolução, era de se esperar que todas as matrizes usadas para transferir filme digital ou analógico estivessem a par do destino, ou seja, no mínimo 4K, e ponto!

O pré-requisito faz sentido. Qualquer pessoa de posse de um mínimo de conhecimento sobre o que se está fazendo, pode se munir de um método de upscaling de 2K para 4K dentro de casa sem nenhum problema. É fato que nem todas as linhas de transmissão de sinal por cabos HDMI são seguras, mas com um pouco de paciência pode-se chegar a um resultado bastante convincente!

Mesmo que nada seja feito, uma TV 4K irá adaptar o sinal fonte para a resolução da tela, e neste aspecto quanto maior a resolução da imagem fonte melhor o resultado obtido.

E quando se chega a este ponto, eu posso afirmar que o upscaling de um Blu-Ray normal bem autorado chega a uma tela 4K com notável eficiência, a ponto de se comparar resultados com vídeos 4K de referência e não se conseguir notar diferença de qualidade alguma.

Se alguém quiser fazer um teste, eu sugiro baixar arquivos deste site, em formatos que o televisor possa reproduzir através de um drive USB adequado.

Tudo isso nos leva a questionar se vale a pena investir em um disco que, em princípio, não traz grande vantagem, a não ser que os métodos de autoração se padronizem e passem a oferecer 4K nativo, HDR e som 3D ao mesmo tempo. Neste último quesito, dá para notar os comentários de frustração que tomam conta daqueles que vêm nos discos especificações de trilha sonora com codecs Dolby ou DTS convencionais.

Não quero aqui ficar me lamentando, mas ao mesmo tempo sinto que a solidariedade precisa ter precedência. É preciso respeito ao consumidor, não só pelo inevitável desgaste financeiro, mas também em consideração à frustração de ter em mãos um produto de qualidade inferior ao potencial anunciado.

A resistência ao futuro tem um preço e custa caro

Eu aprendi com um professor de História no colégio que se deve estudar o passado, de maneira a se compreender o presente e antecipar, se possível, o que ainda vem por aí.

Existe ainda hoje uma comunidade de pessoas ligadas ao áudio que vê no som analógico um calor que eles dizem que o som digital não tem, e usam isso como desculpa para torcer contra ou fazer campanha para que os antigos formatos voltem ao mercado com toda a força, coisas como Lps e fitas cassete.

Todos se esquecem de que a indústria desativou plantas caríssimas e converteu estúdios para conseguir sobreviver. Muitas não conseguiram. Se ainda existe a possibilidade de prensar vinil e duplicar fitas é porque o material que foi desativado foi reaproveitado por um ou dois segmentos fabris do mercado. O resto pulou fora e não volta mais.

Durante anos a fio os estúdios fizeram todo o tipo de jogo de cintura para contornar problemas técnicos impostos pelos discos analógicos. Durante a década de 1970, a Sheffield Lab iniciou uma campanha sórdida contra o som digital. “Stop The Digital Madness”, gritavam eles sem parar e estampavam na camiseta. Anos depois, voltaram atrás, talvez diante das evidências acachapantes da realidade que eles inicialmente se recusaram a enxergar.

A empresa havia proposto que a fita analógica era a principal culpada da falta de qualidade do Lp e assim passou a gravar direto ao acetato cortado no torno, o chamado Direct To Disc, ou corte direto, aqui entre nós.

E a verdade é que todos nós amantes do áudio e da música nos maravilhamos com as gravações da Sheffield Lab. Ninguém teve cabeça fria para analisar o que estava acontecendo. O engenheiro Doug Sax espertamente limitava cada face do disco até próximo de uns quinze minutos, de modo a evitar a queda de velocidade linear da agulha de corte.

Com cápsulas de alta compliância, até dava certo e o som parecia ótimo. Mas o tempo passou e hoje, ao ouvir estas gravações, dá para notar que as limitações do analógico não eram somente das fitas magnéticas, como se dizia.

O Dr. Mark Waldrep, fundador da AIX Records, e fervoroso adepto do PCM, nos mostra com simplicidade o que faz uma gravação ter grande qualidade: escolha e posicionamento de microfones!

No álbum da AIX gravado pelo quinteto do baixista Jim De Julio, o registro em PCM 96 kHz/24 bits 5.1 canais foi feito com um arranjo minimalista de dois microfones em ângulo para cada músico. O resultado é excepcional e nada tem de “áspero” como dizem os detratores do som digital.

Na realidade a dinâmica sem distorção normalmente conseguida em um registro desses nem se sonhava obter na melhor época do analógico. A gravação foi feita em um auditório adequado, dando ao registro uma acústica natural e convincente. Os músicos são posicionados em círculo, uns frentes aos outros, nada de muito misterioso ou esotérico a este respeito.

Existem, como dizia Doug Sax, limitações na fita analógica, mas jamais na proporção que ele anunciava. Máquinas Studer de 16 e 24 canais, usadas até os últimos dias do som analógico, demonstram isso claramente. Essas matrizes, se transpostas corretamente a um CD, mostram que o som digital ajuda a preservar o trabalho original, e não destruí-lo.

Querer insistir na volta do Lp ou da fita cassete implica entrar em um mercado que não existe mais na proporção do que era décadas atrás. Eu me pergunto às vezes, porque usar fita cassete, se com MP3, AAC etc., se consegue muito mais e com muito mais qualidade?

Se for só por diversão, eu até entendo! [Webinsider]

. . . . .

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2 respostas para “Um festival de enganação”

  1. Fabio F disse:

    Eu sou um pouco saudosista nesse quesito. Tenho uma coleção de aproximadamente 200 vinis e aprecio deveras não só a sonoridade, mas também o ritual. Montei um sistema com módulos Pionner no fim dos anos 70 e início dos 80, aqueles pesadíssimos em aço escovado. Mas é por farra mesmo. Não sou avesso á tecnologia, pelo contrário, tenho iPod, tenho músicas em MP3 no micro e também tenho boa quantidade de CDs, mas particularmente separo os momentos/tecnologias. Se estou de carro, escuto música em MP3 via pen drive/som do carro. Se estou a caminho do trabalho de ônibus, ou caminhando passeando com o cachorro, vou de iPod. Se quero apenas deixar rolar um som enquanto cumpro alguma tarefa em casa, apelo para os CDs. Mas quando o programa em si é escutar música, ai prefiro vinil mesmo. Me fecho no gabinete, sento em uma poltrona, coloco o disco pra rodar e fico escutando enquanto manuseio a capa e o encarte. Nessas ocasiões a música não é pano de fundo para outra atividade, ela é a atividade em si, aí eu aprecio mesmo curtir o ritual do LP. Vc acha loucura?!?

    • Não, Fabio, é claro que eu não acho loucura. Todo mundo tem direito de gostar daquilo que lhe traz algum tipo de emoção, independente do que acham outras pessoas àquele respeito. Eu também ainda me sento para ouvir música, como muitos amigos também o fazem, mas a pressa da vida de hoje tirou da maioria das pessoas este tipo de hábito.

      Por outro lado, eu acho um absurdo pessoas se sentarem na frente de uma câmera e saírem discursando, por exemplo, sobre a qualidade das fitas cassete. Em virtude da enorme experiência que eu já tive disso, eu sei na minha consciência que aquele discurso está errado. Eu tenho a responsabilidade comigo mesmo de somente colocar na minha coluna opiniões nas quais eu tenho absoluta convicção, caso contrário eu estaria sendo falso com o leitor. Leitor esse, aliás, que jamais será obrigado a concordar com o que eu afirmo.

      Mas, se alguém sai por aí dizendo que fita cassete é um produto esquecido que era ótimo, das duas uma: ou ele/ela não tem experiência alguma com isso, ou então tá levando uma grana por fora para promover o produto de alguém. Por acaso, o vídeo que eu assisti mostra no background uma das pouquíssimas indústrias que ainda fabricam fitas cassete. Não te parece estranho?

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