SACD Quadrafônico!

Nova Escola de Marketing
20 de março de 2017

O SACD feito a partir de matrizes quadrafônicas volta à cena com originais populares e a gente agradece a iniciativa.

Na década de 1970 o disco Lp quadrafônico entrou nas lojas inclusive brasileiras com toda a força, encarando um usuário final completamente despreparado.

Mesmo após o CinemaScope ter sido introduzido nos cinemas anos antes com a presença de um canal surround traseiro, a verdade é que ninguém imaginaria como seria possível usar canais surround em gravações de música.

Nesta mesma época um amigo meu que fazia engenharia me convidou para uma visita aos estúdios da Rádio Transamérica, recém-instalada em uma casa antiga que ficava mais ou menos próxima de onde eu morava. No andar de cima, ficava o sistema quadrafônico completo, complementado com Dolby FM, transmitindo nem eles sabiam para quem. O receiver com Dolby eu até tinha, mas quadrafônico?

Não bastasse tudo isso, o Lp quadrafônico era ultra problemático, e desestimulou muita gente que eu conheci de fazer uso de um.

Dias atrás um amigo meu americano me chama a atenção para o site da Dutton Vocalion, com uma liquidação de estoque gigantesca. Não é a primeira vez que a iniciativa isolada de terceiros recorre a matrizes quadrafônicas da década de 1970 para encorajar o consumidor com algo que ele nunca ouviu.

Pois bem: eu tive na coleção de Lps um álbum duplo do compositor Michel Legrand com o título “Twenty Songs Of The Century”, que na época foi desprezado por mim devido ao conteúdo comercial exagerado. O disco foi gravado pela Bell Records, e prensado no Brasil possivelmente pela CBS, se a memória não me trai. Quando eu me desfiz da minha coleção de Lps, esse foi um que seguiu junto.

Mas, achei na loja indicada pelo meu amigo a versão “multicanal-estéreo” em SACD, e como discos deste tipo estão cada vez mais raros, eu resolvi arriscar.

O disco chegou agora, e me pegou de surpresa. A loja não me comunicou quando teria despachado a minha compra, muito menos se a remessa era registrada. E era, felizmente, porque postagens sem registro frequentemente desaparecem uma vez chegadas ao país, depois não se consegue reclamar e ninguém explica como e porque elas somem!

Logo aos primeiros acordes da primeira faixa, outra surpresa: a mixagem não era a de um disco convencional, com a imagem da orquestra ao longo do palco sonoro criado pelos canais frontais.

Eu achei aquilo estranho, porque parte da percussão e do resto da “cozinha” da orquestra havia parado nos canais surround. Inicialmente eu imaginei tratar-se da mixagem chamada tecnicamente “on stage”, ou seja, você dentro do palco onde a orquestra está localizada e o ouvinte cercado pelos músicos.

Mais alguns minutos, e aí sim me dei conta que não era bem assim. O disco era quadrafônico, bastando depois uma leitura na contracapa para confirmar isso!

Mais tarde, o meu amigo da América me chama a atenção para o uso de matrizes quadrafônicas pela Dutton Vocalion. O trabalho de recuperação da Dutton é conduzido pelo seu proprietário, a partir das matrizes originais. A qualidade do áudio é excepcional.

Quanto à mixagem, bem este é um daqueles projetos de enlouquecer qualquer purista. A gente não sabe o que bateu na cabeça dos técnicos naquela época, ao obedecer cegamente ao que aparenta ser uma demonstração do formato quadrafônico. Logo na segunda faixa, o som em pizzicato de um instrumento de corda dá a volta completa no ouvinte, começando pelo surround esquerdo, até voltar ao ponto de origem.

Em “One Note Samba”, do nosso ilustre Tom Jobim, o piano pula de um canal para outro incessantemente, aliás, com um arranjo soberbo, diga-se de passagem.

Apreciação

Muito da minha antiga coleção de Lps ficou para trás, na expectativa de ver a maioria dos títulos ser reeditada em CD. Muitos deles não viram a luz do dia em qualquer formato digital até hoje.

Discos quadrafônicos há anos se tornaram obsessão de grupos de fãs e também de audiófilos que aceitam diferenças de mixagem. Nas Internet é possível se achar listas enormes de gravações que tiveram versão quadrafônica. Muitas fitas foram transpostas para CDs com DTS, por iniciativa pessoal de aficionados.

Na minha opinião, o som quadrafônico pertence a uma época e as mixagens, às vezes condenadas nas análises publicadas em vários sites, podem ser esdrúxulas perante os ouvidos de hoje, porque anos se passaram onde os conceitos da mixagem de palco mudaram radicalmente.

Um exemplo típico de mixagem que foi vaiada por puristas e exegetas do rock progressivo foi a regravação de Tubular Bells em 2003, editada em DVD-Audio multicanal naquele ano. Nesta mixagem o som muda constantemente de lugar, dá a volta no ouvinte, e o arranjo é completamente diferente do original. Anteriormente, a gravação quadrafônica original feita na gravadora inglesa Virgin foi lançada em SACD, e ouvindo as duas não dá para traçar nenhum tipo de comparação. Eu achei a condenação do TB 2003 injusta e descabida! A gravação como um todo, feita digitalmente, tem uma dinâmica que as versões anteriores não teriam condição de superar.

Mas, na transposição literal da madre quadrafônica, a palavra chave é preservação! E como tal deve ser respeitada completamente.

A Dutton Vocalion se propôs ao mesmo trabalho de selos como a Pentatone, um grupo de ex-engenheiros da Philips holandesa, que se propuseram a recuperar o catálogo de clássicos do antigo grupo Polygram. Exceto que no caso da Vocalion o catálogo é uma mistura de clássico e popular.

A julgar por este disco o trabalho da empresa é feito debaixo de critérios rígidos de qualidade, mas na verdade eu só poderia fazer tal afirmação depois de ouvir outros discos dentre os lançados por eles.

Na época dos meus Lps eu achava este álbum duplo um Legrand de menor estatura e a minha opinião não mudou muito ouvindo o disco novamente. Muito do trabalho do genial compositor tem expressão maior nos discos de Jazz e nas trilhas sonoras. Michel Legrand abraçou a Bossa Nova como compositor, mas não se furtou de gravar Samba De Uma Nota Só entre as 20 músicas do século.

A opinião e a seleção são dele. Henry Mancini disse, longo tempo atrás, em entrevista sobre a Bossa Nova, que Wave é uma das músicas mais perfeitas que ele havia ouvido até então. A música “sobe e desce”, disse ele, na teoria não tinha como funcionar direito, e, no entanto, a composição é primorosa. Eu concordo, mas concordo também que no meio das músicas criadas por Tom Jobim existem não uma, mas várias “obras primas”, se é que se pode usar esta classificação no coletivo!

De qualquer forma, eu me dei por super satisfeito ao ouvir o antigo álbum duplo do Legrand com um som cuja qualidade é difícil de igualar, e em um formato que permite a apreciação correta deste material de arquivo.

É uma pena que o áudio musical multicanal tenha se reduzido a um nicho, e dentro deste enterraram-se formatos como o SACD e o DVD-Audio, todos dois de alta resolução.

Pessoalmente, eu prefiro o SACD, pela conveniência do formato em si. Acho uma bobagem a discussão que houve entre adeptos do PCM e do DSD. A despeito das críticas, eu ouço SACD sem nenhum constrangimento, e espero que iniciativas de relançamento de títulos possa suprir a lacuna dos Lps cujas gravações desapareceram das nossas discotecas. [Webinsider]

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O som por imersão

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