Musicais antigos e o home theater moderno

15 de maio de 2017

Sweet Charity em DVD ganha extraordinária dimensão com o processamento Dolby Surround, equipado nos modernos decodificadores com Dolby Atmos.

Na minha coleção de discos, eu ainda tenho a versão em DVD do filme “Sweet Charity”, dirigido por Bob Fosse, no final da década de 1960. Antes assim, porque apesar de recentemente anunciada, a versão em Blu-Ray ninguém sabe quando e se vai sair.

O lançamento do DVD foi objeto de uma campanha na década de 1990, quando fãs do filme começaram a pedir para a Universal que tomasse uma providência a respeito. Eu mesmo escrevi uma carta convencional de correio pedindo este lançamento. Nas edições em Laserdisc e em videocassete o fotograma original 2.35:1 (35 mm) do filme tinha sido cortado para 1.33:1 standard, e o som remixado para Dolby Stereo.

Na edição em DVD, duas coisas aconteceram:

Primeiro, quem transcreveu e editou a master de vídeo conhecia a maneira como o filme foi lançado nos cinemas da época na versão em 70 mm, e por isso logo no início da música de abertura a imagem apaga, a música continua e vai assim até a introdução do filme com o logo da Universal. Nos cinemas, era o momento da abertura das cortinas, produzindo um efeito simplesmente espetacular.

O segundo aspecto foi uma nova mixagem para Dolby Digital. Anteriormente o som original de 4 trilhas do cinema havia sido transposto para Dolby Stereo, de maneira a “atualizar” (eu preferiria dizer “Dolbysar”) a trilha sonora para os padrões dos home theaters da época. Apesar da trilha remixada já existir, no DVD foi omitida a chamada “Exit Music” ou música do encerramento do filme com as luzes do cinema já acesas.

Sweet Charity foi filmado em 35 mm e posteriormente ampliado para 70 mm, com seis canais de som estereofônico. Uma cópia retificada foi apresentada no Cinema Roxy, do Rio de Janeiro, no formato Super Cinerama, ou Cinerama 70.

Os técnicos da Universal usaram uma master de 4 canais, literalmente transcrita no DVD em Dolby Digital 4.0, e soa maravilhosamente bem!

Entretanto, alguns efeitos sono-plásticos, como o da cena onde a personagem grita “Someone Loves Me”, introdução da música “I’m A Brass Band”, coreografada na sequência, a voz da atriz fica restrita aos canais da frente, ao contrário das edições anteriores em Dolby Stereo que exibiam a voz ecoando no surround!

É um erro lamentável, mas para os afortunados que instalaram um sistema com Dolby Atmos, e com a remixagem no decodificador por “upmixing” para os canais superiores, realizada pelo algoritmo Dolby Surround, a reprodução leva de volta os gritos da atriz para onde nunca devia ter saído, e mais interessante ainda, faz o som ecoar pela sala toda de maneira inacreditavelmente convincente, melhor até, eu diria, que a reprodução do som na sala de Cinerama que eu ouvi.

Infelizmente, apesar de bem feito, o DVD joga para baixo a qualidade original da imagem vista no cinema, o que se espera ser corrigido na edição em Blu-Ray.

Uma certa feita, conversando com o pioneiro em 70 mm Orion Jardim de Faria, ele me conta que havia feito a troca dos projetores Philips DP-70 no Cinema Vitória pelos seus Incol 70/35. O filme de inauguração dos novos projetores foi, segundo ele, “daquelas três moças que dançam em um telhado”, cujo título ele não lembrava mais. Ah, mas eu sim. Tinha visto a apresentação nos dois cinemas, Cinerama 70 e 70 mm plano, exatamente no Vitória.

O Orion, profundo conhecedor de cinema e filmes, não tinha ideia da batalha que havia se travado para o lançamento do DVD, e nem sabia que a Universal havia anunciado o lançamento do disco no Brasil, lançamento este que nunca foi feito. Claro, fiz imediatamente uma cópia 1:1 e mandei para ele, que assim resgatou a sua memória daquela época, muito justo.

A inovação do filme musical

Se o leitor quiser saber por que tanto esforço dos fãs para o relançamento do filme em mídia doméstica, eu vou tentar explicar:

Bob Fosse foi um homem da sua arte! Em significativa carreira no teatro e no cinema (particularmente no estúdio da M-G-M), entre idas e vindas da Broadway, ganhou inúmeros prêmios dirigindo peças que ficaram famosas, entre elas Sweet Charity, com a colaboração da dançarina e atriz Gwen Verdon, com quem era casado na época. Gwen Verdon, para os que não a conhecem por serem mais jovens, aparece já idosa em uma personagem do filme Cocoon, dos anos 80.

Bob Fosse decidira ele mesmo fazer cinema como diretor. E com a introdução da modificação das rotinas de dança, usando extensamente a expressão corporal dos dançarinos e atores, com corpos em postura distorcida, que viria a ser a sua marca em projetos subsequentes.

Além disso, adaptou a cinematografia para acompanhar as rotinas de dança, ora usando câmera imóvel, ora zoom, ora imagem estática. Algumas dessas sequências chegam a ser brilhantes e servem ao objetivo do roteiro, que é criticar a frieza da sociedade esnobe nova iorquina, diante de uma personagem cuja ingenuidade a fazia cair em esparrelas emocionais, uma atrás da outra.

Mais moderno e inovador do que La La Land

Charity Hope Valentine é uma mulher humilde, sem grana e que luta para sobreviver. Seu maior sonho é encontrar o homem ideal com quem pudesse se casar. Mas, acreditando obsessivamente na intenção dos parceiros, achando que todos eles eram santos, acaba sempre sozinha e desiludida. O seu maior empecilho é a emancipação sem formação educacional adequada. Seu emprego como taxi dancer, onde seu corpo é alugado toda noite, a torna uma pessoa degradada perante a sociedade que a cerca. O filme sugere que ela se prostitui ocasionalmente, e que ela sente vergonha por isso!

Shirley MacLaine, ainda em ótima fase, facilita o trabalho do diretor, misturando com competência drama com comédia, não se sabe quando começa um e acaba a outra!

Sweet Charity é um musical mais moderno e inovador do que La La Land, quem assistir vai notar isso logo de cara!

Foram filmados dois finais, divulgados no Laserdisc e no DVD, e o diretor optou, por sorte nossa, pelo melhor deles:

Depois da última esperança de relação afetiva concreta, saindo do casamento desfeito antes da cerimônia começar, Charity, desamparada e deprimida, aparece sozinha em um banco do Central Park, cabisbaixa e triste. Mas, vai ao seu encontro um pequeno grupo de jovens hippies, oferecendo flores e pregando o amor entre as pessoas, típico daquela época. Ela olha inicialmente com surpresa e desconfiança, mas no final acaba sorrindo, saindo dali com a esperança renovada. São os autores do filme condenando uma sociedade consumista e enfatizando a mudança pelas novas gerações, que são descompromissadas com a hipocrisia que caracterizou o comportamento social de pessoas afeitas aos seus próprios interesses, em torno do próprio umbigo, e não ao bem estar do próximo.

Bob Fosse ficou muito mais conhecido pelo público em geral por causa do filme Cabaret, com a participação da polêmica Liza Minnelli, filha da atriz Judy Garland. Olhando em retrospecto, Cabaret não é um mau filme, mas muito longe da dinâmica narrativa que é mostrada em Sweet Charity, em certos momentos chega a ser monótono.

Toda vez que se reproduz uma trilha antiga como essa com o uso de um sistema moderno de processamento de sinal a impressão que passa é que ela ressuscita das cinzas, revela a sua antiga vitalidade e a qualidade que um dia foi observada pelos privilegiados que a viram nos cinemas. É esta lembrança, em última análise, que motivou fãs do filme e do diretor, em pedir encarecidamente que este filme não fosse esquecido nas prateleiras do estúdio! [Webinsider]

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