Apreciação de Elis, o filme e a cantora

Nova Escola de Marketing
23 de junho de 2017

Alguns comentários sobre Elis, o filme do cineasta Hugo Prata, sobre aspectos da obra da cantora que aparecem no roteiro do filme de forma conflitante.

Todo mundo da minha geração conheceu Elis Regina, desde os tempos em que ela agitava os braços como se fosse uma hélice de avião, no palco do programa O Fino Da Bossa, que de Bossa Nova propriamente dita não tinha quase nada, vá se entender por quê.

Eu assisti o filme “Elis” com todo o interesse. Mas, o fato é que quando se trata de filme biográfico o perigo ronda o script o tempo todo!

Porque pode-se cometer injustiças, distorções, fantasia, e até glamorização de fatos banais, sem que os personagens na vida real tenham participado deste glamour todo.

Como eu não sou crítico de cinema, eu vou me permitir tecer comentários na forma de uma apreciação pessoal da obra do diretor Hugo Prata com o título “Elis”, filme que conquistou vários prêmios no Festival de Cinema de Gramado em 2016.

Elis, o filme

A primeira coisa que me chamou a atenção em “Elis” foi o sorriso emulado de Elis Regina feito pela atriz Andréia Horta o tempo todo do filme. E a gente se pergunta se Elis Regina de fato sorria tanto assim? Vendo entrevistas da atriz posteriormente eu notei que o sorriso natural dela, muito bonito aliás, não é o mesmo, mas ninguém divulga, que eu saiba, se foi usada uma prótese dentária para rodar o filme ou se a artista exagerou mesmo na expressão facial, distorcendo o rosto.

Eu entendo que, tendo uma vida particular complicada, e que supostamente levou a cantora para as drogas e para a morte, os roteiristas teriam que tomar extremo cuidado para não entrar em detalhes que pudessem contaminar a plateia com a noção de que Elis Regina pudesse ter sido uma mulher desequilibrada, destruindo assim o mito que a cantora se tornou.

E o que se percebe logo no início do filme é a ênfase na interpretação da canção “Como Nossos Pais”, que exibe uma mulher que aparenta estar tão revoltada com a vida quanto a letra da música que ela canta.

Por outro lado, é também possível para quem está assistindo esquecer a suposta revolta e entender Elis como uma cantora de Blues, que, na minha modesta opinião, de fato o foi!

Conscientemente ou não Elis introduz o Blues em um monte de suas interpretações, independente do gênero da música que ela está interpretando, e neste aspecto ela para mim expôs uma das suas maiores virtudes como intérprete. Em “A Volta”, por exemplo, gravada em 1969 pela Philips na Europa, ela estende as notas em partes da letra de uma forma magistral, dando à música uma sensação de ansiedade que revela o lado interpretativo da letra.

Se Elis tinha esta lado de cantora de Blues ela também teve um lado meio que “Janis Joplin”, ao gritar, com intensa sobriedade e qualidade vocal, segmentos das letras de algumas músicas, como a já citada “Como Os Nossos Pais”.

O filme

Eu não conheço o diretor Hugo Prata, nem a sua filmografia, mas à primeira vista me parece um profissional competente e um realizador detalhista. Como ele participa do roteiro e possivelmente da adaptação da peça no qual o filme se baseia, parte da minha crítica aos roteiristas é dirigida a ele também.

Logo no início do filme o roteiro expõe personalidades conhecidas, como Miele e Bôscoli, o segundo com características um tanto ou quanto machistas e descaradamente mulherengo.

Dali para frente o roteiro não explica como Elis, que faz críticas a ele neste sentido, se tornou mulher de um cara assim. O roteiro expõe também o lado homossexual de Lennie Dale, sem que isto fosse radicalmente necessário para o desenrolar da estória.

Alguns detalhes nos diálogos me chamaram a atenção pela ousadia, como por exemplo, a citação atribuída a Vinicius de Moraes de que São Paulo era o túmulo do samba, e por extensão da bossa nova. Os próprios protagonistas reclamam da falta de Bossa Nova no programa Fino da Bossa (ou 2 Na Bossa, se quiserem), por conta da participação do cantor Jair Rodrigues, que era por natureza um sambista tradicional.

Do jeito que o filme é construído, a impressão que passa no seu primeiro ato é que a Bossa Nova era resultado de uma esbórnia noturna passada no Beco das Garrafas, em Copacabana.

Depois aparece aquela estória de que a Bossa Nova não vendia discos. Historiadores alegam que a “independência” na produção musical daquela época é devida a Aloysio de Oliveira, quando criou a gravadora Elenco. A bem da verdade, foram feitos muitos discos Elenco mal gravados, alguns com artistas cantores ou cantoras de qualidade duvidosa, mas que nunca deixaram de vender por conta disso.

Nas sequências onde a cantora se estabeleceu, ainda sobra uma crítica (correta, por sinal) de que muito da música popular daquela época ajudou a derrubar o movimento bossa novista e fazer aparecer todo o tipo de mediocridade musical, como a tal Jovem Guarda, que era basicamente uma contrafação do rock-and-roll norte americano.

Então, em função de uma realidade adversa, Elis Regina teria mudado de rumo e se estabelecido como uma cantora popular comercial de carreira, com o objetivo de sobreviver vendendo discos. A sua associação com Cesar Camargo Mariano, na vida real e no filme, foi decisiva para que tal ocorresse. Mas os arranjos feitos para os discos foram, em sua grossa maioria, de muito bom gosto.

No terceiro ato “Elis” deixa de expor cada acontecimento mais claramente. E no final não se sabe exatamente o que fez a estressada cantora abusar de pílulas e se drogar. O filme sequer menciona de que tipo de droga Elis era dependente, o que é estranho, visto que na primeira parte do filme todo mundo ali passa por um processo expositivo, a meu ver, desnecessário para justificar qualquer coisa a posteriori.

A cantora

A existência de qualquer um pode ser um desperdício se não forem estabelecidos objetivos concretos ao longo da vida, em coisas como trabalho, carreira, lazer, etc.

Ouvindo uma entrevista do diretor de Elis, ele conta que teve total apoio dos filhos sobreviventes da cantora, mas que nenhum deles se pronunciou durante ou depois do filme estar pronto.

Bom, sinceramente, eu sou um que não gostaria de ver a minha mãe exposta daquela maneira, seja lá porque motivo for. Elis Regina é mostrada como uma pessoa deprimida ao longo do desenrolar do roteiro, às vezes sexualmente promíscua e principalmente dividida entre a vaidade e a insegurança.

Mas, e o lado musical da cantora, onde é que fica?

Biografias deste tipo filmadas lá fora, e neste caso aqui não é exceção, se detém em demasia no lado podre e nas decisões erradas de músicos e cantoras, ao invés de explicar como eles se tornaram os ícones musicais que foram.

Não há dúvida de que Elis Regina a cantora contribuiu para a qualidade de todo o material fonográfico que é possível se obter até hoje. Sua discografia varia em conteúdo, mas nunca a ponto de ver comprometido o seu compromisso com a honestidade das suas interpretações.

Elis Regina, por causa disso, conseguiu superar as limitações de todas as canções por ela gravadas indistintamente, e levou a um brilho singular àquelas de melhor qualidade e relevância no cenário musical brasileiro.

Tecnicamente, “Elis” o filme é muito bem fotografado (usou-se câmera Alexa XT), mas na parte do áudio poderia ser muito melhor. Existem diálogos pouco inteligíveis ao longo de boa parte do filme, e como a trilha é digital, eu não sei a que este tipo de falha é devida.

“Elis”, o filme, é um esforço honesto, apesar de algumas hesitações do roteiro, e se ele servir para ajudar a divulgar a obra da cantora, tanto melhor. [Webinsider]

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