O resgate de Far East Suite, obra prima da história do Jazz

Nova Escola de Marketing
12 de agosto de 2017

Far East Suite, de Duke Ellington, ficou com uma má reputação na qualidade do som quando de seu lançamento. A restauração em CD muda tudo.

Quando técnicos recorrem de fato a fitas analógicas originadas nas sessões de gravação o resultado é o melhor possível, e isso nos é mostrado mais uma vez, só que com o resgate de uma obra prima do Jazz.

Todos os fãs de Jazz indistintamente sabem que apesar das novas gerações de músicos terem provado grande valor artístico as obras que consagraram o gênero ficaram no passado, com artistas que acabaram se tornando ícones da música jazzística.

Entre eles, figuram os nomes de Louis Armstrong, meu primeiro grande ídolo, e Duke Ellington, ambos que quando tocavam pareciam dotados de uma inspiração divina!

Gary Giddins disse em documentário que Louis Armstrong “fazia os anjos chorarem”, em referência ao fato de que, com o peso da idade, o grande Louis passou a tocar blue notes isoladas, de longa duração e impacto.

Mas, Duke Ellington não fica atrás. Homem dotado de uma sensibilidade que se percebe em cada nota do piano, é como se estivesse compondo no momento que tocava. Todos os grandes músicos de Jazz, tradicionais ou modernos, eram assim: compositores no momento da execução. Muitos sequer davam bola para arranjos ou leitura das pautas. E isso é, em última análise, o que distingue uma sessão de gravação das outras.

Duke Ellington gravou uma série de suítes, entre elas uma com o nome de Far East Suite, em 1966, e que por uma estranha coincidência foi alvo de críticas desabonadoras, inclusive à época do lançamento.

Além disso, a série Dynagroove de elepês, idealizada pela RCA na década de 1960, escorregou feio no disco de Ellington, e ficou com uma má reputação na qualidade do som.

Bem recentemente, eu escrevi uma coluna sobre o selo Bluebird, e mencionei que havia sido feita uma restauração completa da gravação original. Na ocasião eu havia encomendado esta nova edição, mas com o serviço de correio andando a passos lentos, foi quase um milagre tê-la recebido apenas há alguns dias atrás, com um atraso tão grande que eu nem lembrava mais de ter comprado o disco.

Bom, paciência, chegou às minhas mãos e é o que importa. No encarte, a descrição da odisseia dos restauradores para contornar os problemas do antigo elepê:

história do jazz

Um adesivo colado na embalagem do disco faz imediata referência ao processo de restauração. Não foi suficiente resgatar as fitas, mas remixar todo o conteúdo, de modo a recriar a matriz original.

Duke Ellington

O produtor Orrin Keepnews, especialista no assunto, relata que os restauradores começaram da maneira usual, que foi pesquisar a master de dois canais, feita em 1967 para a produção do elepê.

Depois de achada nos arquivos da RCA, parecia bem preservada, mas logo que foi colocada para reproduzir o experimentado engenheiro James Nichols notou logo que havia algo errado. Logo de cara, o tom de alinhamento, necessário para a reprodução correta da fita, apresentava inconsistências significativas, ficando virtualmente impossível de ser usada para uma remasterização correta. Tudo isso levou a equipe de restauração a tomar um chá de desânimo.

A solução foi tentar achar a fita matriz original, neste caso uma master alfa (primeira geração) de 4 canais. A equipe se sentiu aliviada, porque o número de canais facilitou a remixagem.

Naquela época as gravações em estúdios tinham ido de 3 para 4 canais, mas pouco depois iriam subir para 8 canais e no início da década de 1970 para 16 canais, o que dificultaria tudo, na hora de recriar o som original da mixagem de dois canais.

A tarefa de remixagem foi mais ainda facilitada pela maneira como o engenheiro de gravação da época (Ed Begley) separou os vários elementos da orquestra: a seção de sopro ficou dividida em 2 canais, a cozinha (baixo e bateria) em outro canal, e finalmente todos os solistas no quarto canal.

A gravação original tinha sido feita em 19, 20 e 21 de dezembro de 1966, no estúdio A da RCA em Nova York, e a master de 2 canais preparada no início de 1967. A nova remixagem foi completada em 1994 e reeditada em CD, sem muito alarde. Dentro do espírito da recuperação das sessões de 1966, algumas tomadas que ficaram de fora do elepê foram também remixadas e lançadas no CD. Nenhuma delas mostra diferença de arranjo e execução quando comparadas com as faixas que ficaram no elepê final.

Na capa do CD atual, contendo a remixagem, o genial compositor e arranjador Billy Strayhorn aparece ao lado do maestro. Ele está na foto para nos lembrar que a Suite Far East resultou do trabalho em colaboração desses dois gigantes do Jazz (sem querer repetir o cansativo cliché).

Nenhum fã de Jazz que se preze irá levar em consideração as críticas negativas, maldosamente dirigidas a esta Suite, até porque muitos desses críticos desaprovaram as iniciativas de “boa vizinhança” dos norte-americanos que naquela época enviaram músicos para turnês no mundo inteiro, inclusive para o Brasil.

No caso brasileiro, vários dos que vieram voltaram para a América impressionados com a bossa nova, ouvida ao vivo em recintos do Rio de Janeiro. E é sempre bom lembrar que a bossa nova mudou o Jazz dali em diante.

O que a restauração resgata extrapola o plano musical: é possível ter a percepção exata do ambiente acústico do estúdio, ou seja, um aumento considerável de ambiência, aspecto de muito valor para audiófilos e amantes de música. E isto fica patente logo após os primeiros momentos da participação de Ellington ao piano, e se segue com a reprodução de alguns solistas, em particular a do inigualável Johnny Hodges ao sax alto e a de Russel Procope, ao clarinete.

Nem sempre dá certo!

A restauração de gravações analógicas exige critério. Um técnico que se limita burocraticamente a fazer o dever de casa não merece crédito, e quem sofre é o colecionador!

No início da década de 1970 eu estava em visita na Tapecar, que ficava próxima da Avenida Brasil, no Rio de Janeiro. A fábrica, que depois de mudaria para Bonsucesso e iria ser equipada para cortar acetato e prensar elepês com o que existia de mais moderno, naquela época era uma duplicadora de fitas em cartucho para carro, fitas cassete e de rolo.

O “seu” Fernando, um dos donos, pessoa muito gentil, recebeu a mim e a um amigo de infância, igualmente entusiasta por música e áudio, cujo pai, veterano da área, trabalhava no setor de vendas da empresa.

Eu ganhei uma fita de rolo, em 7 1/2 polegadas de velocidade, para ser duplicada na minha frente. Eu escolhi a master da gravação Decca “North Of The Border”, feita por Duke Ellington no Canadá, junto com a orquestra de Ron Collier. Ao chegar em casa, e ouvindo a fita, uma surpresa desagradável: desalinhamento, flutuação da amplitude e ausência de separação estereofônica correta.

É bem possível que a culpa não tenha sido do técnico da Tapecar. Na época não tive coragem de perguntar sobre a origem daquela master, mas era uma fita de 2 polegadas, moderna e de alta qualidade para os padrões dos estúdios.

É também bastante possível que a mixagem original da Decca canadense tenha esbarrado em problemas. A evidência vem da importação da matriz e remixagem do original pelo selo alemão MPS, depois lançada em elepê com  título Collages, em parceria com a Basf.

Duke Ellington

A RCA de São Paulo lançou este elepê MPS-Basf, com o selo BASF. O corte e a prensagem estão impecáveis, e eu usei esta cópia para remasterizar para um CD-R, lá pelo meio da década de 1990.

De lá para cá, o disco sumiu, e nem sombra do CD. Até que anos atrás eu achei uma edição do selo italiano Folio, mostrado acima. Nos créditos há uma referência ao material original MPS, com remasterização feita na Alemanha.

Duvido que tenha sido feita nas fitas originais. O som não chega a ser ruim, mas longe do que poderia se esperar do material remixado na época da Basf. Há uma notória compressão na parte de baixa frequência, e em partes da execução da orquestra.

Muita gente critica o “som do CD”, mas nunca se lembra de pesquisar de onde veio aquele “som”. Todas as remasterizações feitas por técnicos que sabem o que estão fazendo, usando fitas “alfa”, obtidas nas sessões de gravação propriamente ditas, rarissimamente dão errado.

O CD tem ampla gama de reprodução e nem é preciso muito esforço para se garantir uma reprodução fiel do áudio original da fita magnética gravada no estúdio, a não ser que ela tenha se deteriorado com o tempo. Se tiver, existem ferramentas capazes de resgatar muita coisa, e isso, para qualquer colecionador, já é um tremendo alívio! [Webinsider]

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Gravações RCA Bluebird Dynagroove

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