Resolução 8K na TV é querer ser mais realista que o rei

Nova Escola de Marketing
29 de agosto de 2017

Vídeo com resolução 8K ainda é uma promessa e só terá pleno suporte nas Olimpíadas de 2020. Até lá, aspectos técnicos e financeiros terão que ser resolvidos.

Ao final de 2015 os noticiários davam conta do lançamento de aparelhos de TV com 8K de resolução, ao preço de aproximadamente 133 mil dólares. Mas, aparentemente, nada foi ainda lançado ou vendido. A expectativa da presença deste tipo de TV nas lojas ficou para 2020, quando então os japoneses pretendem jogar no ar imagens 8K ao vivo das Olimpíadas.

Enquanto isso, as TVs com 4K UHD caíram de preço em alguns modelos, mas com outros ainda vendidos a preços estratosféricos, com uma desculpa tecnológica qualquer.

Em época de crise, o consumidor em geral sempre se questionará se vale a pena gastar dinheiro. E nem é preciso lançar mão de raciocínio técnico, o lado financeiro da relação custo benefício irá ter prevalência na decisão de compra.

A crise não é só deste país, a diferença é que aqui a corrupção e a roubalheira dos cofres públicos, aliados à má administração do estado, acabaram por levar o que sobrou à bancarrota, prejuízo do qual a indústria eletroeletrônica não poderia escapar.

Posso estar enganado, mas não creio que a produção per se de aparelhos de TV 8K seja o empecilho do custo a ser praticado a balcão. A indústria é cheia de meandros, e tem hábito de jogar lá para cima os preços das novidades, sem apresentar planilha de custos para ninguém. Não faz tanto tempo assim, aliás, que um Blu-Ray player era vendido aqui por cerca de cinco mil reais, e ainda era um modelo de primeira geração.

Na década de 1990, eu me lembro bem que quando a Intel lançou o computador dotado de processador 80486 DX (com coprocessador aritmético incluso) ele custava cerca de 7500 libras nas lojas onde eu morava, e era rotulado como “computador dos sonhos” pelas revistas de informática.

Meses depois a Intel anunciou o primeiro Pentium, e com isso o preço dos 80486 caiu vertiginosamente. O 486DX chegou a atingir 100 MHz de velocidade, mas perdeu em concorrência com os processadores mais novos, e desapareceu do mercado.

E a história se repete ad aeternum. Só que em se tratando do mercado de vídeo há quem possa justificar que uma tela 4K já é por si só um exagero. E se levarmos em conta a disponibilidade local de software (discos, por exemplo), aí então é que 4K não tem justificativa mesmo.

A objeção técnica

É bom lembrar que a resolução de 2K (ou 1080 linhas, se quiserem), foi o primeiro paradigma do que se convencionou chamar de TV de alta definição (em inglês “HDTV”). A primeira tela de HDTV, ainda em tubo, passou pouco das 940 linhas de resolução, e ainda assim a imagem era exemplar.

A resolução de 1080 linhas não foi fruto do acaso. Ela foi planejada para emular a resolução de um fotograma de 35 mm, usado extensamente no cinema.

Aqui não vale a máxima quanto mais resolução melhor, porque o aumento de informação não vai alterar a qualidade visual da imagem, a não ser que o tamanho do display atinja um valor elevado. Em telas menores, eu me arriscaria a dizer até 65 polegadas, a prática tem evidenciado que este princípio não se aplica, nem mesmo aos olhos dos chamados “experts” da área de vídeo.

Eu uso tela de 65 polegadas já faz algum tempo, em uma sala de proporções modestas. Não sou “expert”, mas também não sou cego. Noto claramente o benefício da imagem 4K, e não tenho dúvida a este respeito. Porém, quando a imagem 4K tem compressão (Netflix, por exemplo) ela se iguala em qualidade a uma imagem HD (2K) convencional.

O que me leva a afirmar que é necessário levar em conta os diversos fatores técnicos que afetam a composição da imagem. Se eu colocar para rodar um DVD bem autorado na frente de um neófito, ele vai achar que a imagem está “ótima”, não precisa mais resolução do que aquilo.

Quem tem critério, vai perceber imediatamente a ausência de resolução nos contornos ou a omissão literal de detalhes nos objetos diminutos da imagem, característica da resolução teórica de 480 linhas no qual a imagem do DVD se baseia.

O comércio não parece ser guiado por quem sabe olhar e distinguir, a julgar pelo volume catastrófico de lançamentos de DVD no mercado brasileiro e a ausência (ou omissão) de lançamentos em disco Blu-Ray nos últimos anos.

Assim, se algum fabricante for lançar no Brasil uma TV com 8K de resolução, ela vai ter aplicação aonde???

Resolução 8K no cinema e dentro de casa

As gravações digitais recentes do cinema com o uso de câmeras 8K tem tido destino para projetores profissionais 4K ou para discos Blu-Ray UHD 4K, mais nada.

Câmeras Red Weapon 8K foram usadas para a última idiotice Hollywoodiana “Guardiões da Galáxia vol. 2”, lançada recentemente nos cinemas.

Câmeras Red Weapon 8K

A empresa não foi a primeira a lançar este tipo de câmera mas achou o seu espaço nos estúdios e perante os cineastas americanos.

Para uso doméstico os modelos GoPro Omni VR e Insta360 Pro, ambos dedicados à captura de imagens para realidade virtual (VR) em 360 graus, prometem 8K de resolução.

GoPro Omni VR e Insta360 Pro

A primeira dessas câmeras vende na faixa de cinco mil dólares e a segunda por umas 3500 pratas da mesma moeda. Estão aí para quem quiser gastar.

Como os fabricantes de TV tem previsão para lançamento em 2020, quem se aventurar em algumas dessas câmeras poderá se divertir no computador, sendo que sem monitor 8K à vista.

Há bem pouco tempo era possível reproduzir um vídeo 8K pelo YouTube, mas a reprodução era cheia de percalços, travando o tempo todo. Agora, aparentemente, o 8K foi banido. Eu venho observando que com os mesmos vídeos 8K (eu tentei reproduzir um deles para testes por esses dias) a opção de 8K sumiu!

Neste ponto, e se este banimento foi feito por algum motivo técnico, o site parece ter caído dentro da realidade e do bom senso. Porque é possível reproduzir imagens 4K de excelente qualidade com TVs munidas do decodificador VP9.

Pelo computador basta ter instalado um cartão gráfico adequado e depois um monitor 4K. A maioria dos adaptadores de vídeo atuais é capaz de reproduzir os vídeos 4K do YouTube através dos navegadores, porque a tecnologia de compressão e streaming para tal é bastante eficiente.

Até esta tecnologia chegar aos 8K é possível que a diferença não compense instalar outro adaptador gráfico e principalmente comprar outro monitor, não só pelo custo financeiro como pelo tamanho dessas telas.

A tecnologia 8K para os games poderá esbarrar em problemas intransponíveis, visto que as barreiras atuais estão fortemente centradas no aumento da qualidade dos processadores e na adaptação dos códigos fonte.

A história nos mostra que nada da tecnologia de áudio ou vídeo se detém em algum obstáculo ao avanço por muito tempo. Como 2020 ainda está longe, e como a imagem 4K ainda é incipiente em conteúdo, nós podemos esperar sentados para ver como e quando esses obstáculos serão superados, e no final se vale realmente a pena mudar para 8K. [Webinsider]

O Blu-Ray UHD 4K parece que faz sucesso… lá fora!

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3 respostas para “Resolução 8K na TV é querer ser mais realista que o rei”

  1. Erlon P. disse:

    e eu sonhando em ter uma 4k e me aparece uma 8k, estou ficando obsoleto

  2. Rogério Andrade disse:

    Prezado Paulo, é um enorme prazer voltar a participar de sua coluna.
    Eu atualmente trabalho em uma emissora de TV aqui em SP (por isso posso debater sobre esse tema).
    O telespectador nos dias atuais está sendo enganado, pois transmissão em 2K (estou falando em somente 1080), não está ocorrendo em sua plenitude na maioria das redes de TV do País; e fora das grandes capitais então ? Cronograma de implantação da TV Digital em total desacordo na maioria das capitais. Que desgosto. Outro detalhe Paulo, você nem imagina, mas existem centenas de emissoras (afiliadas e cabeças de rede) gerando suas programações em Switchers “analógicos” (áudio e vídeo), e o sinal chegando em seus transmissores, passam por uma verdadeira “GAMBIARRA” para poder ser transmitidos “apenas em isdb-t digital”. Essas emissoras se utilizam de conversores/ processadores de sinal ana/digi para que o sinal (que chega analógico nos transmissores) saia em digital 16:9, mas no meio dessa salada (sem tempero e mal feita), fazem com que esse sinal seja processado através de um up-converter SD de 4 x 3 em SD 16 x 9 “emulando” sinal em HD. Vendo isso na prática funcionando em sua casa, você imagina a imagem que as Smartv reproduzem. É um vídeo “lavado” sem resolução, colorimetria totalmente fora dos padrões, e o áudio então (deixa pra lá). Paulo depois desse meu relato a você, sinceramente na minha visão, o início de operações e transmissão “regulares” em 4K aqui no Brasil, na melhor das hipóteses, só daqui uns 20 anos ou mais ! Tem outro fator Paulo, a plataforma do Blu-Ray não decolou (infelizmente) graças a internet e a pirataria; e o Blu-Ray 4K vai morrer na praia. Então não é nada lógico (no presente momento) investir o valor de um carro popular, adquirindo uma TV Oled de 4K. Acho que diante desse horizonte sombrio e longínquo, nem sobra muito o que comentar sobre a verdadeira alta definição aqui, pois no Brasil… Só este nome responderia muita coisa. Eeeita paisinho atrasado, de pouquíssimas pessoas engajadas em nos posicionar, para ficarmos aptos a receber essas novas tecnologias.

    Um grande e cordial abraço Paulo

    • Caro Rogério,

      Eu fico contente de ver você ter coragem e vir a público com este relato, pelo fato de trabalhar nesta área, e com muitíssimo mais credibilidade do que eu, ex-egresso da academia escrevendo em uma área que não é a sua.

      Esta gambiarra, como você tão apropriadamente colocou, é perfeitamente visível a quem assiste TV do ar, com todos os artefatos a que tem direito. Aqui no Rio entraram no ar várias emissoras abertas que de de HDTV só tem o rótulo do transmissor, imagem e som péssimos, e a gente se indaga que critério é esse por parte da administração pública responsável pelas concessões, que deixa entrar no ar sem controle emissoras de tão baixo nível técnico, sem falar no conteúdo da programação propriamente dito. Aparentemente, não existe fiscalização alguma e note que se está falando de uma concessão de exploração da banda de TV. Ou seja, um vexame em todos os níveis.

      Abraço,
      Paulo Roberto.

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