O mundo alternativo de George Harrison segundo Scorsese

Nova Escola de Marketing
02 de outubro de 2017

O universo do ex-Beatle George Harrison, mostrado com impressionante detalhe, no resgate da memória feito pelo cineasta Martin Scorsese.

Até agora sem título no Brasil, o bom documentário do cineasta Martin Scorsese “George Harrison: Living In The Material World”, foi oferecido recentemente pelo Netflix, e possivelmente outros serviços de streaming, nos dando a chance de apreciar a trajetória de vida do famoso músico.

São três horas e meia de um documentário dividido em duas partes. Parece muito, mas no final se percebe que uma quantidade ínfima da obra completa é irrelevante ou ligeiramente fora dos assuntos pertinentes aos personagens envolvidos.

George Harrison fez parte da histeria de fãs conhecida como Beatlemania, a maioria feminina, que cercou o aparecimento dos Beatles, durante grande parte da década de 1960. E o documentário mostra logo no seu início a choradeira entre as fãs quando o grupo se dissolveu.

No entanto, e apesar da fama do grupo que explodiu no mundo todo, George Harrison foi um daqueles Beatles que apareceu muito mais no background. Músicas suas que trouxeram impacto em álbuns dos Beatles não foram capazes de trazer a ele o reconhecimento criativo que teria merecido, ao lado de Lennon e McCartney, provavelmente por causa da sua exposição gravada ser infinitamente menor do que a seus colegas.

George Harrison: Living In The Material World

O documentário de Scorsese tenta retificar este tipo de injustiça. Mas, o filme não se poupa de mostrar as falhas ao lado das virtudes, o que é no meu entender correto. Afinal, trata-se de um filme biográfico, explicitado em detalhes sobre todas as épocas de vida do músico, antes, durante e principalmente depois dos Beatles.

As transformações musicais na década de 1960

A década de 1960 foi pontuada por intensos processos de transformação social e política. O Rock-And-Roll, contrafação do Rhythm-And-Blues, com toques de Boogie-Woogie, eclodiu na década de 1950 e teve grande impacto na juventude da época do meio para o fim desta década.

Os Beatles, na sua fase inicial, eram um grupo predominantemente nas mesmas premissas e inspirado no mesmo estilo de composição, tudo muito ingênuo. Mas, eventualmente o grupo se distanciou das bases do Rock tradicional, mudando a maneira de compor e principalmente a maneira de se apresentarem em público, muito mais em consonância, diga-se de passagem, com a jovem cultura britânica, que adotou cabelos longos, minissaia, etc., durante aos anos sessenta.

Ironicamente, o rock-and-roll, apesar de inócuo, foi qualificado pelo público ultra conservador religioso norte-americano como “obra do diabo”. E quando os Beatles apareceram na América, esta recepção não foi diferente!

Esta contestação inusitada e sem propósito ficou ainda mais agressiva quando John Lennon, em um momento de rara infelicidade constata e declara em público que os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo! Tal declaração mostra nem tanto o lado arrogante que Lennon se tornara conhecido pelos seus pares, mas sim a falta de tato no trato com o público!

E quando se trata de público as reações das celebridades costumam ser ambíguas: por um lado, o artista ganha mais dinheiro e fama quando é popular, mas por outro lado ele ou ela perdem completamente a privacidade. Basta sair na rua e o assédio é inevitável, tirando assim o direito de ir e vir sem ser molestado.

Olhando a popularidade dos Beatles em perspectiva, e ouvindo as declarações de cada um deles na modernidade, como por exemplo, aquelas inclusas no documentário de Scorsese, é de se admirar o tom humilde com que eles se apresentam diante das câmeras. Só quem viveu aquela época poderia ter tido a capacidade de dimensionar o tamanho da histeria quando os Beatles se apresentavam em público. Os registros desta histeria foram filmados e são mostrados em diversos documentários, para quem quer ter uma ideia do que aconteceu.

Os Beatles formavam inicialmente um grupo sem expressão, ou, se preferirem, no mesmo nível de grupos similares. Nesta fase, não tinham grana nem popularidade. É possível se admitir hoje que a exposição continuada em táticas de mídia não foi o único elemento formador do gosto da opinião pública. As composições da dupla Lennon e McCartney fizeram a cabeça dos jovens ouvintes, música e letras facilmente identificável com a cultura de massa.

No lado fonográfico os Beatles contaram com a habilidade do produtor George Martin, uma espécie de homem polivalente, oriundo do mundo da música clássica, mas que neste caso verteu o seu lado conhecedor para o mundo da música comercial.

George Harrison: Living In The Material World

Martin, na foto acima, o segundo da direita para a esquerda, iniciou um trabalho executivo para o selo Parlophone, braço da EMI que veio do selo alemão Parlophon, e que não vinha sendo levado a sério. Por causa disso, o primeiro Lp dos Beatles foi lançado neste selo.

Coincidiu também o fato de que a EMI decidira instalar máquinas Studer de 4 canais, aumentando o potencial de mixagem, primeiramente para lançamento de discos mono e depois estéreo.

A venda de elepês e singles (os chamados “compactos”) foi além da expectativa. Mas a fama dos Beatles ficaria em torno de um sucesso local, se não fosse pela iniciativa de seu empresário Brian Epstein (conhecido depois como o quinto Beatle) de ter levado o grupo para os Estados Unidos. Com isso, a venda de discos explodiu instantaneamente, com os Beatles passando a referência no sucesso de vendas de repertório popular.

Notem que tudo isso aconteceu aproximadamente no meio da década de 1960, época em que a sociedade norte-americana experimentava períodos sociais e políticos turbulentos. A presença daqueles quatro rapazes com cabelo comprido, e vestidos de terno estilizado deixou muita gente em pânico! Dali para frente, o Rock-And-Roll nunca mais seria o mesmo!

George Harrison, o Beatle que viveu à margem dos outros

Quando se falava em Beatles na década de 1960 olhava-se para um grupo de “quatro rapazes de Liverpool, UK”, mas John Lennon e Paul McCartney foram aos poucos se notabilizando pela enxurrada de músicas compostas pela dupla e que caíram no gosto dos fãs.

Em grande parte, esta situação foi criada a partir do momento em que as decisões fonográficas foram centradas em Lennon e McCartney e não em Harrison ou em Ringo, apesar do primeiro desses dois últimos ser igualmente um compositor de peso. Quem duvida, basta ver a lista de músicas feitas por ele no disco “Abbey Road”, gravado em 1969, notadamente “Something” e “Here Comes The Sun”, esta última com a ajuda do guitarrista Eric Clapton, de quem era amigo.

O documentário de Scorsese mostra com detalhes o que os fãs souberam à época do ocorrido: que com a dissolução dos Beatles George Harrison se tornou dono dele próprio, e criou uma identidade à parte.

O lado mais discreto do músico o compeliu a aparecer mais. Scorsese mostra que Harrison experimentou tudo. O lado “menino”, que já existira com os Beatles deu, aparentemente, lugar ao seu lado de adolescente experimentador, indo do uso de drogas alucinógenas e dopantes, até a sua completa espiritualização, com a ajuda da cultura mística indiana, de quem se tornou adepto.

Harrison se associou ao músico indiano Ravi Shankar, exímio citarista, e líder espiritual, e com ele montou concertos e gravou discos. O adolescente se tornara um homem maduro, mais calmo e centrado. Dá para ver nas entrevistas gravadas e exibidas neste filme o ar de compenetração e introspecção de uma pessoa que se concentrara no poder do pensamento, sem abrir mão do seu lado criativo e poético.

George Harrison deu ainda uma tremenda força no cinema do Monty Python, quando este grupo não encontrava espaço em nenhum estúdio britânico ou americano. Foi com a ajuda de Harrison que os Pythons conseguiram realizar a polêmica paródia político-religiosa“Life of Brian”, dirigida por Terry Gillian em 1979.

A partir daí, Harrison ajudou a fundar a produtora britânica independente HandMade Films, que, segundo a lenda, só foi possível porque o músico hipotecou a própria casa.

Na segunda parte do documentário de Scorsese personagens diversos nos mostram como a morte de George Harrison, vítima de câncer que nunca foi curado, deixou uma lacuna entre os amigos e fãs. Mas, não é sempre assim? Quando alguém de valor e que deixou, bem ou mal, algum legado na arte, na amizade, e na espiritualidade, morre, todo mundo ao redor percebe a falta que ele ou ela irão fazer.

No mundo da literatura ou da ciência a perpetuação de valores individuais se dá pelos livros ou artigos publicados, e na música inevitavelmente pelo material que ficou registrado em discos.

É muito bom que cineastas dediquem três ou mais horas para resgatar memória e valores diversos da vida de alguém. É possível entender, assimilar contrastes, ser testemunha das diferentes fases de vida, dos erros e virtudes, das quedas e vacilos, e da recuperação moral ou espiritual, quando elas existem.

A vida de George Harrison mostra tudo isso. Pode ter servido de exemplo a muitos durante o decorrer da sua vida, intencionalmente ou não. Mas, mesmo se não serviu, o filme de Scorsese demonstra que por trás da fama existe o ser humano, com todas as fraquezas e virtudes da vida de qualquer um. [Webinsider]

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