Jack Reacher, cinema e seriado, fazem sucesso em torno de um personagem justiceiro, que protege os oprimidos e assassina quem os oprime, em uma catarse criada na literatura.
Terminou por esses dias a terceira temporada de “Reacher”, série de televisão do Amazon Prime, baseada no personagem criado pelo escritor inglês Lee Child, que saiu da produtora de televisão inglesa (Granada Television) e foi para Hollywood.
Até o momento, ele escreveu cerca de 29 livros com o personagem, embora ele tenha sido introduzido no cinema no filme The Killing Floor, em 2015, um ano antes da Paramount lançar o primeiro filme com o nome de Jack Reacher no título.
No passado distante, seriados eram rotineiramente exibidos nas salas de cinema, um deles, Flash Gordon, com grande sucesso naquela época, e que décadas depois virou um filme com este nome. George Lucas copiou parte da linguagem de Flash Gordon nos cortes de cena em Star Wars, provavelmente em reverência ao antigo seriado.
O lançamento de seriados e filmes com o mesmo personagem acabou virando a chamada “franquia”, que nem sempre vale a pena assistir. Não é o caso, na minha opinião, de Reacher, série de TV exibida no Amazon Prime:
Para quem quer conhecer o personagem, eu sugiro assistir tanto os filmes quanto o seriado.
Tom Cruise versus Alan Richtson
Tom Cruise saiu primeiro, no filme de 2012 Jack Reacher: O Último Tiro, lançado pela Paramount, que pode ser visto no streaming. A seguir, Cruise aparece de novo em Jack Reacher: Sem Retorno, lançado em 2016. Ao lado de Cruise, tem sempre um personagem feminino de destaque.
No filme de 2012 aparece a premiada e linda atriz inglesa Rosamund Pike, com um papel de destaque. Além dela, aparece também o icônico diretor alemão do cinema de vanguarda da década de 1980 Werner Herzog, conhecido pelos apreciadores do cinema de arte.
Tom Cruise, justiça seja feita, tem um porte relativamente atlético, mas não é nem de perto o do ator Alan Richtson, que fez o personagem para o seriado. O próprio Lee Child havia vislumbrado um personagem parecido, com estatura robusta e força bruta. Aí, Alan Richtson caiu como uma luva.
Richtson disse em entrevista ter lido todos os livros escritos por Child, até próximo da produção do seriado. De fato, comparando os filmes e o seriado, é possível ver as semelhanças de interpretação do que seria o verdadeiro Reacher: um ex-policial militar, que vive sozinho, fala pouco, usa somente a roupa do corpo, carrega uma única escova de dente, não mora em lugar algum, sempre em trânsito.
A construção do personagem não é novidade no cinema: um homem de poucos relacionamentos sociais, mas que luta contra injustiçados e perseguidos, ou seja, protege os fracos e combate os desonestos. A única novidade perceptível é que Reacher não tem pudor de assassinar seus inimigos e/ou de recorrer à ultra violência, algo bem próximo do incrível Hulk.
O interessante é o aspecto óbvio de catarse, por parte de quem assiste. A gente assiste Reacher derrubar os indivíduos sem caráter e nunca ser pego ou pagar por isso!
Na última temporada, o ator fisiculturista holandês Olivier Richters, que faz o papel de um dos vilões:
Richters tem 2,18 m de altura, e se anuncia divertidamente diante do público como o “Gigante Holandês”. No seriado, entretanto, o personagem Paulie chega a ser impressionante pelas atitudes perigosas e letais.
Claro que no seriado Reacher nunca é páreo para Paulie, mas quem assiste só vai saber o embate final entre os dois no último capítulo!
Reacher: herói ou criminoso?
O slogan que promove o primeiro filme deste personagem fala no poster: “The law has limits. He does not”, em referência ao fato de que a justiça que deveria ser justa, como o termo sugere, falha redondamente, às vezes condenando quem não é culpado, ou estabelecendo penas exageradas, a critério de um julgamento conduzido por um júri e um juiz, ambos mentalmente desequilibrados.
O tema em si já foi alvo de muitos filmes, antigos e atuais, alguns até clássicos. No caso específico de Reacher alguns poderiam objetar contra a enorme violência praticada pelo personagem, mas certamente nunca seria uma crítica vinda da sua base de fãs.
Isto porque, creio eu, a postura de ultra agressividade de Reacher somente se revela quando ele quer fazer justiça, prevendo que ela, justiça, não será feita da maneira ortodoxa. Além disso, Reacher não gosta e não se conforma em ver uma pessoa ser maltratada, humilhada ou agredida por um brutamontes valentão. Várias são as cenas em que isso aparece claramente na tela!
Tanto os filmes como o seriado tem tido muito sucesso, a ponto da Paramount cogitar um terceiro filme. No final das contas, cabe a quem assiste decidir se Reacher é um herói dos desprotegidos ou um justiceiro criminoso.
Quem não quiser se envolver neste tipo de julgamento, pode tranquilamente assistir todas as cenas de ação e gostar do que está vendo. [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.