O aumento na venda de CDs, players e discos para a geração Z mostra que há muita coisa sobre esta tecnologia a ser conhecida e explorada.
Por incrível que pareça, depois de considerado “morto”, na opinião dos videntes da tecnologia obsoleta, agora eu vejo cada vez mais na Internet duas notícias inusitadas a respeito dos CDs: a primeira, o aumento da procura de leitores de CD de mesa, e a segunda, a procura de títulos, novos e antigos.
Para mim, esta procura tem sido uma surpresa. Comenta-se inclusive que o aumento de procura é notório no grupo que se chama agora de “Geração Z”, cuja faixa etária é muito recente, o suficiente para não ter conhecido como e porque o CD apareceu e quais seriam as opções de transcrição disponíveis.
Durante anos, eu li mensagens em fóruns de engenheiros de gravação reclamando do exagero das autorações rotuladas como “hi-res” ou “high resolution”, transcrições acima de 44.1 kHz e 16 bits codificados nos CDs. Nos comentários, eles afirmam, com toda a razão, de que a taxa de amostragem e a resolução do CD são suficientes para cobrir todo o espectro audível, que é necessário para se ouvir música com alta fidelidade de reprodução.
Se alguém que estiver lendo este texto não souber do que se tratam os comentários sobre o áudio digital PCM, eu esclareço que no CD a onda musical é amostrada (medida) 44.1 mil vezes por segundo, e cada medição tem 16 bits, o qual é, por definição, um valor muito alto de informação digital, avanço típico da época na qual o CD foi lançado. De lá para cá, o áudio “hi-res” citado acima passou a amostragem para a resolução de 24 bits, e em muitos casos não fez tanta diferença assim no espectro audível.
O que a geração Z interessada por áudio digital ainda devia saber é que décadas atrás descobriu-se que a transcrição de matrizes analógicas ou digitais pode ser masterizada acima de 16 bits, geralmente 20 ou 24 bits, e depois novamente transcritas para os 16 bits do CD com a preservação da fidelidade original.
Um exemplo muito bom disso que eu tenho na minha coleção é o disco Wood, do baixista Brian Bromberg, cuja gravação foi feita a 96 kHz e 24bits. Bromberg toca o chamado Double Bass ou Wood Bass, contrabaixo de maior extensão que o baixo normal. A gravação do disco dá destaque ao som do contrabaixo, pedindo a ajuda de um bom subwoofer na reprodução!
Formatos aperfeiçoados de transcrição foram usados no passado não muito distante, e estão por aí, se alguém tiver sorte de conseguir comprar um. Só de HDCD foram lançados mais de 5000 títulos, que podem ser pesquisados no Discogs.
Outra lista de discos que eu considero interessante é a dos XRCD, que compreende transcrições em 20 bits (XRCD2) e 24 bits (XRCD24). Este último formato ainda foi ironicamente rotulado pela JVC de “Super Analog”, provavelmente, para atrair os incautos…
A procura por toca-discos
Os primeiros reprodutores de CD lançados no mercado ainda não tinham a tecnologia necessária para fazer a conversão digital analógico (DAC) dos 16 bits do CD, atingindo somente 14 bits de resolução, mesmo com diversos processos de decodificação, métodos de filtragem e correção de erros de leitura.
Mas, tudo isso mudou radicalmente com o passar do tempo. A Philips, por exemplo, começou a trabalhar com circuitos sofisticados, a partir dos conversores da série TDA1540, uma tecnologia chamada na época de Bitstream, que trabalha com informações de 1 bit e fazendo a conversão usando a modulação PDM (Pulse Density Modulation). Na prática, significou que as gravações antigas iriam soar significativamente melhor do que com os primeiros aparelhos.
Em 1993, a Philips lançou o modelo CD950, com o chip conversor TDA1547, conhecido como DAC7, capaz de reproduzir integralmente os 16 bits originais do CD. Eu sou testemunha da qualidade do CD950, que usei durante anos para reproduzir meus discos.
Muitos fabricantes de reprodutores de CD desenvolveram conversores sofisticados, enquanto outros usaram componentes e drives como estes da Philips, no chamado high end, a preços elevados para os audiófilos.
Por causa disso, eu não fico surpreso de ver tantos vídeos no YouTube de gente à cata de reprodutores antigos e de técnicos consertando ou restaurando esses aparelhos, não só para examiná-los mais de perto como para vendê-los depois no mercado de usados.
O advento do home vídeo nos discos DVD nos trouxe uma integração de mídia que não existia antes: um reprodutor único para tocar CD embarcado no hardware. E depois, a mesma coisa aconteceu com o aparecimento do Blu-Ray, ficando assim até hoje.
Em princípio, portanto, não faria sentido voltar a usar um CD player separado, a não ser que o usuário de hoje queira saber como soavam os CDs antigos nos aparelhos de hoje.
Existem várias maneiras de se lidar com isso: um reprodutor de mesa normalmente tem um DAC já incorporado nos circuitos de reprodução. Nada impede, entretanto, que o usuário use o seu drive de disco apenas como transporte, ficando a decodificação digital analógico em um DAC externo. Basta que o reprodutor tenha uma saída digital, ótica ou coaxial.
Com a implementação das conexões HDMI a conversão externa é ainda mais fácil. Os processadores de vídeo e áudio incluem pré amplificadores para ambos os formatos, ou então os receivers A/V, que cumprem o mesmo papel.
Se ainda assim, o usuário prefere tocar CDs de forma convencional, ele pode aproveitar a nova tecnologia de conversão em modelos isolados. Um exemplo disso são os reprodutores da Denon, que usam o decodificador Advanced AL32 Processing Plus, anteriormente parte dos seus A/V receivers:
O AL32 usa a interpolação de dados das fontes digitais, resultando em um upsampling (aumento de amostragem) de 32 bits. Por dentro, os players da Denon (a imagem de cima é a do modelo DCD-900NE) tem uma arquitetura idêntica à dos antigos players, com a habitual fonte de alimentação separada da placa mãe que contém o decodificador.
O usuário deve ter cautela ao investir uma nota preta em um aparelho desses, porque nem sempre a qualidade deles é superior aos Blu-Ray player convencionais, ao tocar CDs e até DSD ou SACD.
Por outro lado, a reprodução pelo modo “Direct” ou “Pure”, se disponível, deve ser usada. Ela contorna todos os circuitos de pré processamento de sinal e leva este sinal direto para o decodificador externo. Isso mantém o áudio original intacto, com mais chances de se ouvir o melhor som possível de um CD ou qualquer outra fonte digital de áudio.
Claro que só isso não basta: é importante levar em conta a mixagem e a qualidade de captura da gravação dos discos. Música popular costuma ser super pós-processada, muitas vezes com uma compressão absurda. Quando isto ocorre, esperar um som de melhor qualidade chega a ser utópico! O ouvinte inexperiente deve se ambientar primeiro antes de qualquer outro tipo de julgamento sobre o som que ele ou ela estão ouvindo. Um sistema de reprodução bem montado é muito superior comparado até ao melhor serviço de streaming. [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.










