A história de Colatina: atrás do porto, à beira do Rio Doce, nasceu uma bela cidade.

No começo, um vilarejo cercado pela densa e verdejante Floresta Atlântica, chamado pelos corajosos moradores de Arraial da Barra do Santa Maria. Não era uma vila qualquer perdida no fim do mundo, mas sim um ancoradouro seguro contra feras e índios. Também abarcava um entreposto de abastecimento, roupas, armas e ferramentas.

Nas idas e vindas, os navios a vapor, à vela e o braço forte dos canoeiros venciam a briga contra a correnteza do caudaloso rio. Uma tábua grossa era a ponte de passagem de cargas e passageiros do navio ao barranco.

O porto fluvial foi criado para receber os imigrantes italianos. A primeira das três levas chegou em setembro de 1888. A segunda, em dezembro do mesmo ano. Em março de 1889, chegou a terceira onda europeia.

Os italianos vieram ocupar as terras do núcleo de colonização Antônio Prado, conforme narra o professor Ermelando Serafini no artigo veiculado no jornal O Colatinense em 2 de agosto de 1956.

Mais tarde, o barracão dos imigrantes localizado atrás da igreja de São Sebastião passou a pertencer ao coronel Virgínio Calmon, que veio a ser o primeiro prefeito de Colatina (1921 a 1925). Em 105 anos de independência política e econômica, Colatina teve 36 prefeitos.

Botocudos

Os primeiros habitantes eram os temidos índios botocudos. Imperavam na vasta região ao norte do Rio Doce. Eram primitivos e nômades. Chamavam o sagrado Rio Doce de Watu. Autodenominavam-se Boruns do Watu. Fabricavam machadinhas de pedras lascadas, como na pré-história. As moradias eram rústicas, de folhas de palmeiras encostadas a árvores.

Botocudos do Rio Doce. De Colatina.Os Boruns do Watu
Fotos de Walter Gable,1909. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo – APEES

Arco e flecha eram suas armas de caça, ataque e defesa. Nunca deixaram de guerrear na resistência de seus domínios. Lutaram até o extermínio, tanto por meios violentos quanto por doenças trazidas pelos europeus.

botocudos fazendo fogoEnfeitavam os lábios com rodas de madeira, os botoques que lhes davam aparência assustadora aos inimigos.

As primeiras casas

Em 1892, foram construídas as primeiras casas no local conhecido até hoje como Colatina Velha. No ano de 1893, o engenheiro Gabriel Emílio de Souza da Costa deu-lhe o nome de Colatina.

O nome foi uma singela homenagem a Colatina Soares de Azevedo Muniz Freire, esposa do então governador Muniz Freire.

O engenheiro Gabriel Emílio foi o responsável pela planta de demarcação dos lotes do Núcleo Antônio Prado, berço da nascente Colatina. O “Livro de Actas” da Câmara Municipal de Linhares registra, à página 68, que no dia 9 de dezembro de 1899 os vereadores aprovaram a lei autorizando criar “um distrito denominado Villa Colatina”. O documento original é a “Certidão de Nascimento” da cidade.

É o único município no mundo com este nome. Em Roma ainda existe a Via Collatina, estrada Romana que 2500 anos depois ainda corta parte da cidade. Na aurora do Império Romano, ligava Roma à cidadela de Collatia.
Colatina Soares de Azevedo Muniz Freire foi uma mulher fascinante. Fluente em francês, italiano e alemão. Positivista, poeta, cantora e pianista. Muito à frente do seu tempo.

O município já nasceu na Era Republicana. A região foi elevada à sede do município na marra, em 1907, mas ainda subordinada a Linhares. Dona Colatina era filha da nata aristocrática paulistana.

Colatina Soares de Azevedo Muniz Freire emprestou o raro nome de mulher à cidade que a eternizou na geografia brasileira. Ao menos uma vez, Dona Collatina — assim mesmo, com dois “éles” na grafia antiga — pisou na terrinha, a famosa Colatina de 123 mil moradores, no noroeste do Espírito Santo.

Esteve aqui em comitiva em fevereiro de 1911, no intento de inspecionar a ferrovia que cortava o centro da vastíssima e então despovoada região norte, coberta de selvas intocadas. A passagem de Dona Colatina, do marido Muniz Freire e das filhas Olga, Dora e Ilma foi notícia no jornal O Espírito Santo.

A sensacional descoberta de que a dama esteve em solo colatinense foi feita pelo doutor em História Estilaque Ferreira dos Santos, professor aposentado da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). O casal Colatina e Muniz Freire teve 10 filhos. Seis homens: Radagásio, José de Melo Filho, Genserico, Alarico, Átila e Manoel. Quatro mulheres: Izilda, Olga, Dora e Ilma.

Em 1800, já tinha gente branca por aqui. A Divisão Militar do Rio Doce implantou o Quartel da Anadia, que ficava onde é hoje o bairro Maria Ortiz. São 226 anos de ocupação das terras do Rio Doce — da Cachoeira das Escadinhas à Regência, na foz.

Esse território, de Linhares a Baixo Guandu, abrigou o primeiro parque de conservação florestal das Américas, bem antes de Yellowstone, em 1872, nos EUA. O governador Antônio Pires da Silva Pontes (1800-1804), geógrafo e membro da Academia de Ciências de Lisboa, criou, por lei, o Parque Real de Madeiras de Regência Augusta. Este parque destinava-se à preservação da floresta e madeiras nobres.

Prestem atenção. Agora a história vai começar. As ruínas do Quartel de Anadia foram avistadas em junho de 1857 por Nicolau Rodrigues França Leite ao subir o Rio Doce num barco a vela com casco de ferro e de 38 toneladas. Transportava mil arrobas (15 toneladas) de carga e 46 colonos entre portugueses, franceses e alemães.

Nicolau França batizou sua colônia de Francilvânia, atual bairro de São Silvano, o maior e mais populoso de Colatina, com 45 mil habitantes. Era a primeira tentativa de colonização, uma vez que França Leite ganhou e demarcou em lotes os terrenos do lado norte do Rio Doce, região dominada por índios ferozes.

Tanto que a colônia de Francilvânia durou pouco tempo. Sofreu ataque dos índios. Um francês foi morto e devorado pelos nativos. Sua mulher escapou de canoa. O médico e pesquisador José Luiz Pizzol narra que, em Francilvânia, além dos colonizadores, havia 111 índios aldeados das tribos Pancas e Mutum.

O fim da colônia se deu por conta da morte de Avelino França Leite. Nicolau foi para o Rio de Janeiro tratar de negócios. Deixou o sobrinho Avelino tomando conta da possessão e fábrica de madeira. Um grupo de índios selvagens que vagueava pelo mato e assaltava as propriedades matou e canibalizou Avelino. Desgostoso, Nicolau foi embora. Devolveu as terras ao governo.

No início do século 20, a população indígena foi praticamente dizimada ou transferida para Minas Gerais. Portanto, houve genocídio da nação nativa. Os povos primitivos e negros foram silenciados na longa noite da história dos dominadores. É tudo muito recente. Uma nova história precisa ser contada. Nada de uma população rude e inculta. Sim, um povo instruído, divertido, elegante e festeiro. Canetas de ouro, pincéis, tintas, o cinzel, violas, violinos, acordeons e máquina de costura vieram na bagagem dos pioneiros.

Vamos contar Colatina passo a passo, desde os albores do município até nossa civilização tecnológica.

Colatina nasceu na praia

Uma curiosidade que pouca gente sabe. Colatina nasceu na praia. A lei que criou a Vila de Linhares, com o território na grande e inexplorada área onde hoje se encontra situado nosso icônico município, foi promulgada no dia 22 de agosto de 1833. O ato ocorreu na Câmara Municipal de Nova Almeida, localizada na antiga residência dos jesuítas ao lado da secular Igreja dos Reis Magos.

Nova Almeida, que era a sede do município e cujas terras incluíam boa parte da região do Rio Doce, é agora distrito da Serra (ES). Há muitos anos é o balneário preferido dos colatinenses. A informação é do historiador colatinense Fernando Achiamé.

Em 1933, o então prefeito de Colatina Ademar Távora comemorou com um festão os 100 anos de criação do território. Admirável! São 224 anos de ocupação das terras capixabas do Rio Doce, da Cachoeira das Escadinhas à Regência, na desembocadura.

Um local histórico, e que não existe mais, era o então amontanhado Morro das Cabritas. Foi derrubado pelos norte-americanos acampados na cidade por conta da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O curso do Rio Santa Maria foi desviado pelos poderosos tratores de guerra, os bulldozers. O lugar deu origem ao Bairro Esplanada, centro da cidade. A sede do município foi elevada à cidade em 30 de dezembro de 1921 pela Lei nº 1.317. A mesa virou.

Linhares passou a ser distrito de Colatina. Linhares só voltaria a ser município em 1943. Quatro foram os fatores que contribuíram para o desenvolvimento de Colatina nos últimos 100 anos: a madeira extraída em abundância no vasto território que ocupava quase metade do Espírito Santo; o Rio Doce navegável até a década de 1950; a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM); e a imensidão do cultivo do café.

O Baixo Rio Doce também se mostrou excelente para a cultura do cacau, descreveu o jornalista Luiz Carlos Maduro na revista Nossa.

Em 1916, o coronel Alexandre Calmon, o Xandoca, liderou a rebelião armada de Colatina, provocando os 33 dias sangrentos que mancharam a bandeira do Espírito Santo. De 26 de maio a 29 de junho daquele tempo explodiu a guerra civil capixaba. Os coronéis da região ficaram enfurecidos com o resultado da eleição ao governo do Estado.

Naqueles dias da Revolta de Xandoca, Colatina dividiu com Vitória a primazia de ser a capital do Estado. As ruas enlameadas do centro colatinense viviam infestadas de pistoleiros e jagunços. Imaginou a cena de cinema? O sonolento sino da estação badalava apenas a cada passagem da locomotiva a vapor.

A navegação

Na década de 1920, a navegação do Rio Doce ganhou força por meio dos vaporzinhos Tupy e Tamoyo e, posteriormente, o Juparanã.

O Juparanã chegou em 1927. Tinha capacidade para transportar 20 toneladas de carga e 150 passageiros. A embarcação era comandada pelo russo Pedro Epichim (1890-1968). O navio era tocado a roda d’água. Singrou as águas do Rio Doce, o “Nilo Brasiliense”, apelido dado por Rodrigo Antônio Domingos de Souza Coutinho, o Conde de Linhares. O Juparanã soçobrou às margens do Rio Doce.

Colatina enterrou o símbolo da sua história na criação do aterro da Beira-Rio, a Avenida Senador Moacir Dalla. A estampa do Juparanã no cenário riodocense está mantida viva na memória do professor e historiador Olney Braga. “O apito do navio podia ser ouvido a 10 km de distância”, testemunha.

O telégrafo chega com o trem na estação de Baunilha

A cidade cresceu ao longo dos trilhos a partir de 1906. O telégrafo, a internet daqueles tempos, veio junto com a ferrovia. Os postes dos fios telegráficos acompanhavam a linha de ferro. Em 1906, foi aberta uma agência dos Correios em Baunilha. O telégrafo também era peça fundamental no tráfego das marias-fumaças.

Para quem não sabe, o telégrafo foi o primeiro sistema de comunicação capaz de transmitir mensagens instantâneas a grande distância. A tecnologia ficou obsoleta, mas a chamada teoria da informação e a matemática que ela ajudou a criar são mais atuais do que nunca. Usava o Código Morse, adotado como padrão internacional, com dois tipos de sinal: ponto e traço. Os cliques eram curtos ou longos.

A mobilidade e a informação influíram no fascinante crescimento. Nos anos de 1950, Colatina ostentou o título de “maior produtor de café do mundo”. Nesta década, a Catedral de Colatina foi construída, depois que a igreja velha caiu em 1949. Abriga um dos maiores conjuntos de vitrais do Brasil. Já a colossal estátua do Cristo Redentor foi aberta ao público em 1974.

Em 28 de junho de 1928 foi inaugurada a atual ponte Florentino Avidos. Erigida em dois anos, na categoria de ponte ferroviária de trilhos e dormentes vazados, pertencia à Estrada de Ferro Rio Doce–São Mateus, extinta anos depois. Os trilhos foram instalados numa extensão de sete quilômetros até o bairro Córrego do Ouro.

A ferrovia era a ponta de lança na conquista do Império das Selvas do Norte do Estado. Sairia de Colatina até alcançar Nova Venécia. O caminho de ferro não vingou. Depois, a via férrea desapareceu no alçapão do tempo. Há moradores antigos que testemunharam vagões trafegando sobre a ponte, talvez como teste para certificar a solidez da construção.

Em compensação, atualmente 50 mil veículos/dia circulam nesta titânica Ponte Florentino Avidos sobre o Rio Doce. No final de 1964 e início de 1965, nasce em Colatina a primeira banda de rock’n’roll capixaba: a fabulosa The Jet Boys, composta por Gilson Martins, Romiques, Alonso, Pato Rouco e Argeu.

O Festival Estudantil de Música de Colatina (Femec), de 1965 a 1971, modificou para sempre a cultura local. Os Jet Boys arrastavam multidões por onde se apresentavam.

O pioneirismo dos colatinenses que tocavam Beatles e Rolling Stones virou até filme. O documentário Colatina, a Princesa do Rock está disponível no YouTube.

Em 1975, os trilhos da estrada de ferro foram removidos do centro da cidade. As lentes mágicas do mestre Afrânio Serapião registraram a notável cena. E a Getúlio Vargas virou uma avenida repleta de árvores.

No ano de 1928, Colatina tinha 387 imóveis cadastrados na prefeitura. A área do município era de mais ou menos 6.000 quilômetros quadrados, e ele era o maior do Estado. Desde então, distritos viraram cidades. Baixo Guandu foi o primeiro, em 1935. Ao longo dos anos, constituíram-se municípios: Pancas, Alto Rio Novo, São Gabriel da Palha, Vila Valério, Águia Branca, Água Doce do Norte, São Domingos, Marilândia. E o caçula Governador Lindenberg, emancipado em 1998.

Retalhada, a área geográfica ficou reduzida a 1.398 km². Baunilha, Itapina, Paul de Graça Aranha, Ângelo Frechiani, Boapaba e Sede são os atuais distritos do município. Baunilha guarda segredos cósmicos e artísticos de cair o queixo. Em 1974, um livreiro paulista narrou ter sido sequestrado por um disco voador (OVNI). Jurou de pé junto que fora deixado no alto de uma montanha. A notícia da abdução de Onilson Páttero rodou o mundo.

Um suposto quadro milionário atribuído a Rafael Sanzio (1483 a 1520) foi roubado de um descendente de italianos. Os belos afrescos da igreja de Nossa Senhora da Saúde, em Baunilha, são tesouros regionais. O templo foi construído em 1917.

Possíveis pegadas de dinossauro foram encontradas por um arqueólogo amador no interior do município. Itapina continua perdida no tempo. A antiga Laje, depois Itá, foi um dos mais ricos pontos do comércio de café. Desenvolveu-se a partir de 1919. A marca profunda dessa fase áurea é o casario tombado pelo patrimônio histórico. Em dias chuvosos, enfeitiçantes arco-íris — sinal da aliança de Deus com os homens — sempre aparecem acima da ponte Florentino Avidos.

Ao longe, a cordilheira com silhueta da Giganta Deitada se destaca na paisagem milenar. De sola na Era Digital, a premiada Equipe de Robótica do Ifes de Colatina ganhou fama nacional e internacional.

Dezenas de lojas de informática com assistência técnica e produtos, além de cursos de nível médio, superior e mestrado de alto calibre, são disponibilizados na nossa robusta rede educacional. A missão do Centro de Ciência e Planetário será a de oferecer chance à população local e do entorno de Colatina de ver e ouvir estrelas do espaço sideral. O Centro de Ciências foi construído defronte ao célebre pôr do sol na Praça do Sol Poente.

O pôr do sol de Colatina foi considerado um dos mais belos do mundo pela revista Life. A ponte, troncos de madeira e ramos cafeeiros são símbolos locais que constam no brasão e na bandeira de Colatina.

Explorar encantos, curiosidades e lugares de jovens cidades é embarcar numa viagem no tempo. Ruas, praças e jardins são extensões da nossa casa. As ruínas são testemunhas do esforço de nossos ascendentes na construção de um mundo melhor.

panorama de colatina

Somos feitos de narrativas, desde as cavernas à luz do fogo até as dinâmicas redes sociais. O encanto e a magia da nossa região encastelada entre morros e montanhas garantem, sem sombra de dúvida, o majestoso título de Colatina: a Soberana do Rio Doce. [Webinsider]

Fotos do arquivo de Nilo Tardin

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Nilo Tardin é jornalista profissional há 35 anos na imprensa diária capixaba. Atuação na Rede Gazeta e Rede Tribuna. Atual editor do Portal DDC News - Diário Digital Capixaba. Possui gradução em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

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