A restauração do clássico Todd-AO “Oklahoma”

Nova Escola de Marketing
30 de julho de 2014

A restauração de Oklahoma marca o retorno de cópia nova digital, na recuperação do primeiro dos únicos dos dois filmes rodados em Todd-AO a 30 quadros por segundo.

Depois de vários anos de esforço, foi finalmente liberada para exibição digital em cinemas e masterização para mídia a cópia restaurada do filme Oklahoma, adaptação do musical da Broadway e dirigido pelo notável Fred Zinemann. O filme foi lançado em 1955 nos Estados Unidos em cinemas adaptados para o processo Todd-AO e nos demais adaptados para a projeção em CinemaScope.

O esforço de restauração é compreensível, visto que se trata do primeiro dos dois únicos filmes Todd-AO rodados na cadência de 30 quadros por segundo. A elevação da cadência, de 24 para 30 qps foi feita para eliminar o efeito de “judder” na captura e projeção do filme.

Na década de 1950 a maior parte dos cinemas não estava preparada para a projeção em 70 mm. Assim, Oklahoma foi rodado duas vezes: uma em Todd-AO 70 mm, com mixagem em 6 canais de áudio, e outra em CinemaScope 35 mm, com som em 4 canais.

O segundo filme em Todd-AO a 30 qps foi A Volta Ao Mundo Em 80 Dias, e filmado também duas vezes, a segunda em Todd-AO a 24 qps. Desta última cópia foi feita a versão CinemaScope, com a mixagem do som em 4 canais. A versão Todd-AO a 24 qps é atualmente considerada a única cópia sobrevivente deste filme, e que foi aproveitada para a versão em DVD pela Warner Brothers.

No caso de Oklahoma a versão em CinemaScope ainda estava em boas condições, mas o negativo de 65 mm Todd-AO apresentou descoramento e avarias diversas. A perda de informação de cor do negativo é hoje creditada ao uso de filme Kodak 5428 Eastmancolor.

image001

Foto cortesia de Thomas Hauerslev (www.in70mm.com).

Depois do filme restaurado, a FotoKem e a Fox prepararam uma versão em DCP, com resolução de 4K e cadência de 30 qps idêntica ao original, já apresentada em solo americano.

A versão em Blu-Ray neste momento está incluída em uma coletânea de outros filmes feitos de obras musicais dos mesmos autores. Espera-se que até o fim do ano ela saia em edição separada, com preço um pouco mais palatável.

Esta nova edição vem corrigir o desastre que foram as duas edições anteriores em DVD: a primeira, em 4:3 letterbox, apresentava não só uma perda de resolução significativa, mas principalmente um centelhamento (“flicker”) na imagem, bastante visível em diversas cenas. Há algum tempo atrás não havia um pronunciamento técnico do estúdio a este respeito. Poderia ser algum problema na passagem do filme pela janela do telecine, mas sabe-se agora que o problema está na cópia usada para a transcrição, Na restauração atual, o flicker foi novamente detectado e corrigido.

No DVD da edição do aniversário de 50 anos, que contem as duas versões filmadas, a versão em Todd-AO mostra uma perda de foco irritante, que compromete o filme como um todo. O problema é que é justamente nesta versão que o som adquire uma majestade que não se percebe na cópia de CinemaScope, e sendo este um filme musical, a perda é importante para quem assiste.

Na captura abaixo, mostro a cena da chegada do trem à estação da cidade. A placa com o nome Claremore sofre do flicker da versão 4:3 do primeiro DVD e pior ainda com a perda de resolução da segunda versão. Notem que todos os contornos exibem uma perda de resolução absurda, não se sabe se por excesso de redução de ruído na transcrição ou falha na cópia usada.

image001

 

 Histórico

Depois que o cinema em Hollywood se lançou aos projetos de tela larga, a projeção em Cinerama foi a primeira etapa lógica, com o objetivo de se alcançar o aumento do campo de visão da plateia. Porém, a câmera de Cinerama se tornou um tormento para os cineastas e o que se viu foi a rejeição subsequente do formato, em relativo curto espaço de tempo.

Por outro lado, os custos de exibição compeliram os estúdios concorrentes em se empenhar para conseguir formatos alternativos. O CinemaScope foi a primeira tentativa, mas o formato de tela é muito diferente. Assim, na sua melhor alternativa para o Cinerama voltou-se ao uso do fotograma 65/70 mm, abandonado no Grandeur da Fox. Com ele seria possível alargar a tela sem necessidade do uso de três películas.

Coube ao estúdio M-G-M o retorno do uso das câmeras Mitchell 65, porém com a introdução da lente Panatar, que corrigia engenhosamente a distorção anamórfica das lentes CinemaScope. Posteriormente, o formato, chamado inicialmente de Camera 65, levaria o nome de “Ultra Panavision”, e assim foi usado em filmes anunciados como “Cinerama” ou “Super Cinerama” ou ainda “Cinerama 70”. No Rio de Janeiro, o cinema Roxy foi montado com este formato.

O uso da lente Panatar fotografava o negativo com uma taxa de compressão anamórfica de 1.25, podendo exibir uma relação de aspecto na tela de 2.75:1, bem mais larga do que alta. O formato foi desenhado de modo a se obter cópias para 70 mm plano e CinemaScope.

Em um segundo momento, o Todd-AO foi desenhado com o interesse em fotografia sem compressão anamórfica em negativo de 65 mm. O emprego de lente esférica notoriamente aumenta a qualidade da fotografia e sem introduzir distorções, a não ser intencionalmente. Além disso, os produtores optaram pelo emprego de lentes grande angular (do tipo “fish-eye”), com o objetivo de simular a tela ultra curva do Cinerama. A lente usada, vista abaixo, foi desenvolvida pela American Optical, a pedido de Michael Todd, e apelidada de “bug-eye”:

image003

 

Ao invés de câmeras Mitchell, o Todd-Ao foi desenvolvido com câmeras Fearless 65, originalmente desenhada para cambiar vários tipos de bitola de negativos.

O Todd-AO padronizou também o som estereofônico de seis canais, gravados em banda magnética na película de 70 mm, sendo cinco canais na tela e um surround. A projeção original se dá em uma relação de aspecto de 2.20:1 plano, mas o fotograma seria adaptado para telas ultra curvas, com cópias retificadas, corrigidas para a curvatura desejada.

Para permitir que a cadência de 30 qps pudesse ser viável nos cinemas, a Philips desenvolveu na Holanda o projetor DP-70, a pedido dos criadores do Todd-AO. Este projetor ganhou o único Oscar dedicado a um equipamento de cinema e é, até hoje, a principal referência para o formato de 70 mm. Dois desses projetores foram instalados no Cinema Vitória, quando as exibições em 70 mm começaram no Rio de Janeiro, em 1965.

Quando eu entrevistei o projetista Orion Jardim de Faria alguns anos atrás ele me relatou ter usado o Philips DP-70 como base para o design do Incol 70/35. Os Incols eram capazes também de projetar 70 mm com a cadência de 30 qps. Orion recebeu da Fox uma cópia de um curta, que ele usou para demonstração do formato. Dotados de lentes especialmente importadas para a exibição em tela curva estes projetores foram instalados no Roxy, para a abertura do Cinerama em 70 mm.

 Sobre o filme

Oklahoma é um trabalho para o teatro com tema paroquial, ambientado na roça norte-americana. Mesmo como filme musical, não despertaria tanto interesse assim. Na adaptação em filme, o principal objetivo seria introduzir o novo Cinerama de uma só película, com a mesma qualidade do original. Tomadas com a grande angular “bug-eye” acima mencionadas são extensamente usadas com este propósito. Mas, o efeito ótico só é perceptível com a devida clareza na tela ultra curva de proporções generosas.

O filme em si não chega a ser uma paródia ou crítica dos caipiras de Oklahoma, mas quem está de fora, interessado em avaliar a forma totalmente distorcida de falar daquela população, consegue aprender um bocado.

O projeto até não poderia ter alcançado qualquer fama fora os seus aspectos técnicos, não fosse a presença do diretor Fred Zinemann, que esbanja méritos na composição das sequências no enquadramento dos planos. Existem inclusive aspectos um tanto ou quanto sombrios no desenvolvimento da trama, com enfoque especial no personagem meio sinistro Jud Fry, protagonizado pelo ator Rod Steiger.

Embora tenha sido projetado para a tela larga e grande, Oklahoma pertence à categoria de filmes que necessitam de resgate, o que finalmente foi feito. Creio eu que, diante da destruição das salas tradicionais de cinema, nada mais pode ser feito localmente para resgatar a apresentação deste tipo de espetáculo. Fica, entretanto, como lembrança dos bons tempos onde o cinema era encarado como tal, com a abertura das cortinas nas telas e todos os outros aspectos que fizeram deste gênero de filme espetáculos inesquecíveis. [Webinsider]

…………………………

Conheça Home Theater Básico, o livro de Paulo Roberto Elias. Disponível para Kindle na Amazon.

…………………………

Leia também:

…………………………

Conheça os cursos patrocinadores do Webinsider

Avalie este artigo:
Share this...
Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn

7 respostas para “A restauração do clássico Todd-AO “Oklahoma””

  1. Paulo Roberto Elias disse:

    Robson,

    O seu comentário com a pergunta foi respondido na página original: http://webinsider.com.br/2007/06/04/home-theater-comeca-pela-montagem-do-som/#comment-326104

  2. Robson Fernandes disse:

    Após sugestão do webinsider…

    Olá!
    Gostaria de saber se:

    Dúvida 1: pelo que li no site sobre impedância e RMS, acho que posso utilizar
    qualquer um dos receiver abaixo junto com a caixa acústica abaixo:

    Receiver SONY STR-DN1030 ou STR-DH740 + caixa acústica SONY SS-F55H

    STR-DN1030: impedância 8; RMS 150 W.
    STR-DH740: impedância 6; RMS 145 W.

    Caixa SS-F55H: impedância 8; RMS 120 W.

    Dúvida 2: RMS do receiver deve ser igual ou maior do que RMS da caixa.
    Impedância da caixa deve ser igual ou maior que a do receiver. Está correto?

  3. Paulo Roberto Elias disse:

    Oi, Celso

    Eu testei novamente o link e não tive problemas. Verifique se não entrou algum caracter trocado. Eu sugiro copiar (control-C) e colar (control-V) depois na barra de endereços.

  4. CELSO DANIEL SILVA disse:

    Oi, Paulo,
    O site que vc informa sobre o 70mm. dá como arquivo não encontrado no servidor.

  5. Paulo Roberto Elias disse:

    Oi, Celso,

    Há algum tempo atrás, eu escrevi sobre a situação do Windsor, com a ajuda do João Carlos Reis Pinto, e consegui uma autorização para publicar uma foto da cabine. O cinema anunciava o formato Todd-AO na fachada: http://www.in70mm.com/news/2012/windsor/index.htm.

    É lamentável que estes cinemas todos tenham desaparecido e a aparelhagem caríssima virado sucata!

  6. CELSO DANIEL SILVA disse:

    Paulo,
    Sempre que você aborda cinema, filmes,os textos tem minha predileção, pois, como já postei aqui no seu blog, trabalhei muitos anos na área de exibição a exemplo de nosso amigo Honório Lucio Santander de Campo Grande.
    Curioso que nesses anos todos não vi o filme Oklahoma, nem em cinema, nem em vídeo doméstico. Vi alguns espetáculos em Cinerama, principalmente no Cine Comodoro, em S.Paulo, ainda com três projetores. Posteriormente assisti outros, no próprio Comodoro. Também no Regina e Majestic, já em projetor único, no 70 m/m.
    Que saudade!

  7. Paulo Roberto Elias disse:

    Aos leitores que possam estar interessados, existe uma versão em língua inglesa deste texto, escrito para o site in70mm, e com uma abordagem ligeiramente diferente desta publicada aqui. O link para o texto é: http://www.in70mm.com/news/2014/restoration/uk/index.htm

Deixe uma resposta para Robson Fernandes Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *