A indústria fonográfica fez um esforço enorme na década de 1950 do século passado, em vários países do mundo, para se aperfeiçoar e oferecer qualidade de reprodução de som gravado ao usuário doméstico.

As primeiras gravações estereofônicas são um marco deste momento. O cinema havia saído na frente, com o Cinerama e com o CinemaScope. A indústria fonográfica seguiu este rastro, mas tomando o cuidado de tornar exequível um processo de assimilação da reprodução do áudio dentro de casa.

Não foi tarefa fácil. A maior parte do mercado continuou a consumir elepês monaurais. As gravações, por isso mesmo, ofereciam discos em duas versões: estéreo e mono. Mais tarde, foi desenvolvido um processo de corte de acetato em estéreo, porém compatível com toca-discos e cápsulas monaurais. Nem assim os discos mono saíram do mercado.

Mas, e quanto à qualidade? Desde o início a indústria percebeu que o elepê não passava nem perto do som que se ouvia na fita master. O disco elepê foi aperfeiçoado com a introdução do microssulco, que encurtou esta distância. O processo foi desenvolvido pela Columbia e logo depois seguido pelas concorrentes. Com isso, cristalizou-se o uso de discos fonográficos de 33 1/3 rpm (rotações por minuto), com o uso de laca de vinil e eventualmente lubrificantes destinados a aumentar o tempo de uso das agulhas de safira daquela época.

A alternativa de qualidade ao elepê foi o desenvolvimento da duplicação da master em fitas magnéticas pré-gravadas, que foram vendidas bem antes do primeiro elepê estéreo ser lançado. Até hoje, e eu tive uma experiência recente muito interessante com isso, é possível se encontrar estas fitas à venda, vinda de colecionadores que resolveram se desfazer delas.

Infelizmente, fitas magnéticas estão sujeitas a influências do meio ambiente, podem se deteriorar com facilidade, e este desgaste, que afeta tanto estúdios quanto consumidores, é um problema difícil de enfrentar e resolver. O assunto já foi tratado em uma coluna anterior.

Mudanças da era digital

O principal avanço promovido pelas gravações digitais foi a eliminação da variação de amplitude e saturação de sinal, ao longo de todo espectro auditivo (20 a 20 kHz).

Embora satisfatório para a transcrição integral de fitas magnéticas analógicas, o CD nunca foi unanimidade entre audiófilos, por motivos diversos.

A solução definitiva para o alcance da duplicação e reprodução de discos de alta resolução foi alcançado com o DVD de vídeo, que consegue comportar PCM em até 96 kHz e 24 bits de resolução, com a eliminação da imagem em movimento.

Assim, a expectativa de não se conseguir a transcrição fiel da master digital na mídia do CD, muitas delas gravadas com 50 kHz de amostragem, caiu por terra com o DVD de música, que foi batizado na época de DAD.

No entanto, o DAD morreu sem ter nascido. Etiquetas como a Chesky Records, constantemente preocupada com a manutenção da integridade das suas gravações, chegou a lançar uma meia dúzia de discos e parou por aí.

Quem tem um drive para queima de mídia e compra download de arquivos de música de alta resolução pode fazer um DAD a custo zero, com o aplicativo Lplex, cuja qualidade de transcrição eu posso atestar com confiança. Se o usuário for um pouco mais ousado e quiser transformar a mídia em um disco híbrido, existem software houses que vendem programas a preços abordáveis, e que possibilitam montar um DVD Audio/Video com música estéreo em PCM a 96 kHz e 24 bits, sem perda alguma em ambas as interfaces.

Conservar download em mídia ótica não é tolice, mas sim uma forma de armazenar conteúdo em um formato que resiste ao apagamento, salvaguardando portanto o investimento do usuário, que não é pequeno.

Os equívocos comerciais da era PCM

Se o DVD já era uma mídia mais do que suficiente para armazenar áudio estéreo, o uso do formato em DVD-Audio mais ainda, porque permitia comportar PCM a 192 kHz e 24 bits de resolução, ou então som multicanal com até 96 kHz e 24 bits, com a ajuda de compressão sem perda, o MLP.

Até aqui, parecia que tudo ia bem. Mas, novamente o mercado reagiu mal, principalmente diante do custo. Para a reprodução de um DVD Audio, em um dado momento, a Panasonic ficou falando sozinha, parecia até a ressureição do imbróglio VHS versus Betamax, quando foi a Sony que ficou isolada no mercado. O DVD-Audio exige hardware e software dedicados. Se o leitor hoje quiser comprar um leitor de mesa compatível vai ter que suar a camisa e esticar o orçamento. Aqui no Brasil, eu só me lembro do Panasonic BD-10, um player de primeira geração que reproduzia DVD-Audio. O aparelho era caríssimo e ficou arcaico em curto espaço de tempo.

A mídia comercial em DVD-Audio também custou muito caro desde o início. Com isso, o consumo freou e o formato, que anda se encontra à venda por aí, virtualmente extinto.

Com o SACD, muitos estúdios abandonaram cedo o barco

O SACD foi proposto como uma continuidade de aperfeiçoamento do CD. Ironicamente trata-se na verdade de um DVD com modificações na estrutura da formatação. A ideia seria usar uma máquina de leitura capaz de ler um CD, quando então o disco seria reproduzido no formato 16 kHz e 24 bits, ou então em um reprodutor para SACD, capaz de entregar áudio de alta resolução de até 5.1 canais.

Ao invés do tradicional e já experimentado LPCM o SACD usa DSD, já descrito também nesta coluna. Até hoje, adeptos do PCM criticam que no DSD a amostragem é feita com apenas 1 bit de resolução e com as possíveis implicações de falta de precisão que o processo poderia trazer à baila.

O DSD representa, apesar de algumas críticas, o que há de melhor em captura e reprodução de áudio. O formato é mantido desde certo tempo para download e para reprodução em equipamentos capazes de ler arquivos DSD, estéreo ou multicanal.

Os custos de produção travaram tudo. Além disso, o suporte de reprodução não foi unânime. Vários Blu-Ray players da marca Sony são desenhados para reproduzir SACD, mas não o DVD-Audio, o que torna o equipamento em uma espécie de meia-bomba para o colecionador que precisa de um player para ambos os tipos de disco.

O lançamento do SACD se deu com um equívoco lamentável: alguns dos primeiros discos não são híbridos, e assim só poderão ser reproduzidos em um equipamento SACD compatível. Na figura abaixo, se vê à esquerda o exemplo de um disco deste tipo. Note a advertência impressa na parte inferior da luva do disco, e a ausência do logotipo do Compact Disc.

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No lado direito da figura pode ser visto um disco SACD completo: a gravação (no caso, analógica) foi mixada em 5.1 canais (N.B.: o LFE nunca é usado), em estéreo, com reprodução DSD, além de o disco ser híbrido, contendo a camada para reprodução como CD. Neste disco o aviso da multiformatação é visto também na luva de plástico que o envolve. Em outros discos é colado um selo de papel na capa, com a mesma finalidade.

Selos japoneses advogam que o SACD sem camada de CD soa melhor, muito embora não tenham trazido nenhuma evidência técnica que isto possa ser verdade.

O SACD teria sido a mídia ideal, não fosse o preço alto, a instalação obscura e o resultado dependente da qualidade do equipamento.

Equipamentos de amplificação preparados para SACD (“SACD Ready”) foram colocados no mercado sem o decodificador para DSD. Isto significou que o usuário precisaria instalar um leitor de mesa com o decodificador e retirar o sinal de uma linha de pré amplificação, ligando 6 cabos RCA entre ele e o amplificador (5 canais mais o LFE).

Na era HDMI, inicialmente a decodificação continuou a ser feita no aparelho reprodutor. E como a interface é toda PCM, o sinal seria obrigatoriamente convertido de DSD para PCM, antes de ser enviado ao equipamento de reprodução.

A conversão DSD-PCM foi alvo de todo o tipo de crítica. Para atender ao mercado, os fabricantes decidem então dar o passo lógico, que foi de incluir o decodificador dentro dos equipamentos de reprodução. Depois disso, os aparelhos de reprodução podiam então enviar o sinal DSD sem conversão prévia.

Sinais DSD sem conversão possibilitaram ainda atender a uma reclamação antiga dos audiófilos e entusiastas: a da reprodução chamada “pura”, que na verdade elimina o processamento de bass management do decodificador, e depois todos os circuitos de processamento de sinal capazes de afetar o sinal de áudio (equalizadores, etc.). Em receivers ou processadores de áudio e vídeo é ainda oferecida a opção “Pure Audio”, que desliga completamente os circuitos de vídeo.

O abandono virtual dos formatos

Eu bem que poderia ficar aqui listando erros, mas eu creio que o principal deles foi não enxergar a necessidade de estimulação de uso de formatos com maior resolução, seja por uma prática de preço elevada, completamente injustificada, seja pela ausência de massificação dos equipamentos de leitura.

No passado distante se reclamou muito do som dos CDs, mas até hoje eu raramente percebo o uso integral da faixa dinâmica que o CD pode dar, e tendo visitado estúdios várias vezes eu nunca vi motivo para se duvidar da qualidade do som transcrito ao CD, a não ser quando técnicos de remasterização resolvem introduzir limitadores e compressores.

O assunto tem me chamado a atenção ultimamente, em função do aperfeiçoamento significativo dos processadores de áudio digital (DSP), os quais contêm algoritmos capazes de melhorar com méritos sinais de áudio de resolução menor, como é o caso do CD, que está limitado a 16 bits.

É importante notar que durante quase uma década os reprodutores de CD não tinham chipset com capacidade de resolver sequer 16 bits de resolução durante o processo de conversão digital-analógico.

O aperfeiçoamento atual no chip decodificador nivela, na minha percepção, o sinal de um CD corretamente masterizado com o som de um DVD-Audio ou de um SACD estéreo. Portanto, se a procura por áudio de reprodução de alta qualidade existe, porque jogar fora formatos inclusos no DVD-Audio ou no SACD?

Salvo melhor juízo, áudio e música são assuntos correlatos, mas que carecem de demonstração de apreço, seja por falta de uma educação de base formal (que neste país já virou utopia, talvez nem tanto nas escolas de elite), seja pela ausência da massificação de conceitos pela indústria, quando de forma instrutiva e elucidativa mostrariam porque existe um investimento que não para na qualidade do hardware.

Muitos dos audiófilos que eu conheci já nasceram ou foram educados pelas famílias com propensão a se envolverem com música, em primeiro lugar, o apreço pelo áudio veio depois.

Não é obrigatório nem mandatório que um amante de música seja audiófilo. Muitos não são. Mas, eu conheço pouquíssimos que, na minha roda de convivência, não ficaram encantados ou impressionados ouvindo um bom equipamento de reprodução de música pré-gravada.

Estes equipamentos nunca irão, a meu ver, substituir as audições ao vivo, e nem a indústria ser propõe a fazer isso. Mas, por outro lado, emprestam um prazer auditivo que é insubstituível para quem não pode ou não tem mais motivos ou condições de frequentar as salas de concerto! [Webinsider]

. . . . . .

Leia também:

https://webinsider.com.br/2016/05/24/base-da-trilha-sonora-digital-moderna/

Respostas

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  1. Andre

    Nos anos 90 frequentei com alguma assiduidade a exposição de áudio high-end que acontecia na Casa das Rosas em São Paulo. Era a época do real valorizado. Ali tive contato com Mcintosh, Jeff Rowland, Krell, entre outros. Não importa que não pudesse pagar pelo que via, ouvir estava de bom tamanho e era impressionante. Com o tempo comprei o que meu orçamento permitia, ainda longe do high end, mas acima da média. Quem pode sequer ouvir equipamentos similares hoje para saber o que é bom? No Brasil está impossível. Tudo conspira contra, da educação à economia; formar consumidores ávidos por qualidade demanda tempo. Cultura gera riqueza e faz a roda da economia girar. Com arquivos digitais, os consumidores, medíocres na maioria, se contentam com caixinhas monofônicas ligadas ao celular. Ainda que um celular (com flac ou alac) se ligado a um bom equipamento produza um som maravilhoso desconhecem esse fato. Áudio HD é um prazer para uma minoria de uma minoria. Saudades dos anos 80, quando aparelhos modulares eram comuns e havia alguma preocupação com a qualidade da saída, mesmo não tendo fontes de alta resolução.

  2. Paulo Roberto Elias Post-autor

    Olá, André,

    Seu comentário está perfeito, parabéns. Assino em baixo quando você afirma que “cultura gera riqueza”. Não é preciso sair de casa para se dar conta de que muita gente não acredita nisso, o que evidencia que é a cultura do país que andou errado nos últimos sei lá quantos anos!

    Por outro lado, a gente que se envolve com áudio percebe a enorme evolução da eletrônica, capaz de nivelar por cima equipamentos mais simples com o high end, levando com isso ao completo desperdício da pesquisa realizada nos laboratórios especializados. É uma pena!

  3. Leeosvald

    Grande Paulo,

    Olha, não só no áudio esta esse abandono, mas no Brasil o Blu-ray esta com os dias contados, a Sony mesmo já desistiu de lançar Bd por aqui, os players de Bd cada vez mais escassos e por ai vai, ou seja, Bd por aqui não colou e nem vai, vale também para as TVs em 3D, o mercado nacional é um verdadeiro retrocesso.

  4. Paulo Roberto Elias Post-autor

    Leeosvald, concordo totalmente contigo. A impressão que sempre me passa no caso da indústria e comércio brasileiras é que elas são sazonais. Os lançamentos de equipamento avançado ocorrem quando menos se espera, seguidos de hiatos ao invés de continuidade da mesma política fabril e que frustram expectativas futuras. Em parte, um dos grandes problemas se refere à importação de bens de consumo e a taxação louca imposta pelo sistema a qualquer um deles.

    E no meio desta incerteza, eu me vejo importando Blu-Rays cada vez menos, por mais irônico que seja, não só por causa dos impostos como também pela decisão de fabricar e distribuir por aqui lançamentos recentes. Para você ter uma ideia, dos cerca de quatorze títulos com Dolby Atmos que eu comprei para apreciação e testes, somente um deles foi importado. E dos três com DTS:X um deles saiu aqui.

  5. caio

    Olá Paulo,

    Acabo de postar essa dúvida em um artigo mais antigo, de 2013. Acho que vale a pena reposta-la aqui.

    Gostaria de copiar (ou ripar, não sei ao certo) SACD’s para o meu mac e depois transferir os arquivos DSD para um pen drive. Assim, poderei toca-los no meu network player – que dispõe de entrada usb e aceita esse formato.

    O problema é que o meu computador ejeta o SACD tão logo este é instalado.

    Existe algum tipo de programa ou aplicativo para ripar sadc’s em macs? Pelo que entendi, a a plicação do Foobar 2000 não seria exatamente essa.

    Vejam bem, não quero nenhum tipo de player para tocar arquivos DSD a patrtir do meu mac. A idéia é transferir imediatamente esses arquivos para um pen drive, como tenho feito com arquivos de alta definição – 24/192 por exemplo – baixados de sites.

    Faria alguma idéia de como resolvo esse problema?

    Obrigado,

    Caio
    ** Com Blu-Ray Audio o mesmo processo também seria possível?

    1. Paulo Roberto Elias Post-autor

      Olá Caio,

      Já que são dois comentários em colunas distintas, eu vou responder aqui, se você me permite:

      Até onde eu sei, fora desse hacking do PS3, eu não conheço nenhuma maneira de “ripar” faixas de SACD para dentro do micro. Como também eu não conheço player, PC ou Mac, capaz de reproduzir DSD de um disco SACD. Os que vendem arquivos DSD convertem o arquivo de áudio a partir da matriz PCM, ou então codificando do analógico direto para DSD, sem passar por intermediário algum.

      Com o Foobar, a reprodução de arquivos é muito boa, mas a de disco não funciona, e eu até desisti de usá-lo com esta finalidade.

      Eu não tenho experiência com Blu-Ray áudio, mas posso lhe adiantar que em se tratando de Blu-Ray (ou DVD) existem trancas em profusão, e somente com o auxílio de uma ferramenta tipo AnyDVD HD é que se consegue transferir o conteúdo para dentro do disco rígido. Existe um programa pago excelente, chamado de DVD-Audio Extractor, que você pode inclusive baixar para testar, e que segundo informações, dá agora suporte a Blu-Ray (http://www.computeraudiophile.com/content/473-ripping-blu-ray-easy-way/).

      N.B.: você diz que o Mac ejeta os SACDs. Bem, eu não uso Mac, mas não me estranha nem um pouco. Na plataforma IBM qualquer SACD híbrido toca a parte do CD, os outros simplesmente não tocam.

  6. caio

    Olá Paulo,

    Muito obrigado pela resposta rápida. Nesse meio tempo fiz alguma pesquisa na internet e, sim, tudo pareceu me conduzir em direção ao PS3. Mas como eram posts um pouco antigos – 2 a 3 anos atrás – tive esperanças de que esse quadro pudesse ter mudado.

    Infelizmente sua resposta confirma que a realidade ainda é a mesma, o que é uma pena.

    Por ora, tenho baixado arquivos de alto nível de resolução de sites como Hdtracks ou Qobuz – incluindo dsd.

    Contudo, receio que a qualidade dos pouquíssimos arquivos em DSD disponíveis para download não tenham a mesma qualidade que um disco SACD, diretamente ligado a um player, possui. Isso vale também para os arquivos AIFF ou Flac com resolução de 96khz ou 192khz em comparação a cd’s. Desconfio inclusive que existe diferença de qualidade entre arquivos de músicas iguais e de mesma resolução baixados desses dois sites. Foi o que pude perceber na base do ouvido, fazendo comparações em tempo real entre arquivos que ouvi a partir de duas mídias simultaneamente conectadas ao meu set.

    Como isso seria possível se os números da codificação são objetivamente os mesmos?

    Por outro lado, percebi uma melhora (nada drástica, mas consistente) em relação a serviços de streaming como o Tidal – que promete mais qualidade que os concorrentes – mas, ainda assim, fiquei decepcionado com o resultado, pois esperava bem mais – não me refiro mais ao dsd, mas aos arquivos com resolução de 96khz ou 192khz, base da minha comparação.

    Você acha que todos esses meus receios e decepções fazem sentido? Esses site estão entregando o que de fato prometem?

    Obrigado uma vez mais.

    * em tempo, ouço arquivos de dsd a partir de um pendrive diretamente conectado ao meu network player, cujo dac aceita esse formato. Ouvia também alguns sacs em um player universal do qual me desfiz recentemente.

    1. Paulo Roberto Elias Post-autor

      Olha, Caio, sorte a sua ter conseguido comprar arquivos na HD Tracks e na Qobuz. A primeira me permitiu abrir uma conta no site, para depois dizer para mim que não pode permitir downloads para o Brasil, e a segunda aceitou um download (diga-se de passagem de uma gravação fora de catálogo), e na segunda tentativa eles me disseram que por eu estar no Brasil eles não poderiam deixar que eu baixasse a gravação. E quando eu perguntei como eles me permitiram adquirir a primeira, eles alegaram ser problemas com direitos autorais, vá se entender isso. Em suma, desisti das duas.

      Quanto à variação de qualidade, a situação é a mesma das gravadoras convencionais: é preciso recorrer às fitas matrizes, o que nem sempre é possível. O problema não está na portabilidade dos arquivos. Eu já fiz testes com arquivos cedidos a mim que mostraram que em sistema com chances de leitura e decodificação bem sucedidas, através de uma porta USB, o resultado é satisfatório.

      A melhor experiência que eu tenho tido com fontes digitais é a da leitura de CDs. Eu uso o meu sistema em modo “Direct”, tanto para PCM de 2 canais quanto para multicanal, mas isso porque a minha configuração de reprodução atual me permite incluir o subwoofer no conjunto de canais em reprodução. São os atuais decodificadores que fazem a mágica, que é a de conduzir o sinal de uma fonte desacreditada e tirar dela o melhor som possível.

      E note que é assim com qualquer decodificador. Historicamente, o Dolby Digital foi execrado por exegetas, e no entanto eu tenho um monte de trilhas com este codec tocando muito bem, obrigado. Melhorou mais ainda com a introdução dos novos decodificadores Dolby Surround, que fazem upmixing.

      A gente não sabe de onde partem as fontes de áudio usadas pelas empresas que fazem remasterizações para venda de arquivos. No passado não muito distantes, a própria HD Tracks foi acusada de fazer upsampling de fontes PCM 44.1/16, gerando uma polêmica danada em torno das vendas.

      Mas, comercialmente todas essas fontes sofrem um enorme desgaste com as empresas de streaming, assim como a TV por assinatura sofre com o Netflix e outros serviços. Se você comparar qualquer uma delas, nenhuma ganha de um Blu-Ray bem autorado, mas só enxerga as diferenças de virtude quem de fato se dedica ao hobby, concorda?

  7. caio

    Paulo,

    Utilizo VPN quando navego, daí a razão para eu ter conseguido baixar os arquivos. Mas não tenho certeza se no momento das compras eu estava plugado, logo existe a possibilidade de que o site tenha liberado o acesso ao Brasil.

    Você se refere ao Blu-Ray Audio não? Infelizmente minha experiência é quase nula com esta mídia – ouvi apenas um disco até o momento. Em teste comparativo com entre este blu-ray (Night Train, de Oscar Peterson) com um arquivo de resolução 96/24, não pude sentir nenhuma diferença notável que justificasse a troca por um player universal – com todas as suas limitações práticas – como fonte principal.
    Aliás, acabo de verificar, para a minha surpresa, que a Hd Tracks está disponibilizando arquivos com resolução de 352/24, vá entender em que fonte isso pode ser tocado.
    Seguirei atento aos seus excelentes artigos.
    Abraço.

  8. Paulo Roberto Elias Post-autor

    Olá, Caio,

    Se a HD Tracks liberou o download para o Brasil deve ser coisa muito recente. Eu entrei em contato com eles no mês passado, a propósito de uma remasterização do álbum A Mis Amigos, Nat King Cole, e eles repetiram a mesma ladainha. Eu havia aberto uma conta no site anos atrás, com a promessa deles de liberarem os downloads, ed cheguei a perguntar qual seria o propósito de eles me mandarem e-mail com propaganda, se eu não posso comprar nada lá. É claro, eles supostamente cancelaram o meu nome na mala postal do site, mas eu continuo recebendo os e-mails.

    Eu estou em uma fase avançada de somente investir em coisas que eu considero raras, digamos assim, e tenho amigos próximos que está fazendo o mesmo. Na prática, significa pesquisar exaustivamente atrás de uma brecha qualquer em algum catálogo obscuro. Foi assim que eu consegui, por exemplo, um CD com a remasterização de um antigo álbum do Duke Ellington, que eu havia recuperado de um antigo Lp MPS.

    Nat King Cole esteve no Brasil e foi ao estúdio da Odeon (recentemente fechado, segundo eu soube) e junto com o produtor da Capitol gravaram A Meus Amigos, que lá fora saiu com o título em espanhol A Mis Amigos, e com algumas das faixas de músicas brasileiras em espanhol. Eu tinha a última prensagem em Lp com a gravação original, e a usei para ter pelo menos uma cópia em CD. O Lp tem algumas distorções mas que devem ser originadas do estado da master. O vinil estava em bom estado, e eu me dei por momentaneamente satisfeito. É claro que esta gravação é primariamente comercial, não está no mesmo nível de muitas outras coisas que eu tenho dele aqui, mas a mim pouco importa, porque o álbum da Odeon marcou uma época.

    Voltando ao assunto, é possível que em uma rede VPN eles não saibam onde você está, mas eu não uso este tipo de configuração de rede faz muitos anos, e portanto não saberia lhe dizer se iria funcionar.

    Acho esta disponibilização de arquivos com resolução acima de 192/24 um tanto ou quanto surrealista, mas visa a atender uma meia-dúzia de, desculpe falar isso, apologistas do esotérico.

    Acho uma sandice não liberar download para o Brasil. Eu tenho meus contatos lá fora e já recebi várias remasterizações da HD Tracks, algumas das quais não me entusiasmaram, e outras tem diferenças marginais com relação ao CD. A prática tem me mostrado que acima de 96/24 a diferença é pouquíssima ou nenhuma. Muitos dos meus CDs soam muito bem obrigado e dá para notar as limitações da fonte. Em passado recente eu cheguei a algumas inevitáveis conclusões sobre audição de material de boa qualidade: a primeira, que a velhice é implacável com os ouvidos do audiófilo e a segunda, que anos atrás eu tinha base para acreditar que o CD foi um dos mais importantes avanços do áudio e pelo caminhar dos atuais decodificadores, eu me sinto confortável de saber que a minha intuição estava correta!

    Obrigado por acompanhar a coluna, Caio. Nem sempre eu falo sobre áudio, mas seja bem vindo para ler sobre os outros assuntos também.

  9. caio

    Olá Paulo,

    De agora em diante acompanharei seus artigos com mais atenção. Não costumo ler muita coisa sobre tecnologia, mas volta e meia me deparo com um assunto que desperta o meu interesse. Aliás, nem sabia desse site, cheguei ao seu texto através do google em pesquisa sobre o tema.

    Como meus últimos downloads na hd tracks foram há cerca de duas semanas atrás – e eu não tive qualquer problema em baixa-los – eles ainda restringem sim, o acesso para o Brasil. No seu lugar eu não desistiria assim tão fácil, por que eles tem tido cada vez mais coisas interessantes por lá. O problema é, como você disse, é que não sabemos nada acerca do processo de conversão, se foi ou não a partir da matriz original. No entanto, há diversos lançamentos do Miles Davis extraídos do original (vem escrito na capa). Em vinil estes lançamentos rodam em 45rpm e vem em dois discos – o que de uma certa forma é um problema, apesar da qualidade teoricamente superior. Nesse caso (como em outros parecidos) os arquivos digitais poderiam ser uma opção a ser seriamente considerada.

    Um último ponto: você afirmou ter convertido o seu vinil em cd. É possível converte-los em arquivos com resolução de 96/24 ou 192/24 para serem tocados a partir do micro?
    Existe algum lugar aqui no Rio que faz esse serviço?
    Em caso negativo, qual o equipamento necessário para isso (nada de MP3)?

    Obrigado uma vez mais.
    Abraço

    1. Paulo Roberto Elias Post-autor

      Caio, as ferramentas estão todas aí. Hoje em dia você pode baixar e instalar o Audacity, que remasteriza o que você quiser, a custo zero.

      Ligue a saída do pré de phono (onde você plugou o toca-discos) na entrada de áudio estéreo do seu computador. Consulte o manual se você não souber onde está.

      Depois de tocar o Lp mande o Audacity (ou qualquer outro programa equivalente) masterizar na resolução desejada (96/24, etc.). Salve o lado todo do Lp em formato wav ou flac, ou faixa a faixa, se você ainda não conhece como inserir as cue marks, que delimitam as faixas. Aplique filtros de limpeza, se desejar.

      Depois de tudo pronto pegue os arquivos wav ou flac e use um programa para queimar mídia (o Nero Burning Rom na minha opinião é o melhor), ou transfira diretor para um pen drive, na ordem correta e em subdiretório separado.

      As minhas remasterizações levaram anos, inclusive porque eu fiz para os amigos que me pediram. Depois disso, eu dei o meu toca discos e o que sobrou da minha coleção de discos.

      Em alguns casos o ruído de massa me deixou doido, mas com a experiência se aprende a tirar qualquer ruído, e foi assim que eu salvei um disco precioso de um amigo meu.

      Do resto da minha coleção sobrou muita coisa com prensagem excelente, mas eu não tenho a menor saudade dos Lps. Depois ainda consegui gravações raras em fita magnética, com um amigo americano, que masterizou para mim, e eu depois editei tudo sem grandes percalços. As fitas soam duzentas vezes melhor do que qualquer Lp, basta transferir o conteúdo com cuidado.

      Não deixe isso na mão de terceiros. Faça você mesmo, vale a pena, é uma aventura e tanto.

      Obrigado por acompanhar a coluna. Você pode ler textos sobre áudio mais antigos na lista que o site mantém.

    1. Paulo Roberto Elias Post-autor

      Caio, eu te agradeço muito, mas passo perto do vinil segurando uma cruz e mastigando alho…

      Sim, conheço a Elusive. Outro site bom, porém muito caro, é o da Analog Productions, que faz SACDs com masterização caprichada. Quando se dá sorte, ele reeditam a partir da chamada fita alfa, que é a master original, pré master de Lp, geralmente três canais, o que é ótimo. Isso sem compressão ou limitação do sinal.

  10. caio

    Paulo,

    Obrigado pela dica da loja.
    Possuo o Audacy mas não tive sucesso em gravar nada do meu notebook. Deve haver algum tipo de descompasso entre esse programa e o Mac, pois não consigo fazer o que ele pede.E a despeito da possibilidade de configuração da gravação em alta resolução, estranhamente não vejo opção opção de arquivo que não seja o MP3 …

    Mas vou continuar tentado.

    Abraço

    1. Paulo Roberto Elias Post-autor

      Olá Caio,

      Não desanime, certamente existe alguma coisa errada nas conexões. Eu não uso o Audacity faz décadas, mas as novas versões o meu filho usou e gostou muito. Existem pilhas de tutoriais pela Internet, e eu peguei um para você ver como “Exportar” o arquivo gravado no formato que quiser, à guisa de ilustração: https://www.youtube.com/watch?v=xBMhf53SSC8

      Existem programas que em vez de salvar exportam, mas no final é a mesma coisa. Em Windows se usa muito “Save As” ou “Salvar Como”, para mudar de formato.

      Em tempos idos, eu usei o Cool Edit Pro e depois o Adobe Audition 1.5, e parei por aí. Naquela época, eu tinha contato em estúdio, que me permitia usar alguma coisa deste tipo. O Audacity eu usei só para testes, mas depois tirei fora da máquina. Hoje em dia é raro mexer com áudio.

      Usando qualquer programa pense no formato Flac. Este formato já foi discutido aqui na coluna quando ainda era novidade. Ele incorpora a portabilidade do PCM em qualquer resolução. De tempos para cá praticamente todos os players decodificam Flac.