Muito tempo sem escrever…

Vivi no último mês uma das experiências mais dolorosas que um ser humano pode viver: a morte de minha mãe.

E começo a escrever aqui falando disso porque sei da importância de cada uma de nossas experiências emocionais vividas em tudo que pensamos, criamos, realizamos todos os dias. Escrevemos e criamos sempre a partir daquilo que vivemos, digo sempre.

E escrevo aqui porque através de sua vida absurdamente vivida, minha mãe foi uma mulher admirável e talvez uma das maiores gestoras de pessoas que já conheci.

Dela vem minha formação humanista, generalista, sempre aberta ao novo e tolerante em relação às diferenças.

Outro dia li um texto do Ricardo Guimarães (na sua coluna na Trip) sobre tolerar o diferente, o não tão capaz, o que não é sempre acima da média. O Guimarães falava de como o mundo moderno/corporativo hoje exige sempre mais de todos nós e de como não há nenhuma abertura para lidar e dar vez aos que seriam ditos “menos capazes”.

Depois de ler o texto, um amigo meu ainda completou: “– Não bastasse isto, ainda tem aqueles que estão sempre subindo a régua! Hoje você tem que fazer faculdade, ter inglês fluente, se possível espanhol também e ainda fazer MBA e depois ainda mestrado! E se você não for atrás… out.!”

Seleção natural?

Minha mãe trabalhava diretamente com os ditos diferentes.

Com 26 anos teve uma filha com síndrome de Down. Tinha já três outros filhos, 3, 2 e 1 anos de idade! Eu vim quatro anos depois desta irmã “deficiente”.

A vida da minha família mudou muito com a vinda desta irmã, que nunca pôde se desenvolver como os outros e sempre foi uma criança especial. Minha mãe fez disto uma causa e iniciou um belíssimo trabalho de educação de crianças “especiais”. E da convivência constante com o sempre diferente fomos crescendo e aprendendo a explorar a mínima capacidade que o outro pudesse desempenhar.

Esta experiência de vida é um de meus maiores patrimônios. Aquilo que herdamos e que se transforma em valores e nos dá um rumo certo na vida, é nosso maior tesouro.

Minha mãe me ensinou a sempre olhar o outro em seus limites e diferenças. Como gestora de pessoas hoje isto para mim é fundamental.

Escutar, olhar, ter tempo para aquele com quem você divide a maior parte de seu tempo, funcionários de uma mesma empresa, é fundamental para que uma equipe crie, produza, esteja contente e dedicada àquela causa comum: os projetos que temos todos os dias e que, como hoje mesmo, às vezes nos exigem passar um sábado inteiro no escritório terminando a apresentação daquela famigerada concorrência.

Isso é possível quando temos um desejo comum e sentimos que por parte da empresa não somos só mais um número que deve desempenhar bem, porque ao contrário, se não estiver à altura, OUT!

Tudo bem, você pode estar pensando que já fez hora extra e já veio no sábado porque se não o fizesse outros fariam e…. eu prefiro achar que em uma estrutura mais cuidadosa com as pessoas e suas reais questões, as pessoas se comprometem de uma outra forma… o compromisso existe enquanto ética e afeto.

É isso que aprendi e tento reproduzir nos lugares por onde passo… Atualmente vivo uma realidade bastante idealizada. Tento sempre estar atenta às pessoas de minha equipe e saber se estão satisfeitas com seu trabalho, função, responsabilidades e se tem desejo e visão de futuro.

Escutar queixas específicas e dar a estas uma atenção devida é algo que faz com que a pessoa sinta–se ocupando um lugar de valor dentro de todo o processo.

Gerir projetos é gerir processos e disto leia–se cuidar bem das pessoas envolvidas em cada um deles.

Ser um pouco mãe, todos os dias… porque na relação de cuidado com o outro reedita–se todos os dias uma relação especial, delicada e preciosa que faz com que emerja o melhor que cada ser tem a oferecer naquilo que cria e produz.

Acho que é por isto que já por duas vezes duas pessoas na agência ao me chamarem confundiram meu nome, Ana… e me chamaram…

– Mãe!

Sinto falta da minha… [Webinsider]

São Paulo, 23 de agosto de 2005.
Pleno inverno ensolarado.

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