Durante os anos em que ministrei treinamento a funcionários na área comercial de empresas de bens de consumo tive a oportunidade de conviver com algumas pessoas que, de alguma forma, marcaram minha carreira profissional.

Uma dessas pessoas eu conheci em meados dos anos 1980. Nessa ocasião eu trabalhava numa multinacional de alimentos que acabara de adquirir o controle acionário de seu principal concorrente brasileiro e, semanas depois, fui designado para avaliar o gerente de vendas da empresa adquirida – a fim de proceder ao temível “enxugamento”.

Meu voo atrasou e fui obrigado a pernoitar numa cidade onde nunca tinha estado antes. Após me acomodar confortavelmente num pequeno hotel, desci ao restaurante a fim de tentar fazer uma refeição, pois até então estava completamente em jejum.

O salão estava cheio e o maitre me colocou em uma mesa junto com outro viajante que, segundo ele, “era do mesmo ramo que eu”. Era um sujeito simpático, uns dez anos mais velho e com um ar meio entediado.

Começamos a conversar e coincidentemente o assunto enveredou para as nossas carreiras.

Ele me disse que era gerente de vendas, embora não me tivesse dito o nome da organização para a qual trabalhava. Deu-se o seguinte diálogo:

– Eu estou muito irritado com o meu trabalho! Qualquer coisa eu já estou saindo do sério e, quando eu chego em casa, a família já sabe – pela minha cara – que parece que eu estou chegando do purgatório – disse ele.

– Puxa, mas o seu trabalho é assim tão penoso? – perguntei-lhe.

– Demais… Eu acabei até ensinando para os meus filhos que trabalhar é muito ruim, é uma batalha diária e você tem que matar um dragão todo santo dia.

– Mas você é um gerente, não deve ser tão cansativo assim?

– Claro que é… Eu me divirto muito pouco lá naquela empresa, embora tenham até umas pessoas legais que tentam me fazer rir, mas eu não consigo.

E completou dizendo: “Eu só quero cumprir com as minhas obrigações e ir embora o mais rápido possível”.

– O que você faria se soubesse que perderia o emprego agora? – perguntei-lhe meio sem graça.

– Não tenho a menor ideia. Eu não estou acompanhando o mercado de trabalho e acho que não teria condição alguma de sair por aí procurando emprego… Dizem que está difícil, não é?

– É verdade… O mercado está bastante competitivo. Mas o que você tem feito para melhorar essa situação? – disse eu.

– Outro dia fui pedir aumento pro meu chefe e ele me perguntou quanto eu valia no mercado – disse-me ele sem prestar muita atenção ao que eu perguntara.

E completou seu raciocínio: “Eu estranhei a pergunta dele, pois eu não tenho a menor ideia sobre esse assunto”.

– E os seus planos? Afinal você é um gestor e tem responsabilidade sobre outras pessoas – indaguei surpreso.

– Você quer saber: eu acho que eu já dei o que tinha que dar, sabe? Já trabalhei muito e agora eu já estou desacelerando. Afinal, faltam só nove anos para eu me aposentar – respondeu ele, completando: “Por enquanto eu vou levando com a barriga essa vaguinha aí de gerente e, quando eu me aposentar, eu penso o que eu farei depois”.

– E na empresa? As pessoas percebem isso em você? – perguntei.

– Não sei… Também não me sinto em condições de ser contratado por uma dessas empresas modernas que têm por aí, pois elas são muito exigentes – disse resignado.

– E qual foi a sua última reciclagem ou treinamento pelo qual passou?

– Ahhhh… tem mais de cinco anos. Não dá tempo amigo, minha vida é muito corrida e além disso também não tenho dinheiro para investir em cursos, palestras ou livros caros.

Na manhã seguinte embarquei em um novo voo até o meu destino final e, para minha surpresa, ao chegar à sede da empresa constatei que o sujeito da noite anterior era exatamente o gerente de vendas que eu iria avaliar.

Diagnóstico. Ele estava com todos os sintomas de uma grave doença dos tempos modernos – a “Carreirite Crônica”.

A carreira desse profissional ia muito mal e, se por acaso você se identificou com pelo menos um dos sintomas apontados acima, não deixe a coisa piorar. Trate-se, meu amigo (a). [Webinsider]

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