Iriz Medeiros e Fabiano “Oggh” Denardin
Falar sobre inclusão digital em um país onde 30% da população é analfabeta e apenas 10% das escolas públicas têm biblioteca parece contraditório um tanto sem sentido. Mas não é bem assim que pensam quatro figuras importantes do cenário digital e educacional brasileiro que estiveram no Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (FILE – Symposium 2002) para discutir o tema.
“A Inclusão Digital e a Inclusão na Cultura Digital” foi o assunto da mesa–redonda que deu início às atividades do Festival FILE, na semana passada, no SESC Vila Mariana, em São Paulo. Até o dia 22 de agosto serão realizadas palestras, performances, apresentação de trabalhos e workshops que abordam o uso das novas tecnologias como a construção de uma nova forma de linguagem para a cultura contemporânea.
Para falar sobre alguns projetos que vêm sendo desenvolvidos no Brasil para a chamada inclusão digital estiveram presentes na mesa–redonda Danilo Santos de Miranda, diretor regional do SESC São Paulo; Frederic Michael Litto, coordenador científico da Escola do Futuro; Gilson Schwartz, coordenador geral da Cidade do Conhecimento, e Rodrigo Baggio, diretor executivo do Comitê para Democratização da Informática (CDI).
Danilo Santos de Miranda começou o evento falando sobre o projeto Internet Livre, um espaço dentro das unidades do SESC que tem por objetivo democratizar o acesso à internet e possibilitar que pessoas menos favorecidas financeiramente descubram através da rede uma nova forma de inclusão social e reciclagem cultural, principalmente o público jovem. Inaugurado em maio do ano passado, o projeto já atendeu mais de um milhão de pessoas.
Além de falar sobre o Internet Livre, o diretor regional do SESC São Paulo também falou das dificuldades do processo de inclusão digital, uma vez que a internet ainda é restrita a uma minoria da população, além de ser permeada por relações de poder. Ainda segundo Danilo, a educação do público deve se dar não apenas no sentido tecnológico, para que saibam acessar à internet, mas também no sentido de expressar–se através do meio digital.
O segundo participante a manifestar–se sobre projetos de inclusão digital foi o coordenador científico da Escola do Futuro, Frederic Michael Litto. A Escola do Futuro é um núcleo de pesquisas da Universidade de São Paulo que tem como principal atividade a investigação de novas tecnologias aplicadas à educação, implementando, assim, novas propostas de ensino. A entidade trabalha para o desenvolvimento do ensino de 1° e 2° graus, capacitação de professores, além de fazer parcerias com o mundo empresarial para a implantação de novas propostas educacionais. Dentre os projetos de destaque estão A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro, que recebe em torno de 6 mil visitas diárias, Acessa São Paulo, projeto feito para a prefeitura da capital paulista e que oferece cursos gratuitos de informática e acesso à internet para moradores de comunidades carentes, e o projeto Telemar Educação, uma parceria da Escola do Futuro com a Telemar para a criação de laboratórios de informática em escolas públicas de ensino fundamental em 16 estados brasileiros.
Além de falar sobre alguns projetos, Frederic Michael Litto criticou o governo centralizador existente no Brasil, a descontinuidade governamental em relação a políticas de desenvolvimento e criticou também o Ministério da Educação, o MEC, por não acreditar na educação à distância. Descrente em relação às iniciativas governamentais, concluiu: “Se a sociedade civil não ajuda, a coisa não vai para a frente. Esperar pelo governo não adianta”.
Por sua vez, Rodrigo Baggio falou sobre o CDI, Comitê para Democratização da Informática, primeira ONG do Brasil na área de inclusão digital. Fundado em 1995, o CDI começou suas atividades fazendo uma campanha para a doação de computadores para as comunidades de baixa renda da cidade do Rio de Janeiro. Em março de 95, implantou a primeira escola de informática na favela Santa Marta, também no Rio de Janeiro. Hoje, o CDI já conta com 588 escolas em 19 estados brasileiros, além de escolas em vários outros países como Chile, Uruguai, Colômbia, África do Sul, Angola, Japão, entre outros.
De acordo com Rodrigo Baggio, o Comitê para a Democratização da Informática conta com mais de 700 voluntários e 1.150 educadores moradores das próprias comunidades atendidas. O foco principal da ONG são as favelas, mas também desenvolve projetos em presídios, hospitais psiquiátricos, comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas. Ao falar do projeto, Rodrigo Baggio destacou a importância das novas tecnologias para a criação de novos modelos comportamentais para os jovens das favelas, que geralmente têm como espelho os chefes do tráfico.
Ficou para Gilson Schwartz o papel de questionador das políticas de democratização da informática apresentadas pelos outros participantes da mesa. Segundo ele, é questionável que as empresas patrocinadoras da maior parte dos programas de inclusão digital sejam as empresas que se beneficiarão – em maior ou menor grau – dos programas, aumentando a sua base de usuários ou popularizando seus produtos.
Um outro ponto salientado foi a existência ou não de uma linguagem para essa cultura digital emergente. Gilson acredita que boa parte das experiências que estão sendo feitas com os computadores são bricolagens, aplicação de conceitos que estão aí há muito tempo, mais do mesmo, e não uma nova expressão, com o computador sendo pouco mais que “uma televisão incrementada”. O processo de inclusão digital não deve abranger apenas a internet e a informática, mas a indústria cultural e a produção do conhecimento como um todo.
O debate nos mostrou que recém estamos começando a entender e a dimensionar o que precisamos fazer e como devemos fazer para “incluir digitalmente” a maioria da população brasileira. O que não é uma tarefa fácil, principalmente levando em conta que vivemos em um país de 170 milhões de pessoas, com aproximadamente 30% delas analfabetas, segundo dados do IBGE, e muitas sem sequer ter o que comer. Mas isso não pode ser usado como um empecilho à discussão e à implementação desses projetos.
A diferença (extremamente saudável) entre as visões apresentadas é um sinal de que precisamos discutir os projetos de inclusão digital, como quer o professor Gilson, mas simultaneamente à discussão são necessárias atitudes como os projetos dos quatro palestrantes, para diminuir, nem que seja um pouco, a barreira entre a informação e o público, e aproximar o país dos centros produtores de tecnologia. [Webinsider]









