O tempo foi implacável na obsolescência de componentes antigos usados na fabricação ou montagem de computadores pessoais, devido ao aumento da capacidade de processar dados.
Quando o MSX Expert da Gradiente foi lançado, a CPU instalada na placa-mãe foi um chip Zilog Z80A, de 8 bits, com atraentes 3.58 MHz de batimento, mantida em todas as versões. Com o MSX eu e muitos amigos rodamos de tudo, processador de texto, planilha, banco de dados, etc.
O tempo se encarregou de tornar estes tipos de CPU, que foram importantes no início da microinformática, obsoletos, e de forma implacável. Os micros de 8 bits desapareceram, para dar lugar aos de 16 bits e acima.
Na década de 1990, um colega do laboratório me pediu ajuda para instalar um dispositivo leitor de placas de Elisa. Ao consultar o manual, uma surpresa: ele ainda trabalhava com o velho e bom Zilog Z80. A conexão entre o leitor e o computador usava uma porta serial. O fabricante nos mandou por e-mail o software gerenciador da leitura, sem o qual seria impraticável ler a placa em exame.
Mas, embora o Z80 tenha tido sucesso na sua época, ele pertenceu a uma geração de CPUs que precisaram ser abandonadas. A evolução da microinformática, com processamento de dados cada vez mais sofisticado, exigia endereçamento de memória acima de 8 bits.
Mas, isso só foi o início. O aparecimento de sistemas operacionais com interface gráfica exigiu uma capacidade de processamento de dados cada vez maior. Basta dizer que as primeiras CPUs mais sofisticadas, tipo Intel 386 e 486, não vinham com um processamento aritmético desejado. E o que era anteriormente muito mais indicado para o uso do computador para fazer cálculos e projetos demandantes em DOS, se tornou vital para o uso de sistemas como o Windows ou o MacOS.
Quando o Windows chegou na versão 3.1 tudo mudou radicalmente. A Microsoft havia introduzido as fontes TrueType, usadas pela Apple e afanadas da Adobe, que fez as fontes PostScript tipo 1, destinadas principalmente para uso em impressoras gráficas. Essas fontes eram dotadas de métricas, quer dizer, o tamanho de cada caractere se baseava em uma medida básica, cujo tamanho podia ser alterado de acordo com a construção do texto. Por exemplo: A, A e A.
Eu passei por uma experiência nesta direção: eu havia comprado um sofisticado computador Amstrad com uma CPU Intel 386 SX, que não tinha coprocessamento aritmético. Mas, a Intel fez uma promoção na época, vendendo o seu coprocessador para 386 a preços reduzidos, e eu podia instalá-lo em um soquete da placa-mãe. Isto feito, o Word for Windows rodava muito mais veloz, por incrível que pareça. Claro que planilhas, como o Excel, então, nem se fala.
A necessidade do uso de coprocessadores aritméticos foi só o início. A demanda de processamento de sistemas operacionais e programas exigiu também o desenvolvimento de componentes, não só das CPUs, mas de adaptadores de vídeo, memória, etc. E é assim até hoje!
No que tange a CPUs, ainda se tornou necessário aumentar a capacidade cada vez maior do processamento de dados. Em um ponto deste histórico, alguns fabricantes de placas-mães lançaram modelos capazes de aceitar mais de uma CPU, o que encarecia sobremaneira o custo da montagem de um micro.
Entrada em cena dos núcleos e das fileiras de execução de dados
Os fabricantes de CPU começaram a sofisticar o processamento de dados, a partir da introdução do conceito de núcleos operacionais dentro de um mesmo chip: o núcleo é uma unidade de processamento de dados independente dentro da CPU, como se fosse um chip dentro de um chip, no caso na forma de um chiplet. Isso permite que a CPU com mais de um núcleo possa executar múltiplos processamento de dados, acelerando a execução de qualquer programa.
Além disso, cada núcleo pode rodar mais de uma fileira (chamada de “thread”) de dados ao mesmo tempo. Uma CPU AMD Ryzen 9 5900X, por exemplo, tem nada menos do que 12 núcleos, podendo rodar 24 linhas de processamento de dados ao mesmo tempo.
Assim, em vez de usar duas CPUs na placa-mãe, instala-se uma única CPU com múltiplos núcleos, com batimento elevado e sem precisar de overclock. Ao montar, o usuário final pode escolher que potência de processamento ele precisa ou pode comprar.
Intel e AMD vem lutando para vencer quais das suas CPUs tem maior capacidade de processamento, uma guerra sofisticada de alta tecnologia. Neste particular, a Intel sempre foi detentora do prestígio dos usuários avançados, mas este prestígio foi muito abalado quando a AMD lançou os processadores Ryzen e com um custo mais baixo. No final, quem ganhou foi o usuário que monta o seu micro, com uma maior quantidade de opções de montagem.
Conselhos inúteis e deseducativos do YouTube
Infelizmente, nem todo mundo que coloca os seus vídeos no YouTube assume a responsabilidade pelo que fala ou exibe. Em um desses vídeos eu assisti um senhor, aparentemente da área de TI, e que se auto identificou como uma pessoa de “larga experiência”, declarar com convicção que o usuário não precisa ficar preocupado com a obsolescência de componentes antigos, instalados em computadores que ficaram para trás. E que é absolutamente desnecessário gastar dinheiro com componentes ou computadores mais novos!
Lá pelas tantas do vídeo, ele declara que modifica computadores antigos, tornando-os eficientes e rápidos, através da instalação de um sistema operacional baseado em Linux. Então, o vídeo é, na realidade, uma venda de serviço, destinada a usuários que tentam recuperar computadores velhos.
Mas, o Linux não foi desenvolvido com este tipo de intenção, mas sim como opção gratuita e com código aberto, aos sistemas caros, oferecidos para plataformas IBM, como o Windows, que tem monopólio nessas máquinas.
O Linux e suas variantes, distribuídas em pacotes de instalação, destina-se àqueles que são aficionados por programação e/ou àqueles que querem montar um sistema e não têm muita grana para gastar nesta montagem. Os sistemas baseados em Linux são bons, leves no hardware, e podem ser usados até sem necessidade de serem totalmente instalados, isto é, podem servir como alternativa, até em máquinas com boot duplo.
Porque então essa insistência em usar Windows ou MacOS? A resposta é simples: são sistemas operacionais com larga experiência de fracassos e sucessos, mas cuja eficiência, no trato com computação elevada de dados de tudo quanto é tipo é inquestionável.
A evolução do Windows, por exemplo, nos ensinou que hardware e software tem que caminhar par e passo com todas as evoluções do processamento de dados, o que justificou o aprimoramento dos dispositivos e componentes, e a procura dos mesmos por quem monta um computador melhor, ou compra um modelo novo e mais moderno.
Por isso, o vídeo desse senhor contradiz o conceito de atualização de hardware, o chamado “upgrade”, bem como deseduca quem ouve aquele discurso sobre a falsa obsolescência de dispositivos que ficaram para trás.
Se esta mentalidade fosse prevalente na indústria, nós hoje não teríamos telefones celulares capazes de fazer tudo! Um simples celular é capaz de trazer o mundo nas mãos de pessoas que nunca colocaram as mãos em um computador de qualquer tipo. E que nem tem ideia com o quê estão lidando! [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.









