Tecnologia e obsolescência: enquanto a tecnologia traz ao mundo mais conveniência nas tarefas, fica cada vez mais difícil imaginar uma sociedade mais justa.
Eu acho que já contei esta anedota, que eu li na antiga revista Mad, mas vou repetir, se me permitem: em uma revenda de informática foi feito um pedido de um computador que acabara de ser lançado, mas o gerente diz ao vendedor “manda de avião, para evitar que quando o comprador receber, o computador já esteja obsoleto”.
Não me lembro da anedota original, mas esta versão serve para ilustrar um fenômeno que já vinha acontecendo anos atrás, quando a informática avançava a passos largos e difíceis de acompanhar pelo usuário final.
Eu tenho até hoje a sensação de que quem nasceu lá pela metade do século passado e ficou ligado aos avanços da tecnologia e/ou da ciência, certamente poderá ficar ainda impressionado com os avanços, modificações e a obsolescência de produtos e projetos. Tal impressão é vasta e cobre qualquer campo, senão vejamos:
Áudio
O áudio foi primeiramente gravado acusticamente, com a disputa comercial entre o cilindro e o disco. Na década de 1930, foi inventada na Alemanha a fita magnética, cujo princípio em si já era conhecido, só que não neste tipo de aplicação.
Os primeiros gravadores se espalharam pelo mundo, como espólio de guerra. A fita magnética revolucionou os métodos de gravação, inclusive e principalmente no cinema. Mas, não ficou por aí, porque as primeiras gravações digitais foram feitas com fita magnética.
Se hoje, alguém entra em um estúdio e vê a gravação ser feita com um computador rodando Pro Tools, provavelmente nem vai lembrar mais do que aconteceu no passado! As máquinas analógicas de última geração ainda estão por aí, mas, até onde eu saiba, quase ninguém usa.
Cinema
No cinema, todas as mudanças foram impactantes. A mídia cinematográfica influenciou o gosto do público por décadas a fio, mesmo depois que a televisão ameaçou a arrecadação das salas de cinema!
As primeiras capturas em fotograma usaram negativo de 35 mm, com lente esférica, o que levou a uma padronização da relação de aspecto que permitiu a inclusão de uma trilha sonora ótica na película.
A tela quadrada 1.37:1 daquela época foi depois substituída por uma tela panorâmica, com diversos tipos de relação de aspecto. Antes disso, o cineasta francês Abel Gance já havia experimentado telas largas, com compósitos de telas convencionais. Tal princípio foi o mesmo que norteou os criadores do Cinerama de 3 películas, anos mais tarde.
As telas largas continuaram a crescer. Na década de 1930, a Fox experimentou rodar filmes com película de 65 mm, processo chamado de Fox Grandeur, mas não teve sucesso. Na década de 1960, o negativo de 65 mm foi ressuscitado quando Michael Todd pediu para a American Optical desenvolver o que ele chamou de Cinerama de um só “buraco” (película), depois conhecido como Todd-AO.
Ao mesmo tempo, a Fox vai para a Europa e licencia a lente anamórfica, lançando o CinemaScope, com película 35 mm e som estereofônico magnético. Este último formato foi muito mais barato para o exibidor, que precisava apenas trocar as lentes e a tela, e um adaptador para leitura da banda magnética.
As filmagens também foram feitas com a película rodando horizontalmente, como o VistaVision e o Technirama, ampliando assim a qualidade da captura e da projeção em 35 mm. Dezenas de outros processos, como, por exemplo, o Super 35 mm, foram tentados, cada um com suas características próprias.
Projeção digital
As mudanças no cinema foram dramáticas ao longo de todos esses anos. Vários foram os processos de produção, com mudanças de bitolas e de captura dos fotogramas. Poderia ter continuado assim, mas Hollywood impôs a projeção digital, que acabou ficando até agora.
A mudança em si prejudicou os antigos operadores, que perderam seus empregos, e em nada melhorou tecnicamente para o público em geral.
O som digital conquistou o cinema, começando com a antiga ideia de aumentar a reprodução dos canais surround, pouco usados até então. E hoje os formatos 3D, sem exceção, levaram a reprodução de áudio ao nível do seu melhor espalhamento nas salas de cinema e dentro de casa.
Home video
O home video teve a sua origem por causa de dois fenômenos recorrentes: a diminuição de público e posterior fechamento das salas de cinema no mundo todo, e a necessidade de recuperação ou resgate dos filmes cujos negativos e cópias estavam se deteriorando nos depósitos dos estúdios, levando a um prejuízo incalculável.
Notem que a telecinagem de filmes antigos nas emissoras de televisão não tinha o resultado esperado perante a comunidade de cinéfilos. Aqui no Brasil mesmo, essas cópias de filmes, quase sempre em 16 mm, eram dubladas e sem graça.
A principal motivação do consumidor para o home video foi a possibilidade de se colecionar filmes dentro de casa, com qualidade aceitável de imagem e som mais mais puro. Anteriormente, as cópias em 16 mm eram alugadas ou exageradamente caras para comprar, sem falar na dificuldade de achar espaço na casa do cinéfilo, disponível para guardar as caixas dos filmes.
O home video propiciou o desenvolvimento da leitura da mídia com o raio laser, cujas propriedades melhoraram substancialmente a reprodução dos discos. O vídeo disco com o uso de agulha chegou a ser produzido, mas teve vida curta. Um dos aperfeiçoamentos de corte da matriz para elepês resultou desse desenvolvimento, mas com a entrada do CD no mercado acabou sumindo!
O Laserdisc (última versão de videodisco com leitura a laser) também acabou sumindo do mercado, substituído pelo DVD, já totalmente digital, som e imagem.
O pick-up ótico foi uma grande evolução na leitura da mídia, mas os dispositivos de memória, hoje na ordem dos terabytes, facilitaram a mudança de reprodução para aqueles que passaram a reproduzir imagem e som com drives de relativo baixo custo.
O celular smartphone
Eu estava em Cardiff, quando um dos meus orientadores comprou o que na época foi chamado de “telefone móvel”. Depois eu fiquei sabendo que os primeiros telefones deste tipo eram verdadeiros tijolos. E, na época, eu perguntei a ele se era útil, e ele me diz, insatisfeito, que em muitos momentos, dependendo de onde ele estava, o telefone era inútil. Sim, porque ainda eram poucas as torres de retransmissão de sinal.
A miniaturização da eletrônica, somada ao aperfeiçoamento dos algoritmos de rádio frequência foram os transformadores do uso do telefone móvel.
Na década de 1990, eu pensei em comprar um, quando encontrei no supermercado uma promotora, à qual perguntei qual seria o melhor modelo. E ela me fala, com convicção, de que eu devia esperar, porque a tecnologia dos telefones móveis estava mudando.
Mas, teria sido muito difícil, naquela época, saber o que vinha por aí. A tecnologia atual do telefone móvel inteligente tornou o aparelho não apenas um telefone, mas em uma máquina de comunicação universal, e através de algoritmos sofisticados, fazer com que o telefone ficasse à disposição de qualquer um, para fazer o que quiser, sem precisar ser iniciado em tecnologia.
O avanço na telefonia móvel é complexo. Sinais de rádio, seja lá de que tipo for, precisam ser espalhados corretamente. Na TV analógica antiga, eram conhecidas as chamadas “zonas de sombra”, que eram áreas onde o sinal da TV não conseguia alcançar. Isso só foi melhorar com o advento da DTV, mas ainda deixa muito a desejar.
Na telefonia móvel moderna, as redes de transmissão são divididas em áreas de cobertura, chamadas de “células”, daí o nome de “telefone celular”. Mas, existem áreas onde o sinal não chega, e chega a ser irônico que o mesmo problema já existia quando aquele meu orientador comprou um telefone móvel na década de 1990.
Ainda assim, a melhora hoje é significativa, primeiro com a introdução do 4G LTE e depois com o 5G, tornando a recepção de dados móveis bem mais rápida.
O contraste e a assimilação de tecnologia pelo usuário
Notem o contraste absurdo entre o telefone e o computador. Neste último era preciso fazer um curso de programação para o seu pleno uso como uma máquina universal de tarefas, que era o que se queria. Isso só mudou quando foram criadas as “software houses”, que desenvolviam e vendiam programas, destinados a fins específicos.
Muita coisa mudou com o surgimento das interfaces gráficas, mas o grosso da assimilação desta tecnologia continuou a ser privilégio dos que a estudaram mais a fundo. Por incrível que pareça, no meu laboratório eu era obrigado a explicar para um aluno que fazia estágio de iniciação científica o que era “salvar” um arquivo.
Não foi o que aconteceu com o telefone. A sua evolução tecnológica foi de fazer inveja ao criador de Dick Tracy, personagem em quadrinhos que usava um relógio que ele podia usar como um rádio receptor, uma espécie de precursor de um telefone móvel.
O Smartphone incorporou uma câmera capaz de fazer fotos e vídeo de alta resolução, imagens macro sem adaptador, ou telefotos sem troca de lente, o que acabou provocando uma derrocada geral nas vendas dos fabricantes de câmeras convencionais.
Muitas câmeras sofisticadas foram simplesmente retiradas do mercado. Alguns modelos nem peças para conserto têm mais.
Para o consumo de massa, a câmera de um Smartphone ultrapassa fácil a formação do usuário leigo, que provavelmente nem sabe, e nem precisa saber, o que é um pixel, muito menos valores de resolução ótica em megapixels. As primeiras câmeras digitais tinham uma resolução de, no máximo, 2.5 megapixels. Ao comprar um telefone hoje, o consumidor se depara com valores de 50 megapixels ou acima!
Além disso, vários cartões de memória usados para fotos ficaram obsoletos. Um dos sobreviventes, o cartão micro SD, é usado nos telefones mais como expansor de memória do que para fotos.
Eu tenho guardado um dispositivo capaz de ler qualquer cartão de memória dos antigos. Anos atrás ele ficou sem uso! Quando se compra um notebook, ainda se acha um leitor de cartão SD, resta saber se alguém ainda usa.
Foi por causa da informática que módulos de memória acabaram por ter aplicações hoje em quase todos os dispositivos que usam algum tipo de microprocessador. No início se falava em kilobytes, e hoje em terabytes. Mas, só quem passou pelos primeiros computadores é que pode entender o tamanho desta evolução.
Os drives rotativos para microcomputadores perderam completamente o sentido, depois que drives sólidos apareceram no mercado, SSD ou M.2.
No início, houve desconfiança de que esses drives fossem confiáveis, e os fabricantes espertamente ofereceram programas de monitoramento on-line da qualidade do drive. O próprio sistema operacional faz o mesmo. Se o drive ameaçar dar problema, o usuário é avisado e tem a chance de copiar o conteúdo para outro drive. Se for usuário da nuvem, melhor ainda!
O jogo da imitação
Para mim, o maior avanço tecnológico que eu conheci foi o da informação e o da inteligência artificial, mesmo que esta última ainda tenha muito para evoluir.
No passado distante, os programadores construíram sistemas de gerenciamento através das linguagens dos bancos de dados, facilitando obter informações de interesse. Na década de 1990, o CD-ROM substituiu com vantagens vários tipos de bancos de dados. Com ele uma enciclopédia inteira ocupava apenas um disco. No meu campo de trabalho, eu precisava fazer pesquisa bibliográfica nos doze e enormes volumes do Index Medicus de cada ano, que compilavam todos os trabalhos publicados nesta área de pesquisa.
Com o CD-ROM, um único disco continha todos os dados de um ano inteiro, e com a possibilidade de pesquisar textos ou palavras rapidamente, ao invés de ter que folhear um daqueles volumes para achar qualquer coisa.
É possível que muita gente que usa a Internet não tenha se dado conta de que a rede se baseia em gigantescos bancos de dados, com a vantagem de poder serem compartilhados imediatamente!
A pesquisa bibliográfica é de fundamental importância para vários tipos de trabalho, como os artigos para escritores, jornalistas, estudantes e cientistas, por exemplo.
Com o aprimoramento dos sites contendo banco de dados, a ida para as bibliotecas físicas passou a ser dispensável ou evitável. As primeiras bibliotecas deste tipo eram de acesso restrito e os livros presos com correntes, para não serem levados para outro lugar. No século 20, a saída encontrada para levar algum texto para casa foi feita com o uso de fotocopiadoras, o que dava um enorme trabalho para o usuário, de achar a revista e depois copiar. Mas, não tinha outro jeito. Quem faz um trabalho extenso hoje, basta baixar uma cópia em arquivo pdf, e depois ler na tela ou imprimir para ler off-line.
Sinceramente, eu não posso e nem quero me estender neste assunto, porque ele é vasto demais para ficar contido em umas poucas páginas de qualquer manuscrito. O objetivo aqui é dar uma ideia de que muitos aperfeiçoamentos aparecem e depois desaparecem.
Por outro lado, se a tecnologia traz ao mundo o aumento da conveniência na facilitação das tarefas, previsto, aliás, por muitos visionários e artistas criadores, como escritores e cineastas, ela ainda não tem a capacidade de consertar a cultura ou o modo errado como muitas comunidades vivem. Não é à toa que muitos sistemas de governo querem controlar as redes e as mídias que permitem qualquer um expressar a sua opinião.
O resultado, infelizmente, está aí: as cidades continuam violentas, os políticos continuam oportunistas, enganadores e gananciosos, e fica cada vez mais difícil imaginar uma sociedade mais justa. [Webinsider]
. . .
Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.