Branca de Neve de 2025 não é nem de longe uma sombra do clássico de 1937. Walt Disney, eu aposto, teria ficado revoltado.
Eu tenho relutado em assistir versões não animadas dos desenhos dos estúdios Disney, filmes que tem aparecido sistematicamente nas telas, muito provavelmente na esperança de faturar mais algum nas bilheterias. Não creio, até agora, que estes filmes tenham sido feitos para prestar qualquer tipo de tributo aos seus criadores originais.
Entretanto, eu resolvi me arriscar com Branca de Neve, de 2025, supostamente baseado no clássico de 1937 Branca de Neve e os Sete Anões, o projeto mais ambicioso de Walt Disney, para a época que foi feito.
Bastou o filme começar, e me veio aquela sensação de que havia feito uma escolha errada. A primeira impressão foi péssima! Os realizadores haviam transformado a estória dos contos de fada em um musical de péssima qualidade. Além disso, mudaram o conteúdo da estória dos Irmãos Grimm para um abordagem política: a rainha havia se tornado ditadora do reinado, e o príncipe encantado em um líder dos rebeldes!
O problema maior, na minha visão, não foi mudar completamente a estória original, foi a de encarcera-la em um pastiche de cenas que todo mundo já viu antes, personificadas por um elenco que não convence ninguém. Gal Gadot, por exemplo, no papel da rainha, não consegue nem expressões faciais que convençam quem assiste de que ela é realmente má e invejosa.
A trama chega às raias do ridículo: na ausência do príncipe encantado, Branca de Neve se apaixona por um bandoleiro (Jonathan) que milagrosamente escapa da prisão nos porões do palácio, e no final ela é salva por ele do feitiço da rainha, ao beijá-la no famoso beijo do amor verdadeiro. A rainha, entretanto, não morre no abismo, perseguida pelos anões, como no desenho original, ela volta ao palácio e é destronada por Branca de Neve, agora travestida de revolucionária e protetora do povo, e depois tragada pelo espelho mágico.
Walt Disney, eu aposto, teria ficado revoltado!
Para se entender a importância de Branca de Neve feito em 1937 é preciso levar em conta as circunstâncias como o filme foi produzido. Walt não era exatamente um cineasta bem visto por parte da comunidade hollywoodiana. Quando o projeto começou, muitos duvidaram que ele chegasse ao fim. Seus críticos classificaram o projeto como “loucura”.
Mas, na realidade, o que Disney queria fazer era transpor barreiras no cinema de animação, saindo dos curtas e alcançando um longa metragem que qualquer um podia assistir, crianças ou adultos. E era isso, em última análise, o que motivou o projeto ser taxado como louco. Muitos argumentaram que as crianças não iriam ter paciência de assistir o desenho até o fim!
Walt, entretanto, visionário e obstinado como sempre foi, construiu um roteiro recheado de emoções e de sentimento, capaz de prender a atenção até o fim. Nele, o filme mostra a rainha como ela realmente era: extremamente narcisista, que se vale de um espelho mágico para confirmar a sua beleza sobre todas as outras. Trata-se de uma observação que mostra a alma feminina indagando sobre a superioridade da sua aparência, e, por que não dizer, da insegurança da mulher, quando ela não sabe se a sua beleza é suficiente para se sentir superior às das outras.
Outro aspecto da personalidade da rainha que chama a atenção é o seu espírito de vingança, que transparece quando ela recebe a notícia do espelho que ela foi superada em beleza por Branca de Neve. Como esta última não foi assassinada como ela queria, a rainha recorre a extremos, na obsessão de matar a sua algoz.
Walt se reunia com todos os que participavam dos seus projetos, para discutir a evolução das cenas. Uma ideia desses encontros que vingou foi a de dar uma personalidade diferente a cada um dos anões, que funciona muito bem na estética do filme.
No desenho de 1937, a catarse da plateia é conseguida quando a rainha cai em um precipício e morre. A cena é tão poderosa que, reparem, todos os vilões dos desenhos de Disney morrem em algum tipo de queda.
A ideia fundamental do filme foi a de dizer que o amor vence até a morte! Mas, que para que isso ocorra é preciso haver honestidade de sentimentos.
Walt Disney foi muitas vezes criticado por alterar estórias e manipular a plateia. Notem que no filme de 1937 os roteiristas tomaram cuidado para não mostrar explicitamente a morte da rainha, de modo a evitar chocar as plateias infantis.
Disney tinha preocupações técnicas com aquele projeto. Vários de seus animadores foram matriculados em escolas de arte, de modo a aperfeiçoar as suas habilidades naturais como desenhistas. Em entrevista filmada o icônico cartunista Chuck Jones, da Warner Brothers, disse que Disney “fazia Rolls-Royces e nós calhambeques da Ford”.
Walt Disney tinha obsessão por qualidade em seus projetos. Ele foi o primeiro a tentar o som estereofônico em Fantasia, e implantou neste projeto a ideia de fazer o som acompanhar as cenas, ideia esta que existe nas mixagens de filmes até hoje, principalmente quando a trilha sonora atinge a terceira dimensão, como nos filmes atuais. Em sua época, Disney investiu nas telas widescreen, usando o CinemaScope (A Dama e o Vagabundo) e o Super Technirama 70 mm (A Bela Adormecida). Se Disney estivesse vivo hoje e visto o progresso tecnológico atingido nos cinemas, certamente iria fazer bom uso dele.
Por outro lado, não há progresso tecnológico que alivie a falta de uma boa estória, de criatividade para escrever um bom roteiro e com atores competentes para encenar os projetos. Branca de Neve, de 2025, tem tudo o que a tecnologia moderna oferece, e no entanto, fracassa redondamente como filme, deixando cinéfilos e fãs da animação para lá de descontentes! [Webinsider]
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Walt Disney em Fantasia inaugurou o som estereofônico multicanal no cinema
Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.










2 respostas
Olá Paulo minha irmã foi assistir a essa “pseudo” Branca de neve, e só não levantou da poltrona e saiu da sala de cinema, por causa das crianças que estavam curiosas para ver essa “refilmagem”
O finado Walt Disney Disney, acredito que tenha se revirado no túmulo…
Aliás teria uma sugestão de matéria a respeito dos “remakes” que não deram certo.
Mas como dizem, nada se cria “tudo se copia” mas, para pior.
E é assim que a banda toca.
Um abraço
É, Rogério,
Infelizmente, essa insistência em fazer filmes tentando arrecadar mais quase sempre acaba em desastres, mas neste caso é um absurdo o que fizeram, pois se trata de um clássico que merece respeito!
Abraço e obrigado pelo seu comewntário.