O lançamento de discos Blu-Ray 4K aumentou bastante nos últimos meses, trazendo títulos de catálogo restaurados. Entretanto, o comércio de mídia no Brasil caiu muito, em favor dos serviços de streaming, que não têm a mesma qualidade.
Eu venho acompanhando o mercado de home video há muitos anos, aqui e na América, ocasionalmente na Inglaterra, mas ultimamente nem tanto, inclusive porque o meu interesse por lançamentos de filmes clássicos vem diminuindo cada vez mais com a idade, ou seja, o meu nível de compras caiu muito por motivos justos, incluindo as tributações e atribulações alfandegárias, que punem todo mundo.
Não só isso, mas infelizmente o colecionador que se preza não tem mais contrapartida no mercado de vídeo brasileiro, outrora um dos mais importantes da América Latina, em termos de venda. Isso se reflete na ausência de fabricação de discos 4K.
O recuo começou com esta lamentável omissão de lançamentos em 4K no Brasil, formato que permite o aperfeiçoamento da imagem com tratamento HDR, mas se faz nos lançamentos em geral. Com 4K, os trabalhos de restauração encontraram a melhor mídia possível para a exibição dos resultados deste tipo de trabalho. No lançamento, por exemplo, do clássico da MGM Alta Sociedade, o resultado da restauração no disco 4K ficou bastante evidente, som e imagem!
Em alguns casos, o intermediário digital (DI) é tão bom que os estúdios optam por um tratamento conservador e econômico, com upscaling (aumento de resolução) de 2 para 4K. Quando acompanhado por HDR 10 ou Dolby Vision a imagem costuma ser satisfatória. Me arrisco a dizer que, dependendo de quem assiste, a diferença entre 2K e 4K pode passar imperceptível. Um dos bons exemplos de upscaling que eu conheço é a versão 4K do filme Van Helsing, de 2004, disco dotado de uma trilha sonora que impressiona, em DTS:X, codec que nenhum serviço de streaming oferece!
Aceitação do mercado
Durante muito tempo, a mídia jornalística decretou a falência do mercado de vídeo. Bem, se fosse esse o caso, porque então o número de lançamentos de Blu-Ray 4K aumentou tanto nos últimos meses?
As últimas estatísticas afirmam que em 2024 houve um aumento de cerca de 10% em vendas de edições 4K. Sejam esses dados confiáveis ou não, o fato é que eu tenho visto um número enorme de relançamentos de filmes outrora populares. O preço praticado não é convidativo, então seria possível presumir uma relação afetiva do cinéfilo com certos lançamentos ou, quem sabe, uma insatisfação de quem assiste filmes com os serviços de streaming, que não são tecnicamente capazes de ter a mesma qualidade de imagem quando transmitindo em 4K.
Quem assina o Netflix, por exemplo, tipo do streaming muito caro, deve ter percebido que o serviço relançou filmes antigos, o que sugere que o público em geral se cansou de assistir as atuais produções, que são repletas de violência gratuita e roteiros vazios.
Uma coisa que puxa a outra
É inevitável que quando alguém larga uma nota preta na loja ou no site comprando uma TV Smart moderna vai querer usá-la com a melhor imagem possível. Já há muito tempo, os fabricantes de TV inseriram botões sugestivos no controle remoto para que o usuário possa ir direto aos serviços de streaming, uma nova espécie de venda casada. Este tipo de parceria não me parece estar lá à toa. Se o comprador da TV resolver assinar, ele vai encontrar o aplicativo incluído no aparelho que comprou, com acesso direto pelo remoto, adaptado no firmware da TV, para reproduzir a programação com a melhor qualidade de imagem possível.
O que a maioria não acha na TV moderna
As TVs são equipadas com 3 ou 4 entradas HDMI, o que permita a conexão de aparelhos de alta resolução para a reprodução de vários tipo de mídia, entre elas o Blu-Ray 2K e 4K. O “inconveniente” é entupir as estantes de casa com discos, o que muita gente acha uma coisa “arcaica” ou indesejável. Em épocas remotas, existiam vídeo locadoras, o que facilitava o não empilhamento de discos em casa,
Se não for o caso de se evitar coleções de disco, o resultado é quase sempre acima do esperado. Uma TV moderna tem recursos para configurar a qualidade da imagem, em muitos aparelhos usando inteligência artificial, quando então o usuário final é dispensado que entender como configurar a tela para achar a imagem ideal.
Assim, lucra que usa uma entrada HDMI para conectar um reprodutor de mídia de alta definição. Se no Brasil, a visão de mercado voltasse ao que era antes, seria talvez possível que muita gente conhecesse melhor e adotasse este método de assistir cinema.
Para o colecionador, o maior trauma foi o desaparecimento das lojas físicas, que trabalhavam com livros e discos. Eu perdi uma delas, que ficava no shopping do bairro. Infelizmente, é um fenômeno recorrente e mundial. Recentemente, um conhecido meu me relata o desaparecimento de uma enorme loja da Dinamarca. Eu mesmo, quando morando na Europa estava sempre em lojas como HMV e Virgin, todas elas fecharam as portas.
A solução é a compra on-line. Mas, é preciso atenção para pesquisar os lançamentos de interesse, o que dá trabalho. Quando compensa, a qualidade de reprodução dos discos supera tudo! [Webinsider]
. . .
O fenômeno do desaparecimento das lojas de discos e gravadoras
Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.









