Oliver!, filme apresentado em glorioso 70 mm na década de 1960, recebe agora uma edição em 4K, com som Dolby Atmos e imagem tratada com HDR.
Quando Oliver! foi lançado no Cinema Vitória, com magnífica projeção em 70 mm, eu estava lá para conferir. O assunto já foi tratado antes e publicado aqui e no site in70mm, onde sou um colaborador eventual.
Mas agora o filme restaurado e com intermediário digital em 4K está saindo em Blu-Ray 4K, com áudio remasterizado em Dolby Atmos e a imagem tratada com Dolby Vision/HDR10, a partir dos negativos de câmera. Mais do que merecido. Com o novo lançamento, eu estou aposentando o meu antigo Blu-Ray da Twilight Time, que foi uma boa edição para a época, em todos os sentidos.
Na versão em VHS, da década de 1990, se não me engano, o som apresentava problemas crônicos de distorção nos vocais dos números musicais, o que só foi corrigido como devia em Blu-Ray, com trilha em DTS HD MA de 5.1 canais. A distorção da fita de vídeo estava escancarada no vocal da atriz Shanni Wallis, quando cantava As Long As He Needs Me.
Oliver! é um filme típico da época, filmado em Panavision 35 mm e ampliado para a bitola de 70 mm, com remixagem para os tradicionais 5 canais na tela. A projeção em 70 mm per se já foi um tremendo aperfeiçoamento na sua apresentação. A primeira versão em Blu-Ray já reflete isso, inclusive mantendo diálogos direcionais.
O resumo do filme e do roteiro
Quando Oliver! saiu nos cinemas, próximo do final da década de 1960, os filmes musicais já não estavam mais em moda há muitos anos, mas ainda assim o cinema Vitória estava lotado. O sucesso do filme não aconteceu por acaso, e ele foi recipiente de 6 Oscars, na premiação de 1969. Não se trata de um filme feito para crianças, embora o público mais jovem possa assimilar algo de útil com ele.
O roteiro da peça de teatro construída por Lionel Bart foi baseada no romance de Charles Dickens Oliver Twist e foi adaptado para o cinema em uma mega produção anglo-americana. Onna White (coreógrafa) e Johnny Green (maestro e arranjador) eram egressos dos musicais de Hollywood, mas neste caso a direção coube ao icônico Carol Reed, sem dúvida um dos maiores diretores ingleses do cinema.
A estória original fala de um órfão que sobreviveu ao parto onde morreu sua mãe, que fugiu de casa. Eventualmente ele seria entregue a um orfanato, uma espécie de reformatório para órfãos e crianças pobres, onde ele trabalhou como escravo para trabalhos forçados e alimentado com comida de baixa qualidade nutricional. Ao infringir a disciplina rígida do orfanato, ele é vendido para uma casa funerária, de onde depois ele foge e vai tentar a sorte em Londres.
Chegando lá, e sem saber ainda como sobreviver, ele conhece um garoto de rua (Artful Dodger), que o leva para um pseudo abrigo de crianças de rua na favela, onde “mora” Fagin, um judeu que ensina as crianças de lá a bater carteira de transeuntes. Fagin também negocia com o ladrão de residências Bill Sikes, e guardando o roubo para lhe “proteger” na velhice, segundo ele mesmo diz.
O filme não retrata explicitamente Fagin como um judeu, mas a trilha musical o denuncia pelo estilo de música associado ao personagem. O excelente ator Ron Moody interpreta Fagin com sutileza, mas deixa claro a sua avareza com os roubos e com a exploração de crianças para o crime. Esta ligação dos judeus com o dinheiro é secular e conhecida. O romance poderia ser hoje visto como antissemita, ou politicamente incorreto. A visão do autor, entretanto, é claramente uma crítica dos costumes e preconceitos da época. Basta lembrar que o sentimento de preconceito contra judeus existiu na Europa, principalmente no lado oriental, por muitos anos.
A obra de Dickens, entretanto, mostra principalmente a exploração de menores no trabalho forçado, em uma Londres da época conservadora da Rainha Vitória. O romance não poupa ninguém. E em um certo momento do filme Oliver Twist canta perguntando onde está o amor, em uma cena pungente, amor que ele nunca conheceu ou foi atraído por.
Este tipo de estória está aberta a interpretações pessoais. Acho que é bastante provável que Dickens tenha centralizado o seu discurso na vulnerabilidade infantil, podendo atingir uma criança indefesa desde cedo. Ao final, a estória se encerra na parte moralista que prova que o carinho pode e deve tomar parte da vida de uma criança órfã.
Oliver! é um filme da época, que merece, eu diria até que deve, fazer parte da coleção de qualquer cinéfilo. No meu caso em particular, também pela lembrança dos momentos memoráveis das projeções em 70 mm, em uma sala de exibição apropriada, guardada na memória como um espetáculo para o qual o cinema foi montado. Oliver! tem abertura, intervalo e música de saída, e estes momentos estão preservados desde a primeira edição em Blu-Ray.
Na versão em 4K, duas coisas me surpreenderam: a primeira, que a reprodução começa com HDR10, mas depois muda para Dolby Vision, e eu não acredito ter sido falha na autoração. O segundo aspecto foi o do áudio com Dolby Atmos: o som é baixo, com uma ênfase exagerada em baixa frequência, que não existe na trilha original. Além disso, a tridimensionalidade é discreta, servindo na maior parte, para os efeitos sonoplásticos. Na minha opinião como fã de restaurações, o resultado poderia ter sido bem melhor. A imagem, entretanto, é de excelente qualidade, portanto valeu a pena colecionar o disco. [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.









