Coraline, remasterizado para 4K, com Dolby Vision e Atmos

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on telegram
Share on pocket

Coraline, baseado na obra de Neil Gaiman, e feito em animação stop-motion de altíssima qualidade, ganha versão em 4K Dolby Vision e Dolby Atmos.

 

Coraline, ao invés de Caroline, foi o nome dado pelo escritor inglês Neil Gaiman ao personagem que ele criou no livro do mesmo nome, e que serviu de base para o roteiro do cineasta/animador Henry Selick, que se aproveitou também do nome da personagem para o título do seu filme sobre o personagem do livro homônimo “Coraline”. Ambos trabalharam na adaptação da estória para a tela, tendo Selick contribuído com a criação do personagem Wyborne (Wybie).

Segundo o histórico da obra, Gaiman escreveu o livro para a filha, com tons de horror e suspense, que ele alegou que ela gostava. Mas, a estória em si enfoca primariamente a vida de uma menina adolescente de 11 anos, entediada com o isolamento ao se mudar para o apartamento de uma casa velha, e sem receber dos pais qualquer tipo de atenção. Eventualmente, a menina descobre uma porta para um mundo paralelo, onde ela acha uma segunda mãe e um segundo pai, com personalidades completamente opostas aos pais verdadeiros.

A mãe e o pai número dois cercam Coraline de atenção e de mimos. A comida oferecida pela mãe-2 é rica em pratos que ela gosta, com nutrientes e sabores, ao invés do grude que o pai dela oferece. Só pela comida, Coraline irá se sentir atraída pelos novos pais, e é exatamente isso que eles querem! Esses “novos” pais vivem em um mundo onde tudo é colorido e agradável de se ver.

Mas, as aparências enganam fácil. Debaixo daquele suposto paraíso tudo é cinza, as cores desaparecem, o ambiente é obscuro e sinistro. No final, os pais alternativos, que pareciam ser ideais, o que eles querem mesmo é tornar Coraline prisioneira naquele mundo.

Os pais fictícios não tem olhos. No lugar deles, eles têm botões, e só enxergam uma única realidade, a deles, ao invés de muitas, e querem que Coraline também troque os olhos por botões, para não enxergar qualquer outro tipo de perspectiva de vida.

O filme, o desenvolvimento da estória e as edições em alta resolução

Coraline foi fotografado e animado usando o método “Stop Motion”, no qual os personagens são bonecos movimentados manualmente e fotografados individualmente, tendo como resultado a ilusão do movimento. O processo é extremante trabalhoso e complexo, basta dizer que o filme roda a 24 quadros por segundo, quer dizer, são necessários 24 imagens instantâneas para se obter 1 segundo de projeção animada.

A tecnologia do stop motion é muito antiga, e foi usada por artesões do cinema, que ganharam fama com ela. O trabalho feito pela Laika Studios mostra claramente a evolução deste processo, com efeitos, expressões corporais e movimentos quase 100% perfeitos.

Coraline foi projetado para o cinema 3D. A cópia em 3D pode ser vista na primeira edição em Blu-Ray da Universal. Nesta edição, é possível também assistir a versão convencional em 2D, motivo pelo qual eu tenho este disco guardado até hoje. O 3D morreu de morte morrida, e assim parte do projeto original ficou restrito aos cinemas.

No ano passado, foi comemorado o aniversário de lançamento do filme:

Na primeira passagem para vídeo foi feito um intermediário digital com 2K de resolução, usado no disco da Universal. Na edição em 4K, a Shout! Factory remasterizou o original para um intermediário de 4K, obtendo assim o máximo de qualidade de imagem possível. Além disso, a imagem foi tratada com Dolby Vision, realçando tons de cores, que já eram ótimos no original.

Da mesma forma, o som da trilha, em DTS HD MA 5.1 na primeira edição em Blu-Ray, foi remasterizado com Dolby Atmos, aproveitando os recursos em som 3D do ambiente, e dando uma nova dimensão ao filme;

Todo este esforço na edição em 4K compensou pela qualidade obtida: imagens com cores vibrantes e som envolvente, ou seja, o que já era bom na edição 2K anterior ficou ainda melhor!

O contexto da obra original dentro do filme

Coraline é uma estória cheia de simbolismos, que ficam ao alcance de quem assiste. A estória dos botões no lugar dos olhos não fica muito clara à princípio, mas o que parece óbvio é que o autor se refere à cegueira de visão educacional daqueles que têm por hábito manipular e controlar de forma abusiva os seus interlocutores sem se sentirem culpados. É como se fosse obrigatório ver o mundo de uma única maneira e impingir aquela maneira de ver as coisas a terceiros. Sendo assim, a mãe 2, quando contrariada, revela aquilo que ela realmente é, tentando controlar a obstinação de Coraline pela busca da verdade e pela negação da realidade do que ela Caroline de fato está vendo. A mãe 2 é rotulada pelo autor como “Beldam”, que significa uma mulher velha, feia e maliciosa, uma bruxa que só revela a Coraline no final.

A psicologia infantil é um assunto fascinante, que se revela útil na medicina e na educação dos mais jovens. Por acaso, eu tive uma colega professora na década de 1980, que era uma excelente psiquiatra, e que me ensinou muita coisa a respeito de estresse, no lado emocional. Ao analisar certos casos de distúrbio infantil, ela dizia brincando que “a culpa é sempre da mãe”, e mostrava por que. Uma vez ela citou um caso de uma criança que veio ao Instituto de Puericultura da universidade para tratamento, com a mãe alegando que ela não queria comer. Convocada para analisar o caso a minha experiente colega descobriu que a mãe negava comida àquela criança.

Mulheres dominadoras exercem as suas forças em cima das vontades alheias. Em Coraline, a mãe 2 subjuga inclusive o pai 2, deixando pouco espaço e liberdade para ele.

Na minha avaliação da estória e do filme, um dos fundamentos da crítica sobre a mãe 2 se refere ao sentimento de posse: quando uma pessoa não só tenta controlar, mas restringe a liberdade de escolha de quem ela controla. Na estória, a mãe 2 quer manter Coraline prisioneira em um lugar de onde não poderá mais sair, tal como fez com outras crianças.

Na vida real, os pais tendem a controlar seus filhos e impondo-lhes limites, e isso, em princípio, não tem nada errado, mas desde que seja para a educação deles. O erro que muitos pais cometem está no controle exagerado do comportamento dos filhos, impedindo-os de viverem as suas experiências de vida, certas ou erradas! Para ganhar vivência é essencial e importante que os filhos tenham liberdade de escolha, certas ou erradas!

Notem que o erro faz parte do aprendizado, e é rotina na vida do adolescente vivenciar erros e acertos. Cabe aos pais ensinar seus filhos a tirar lições dos erros cometidos. Coraline é uma adolescente com uma notória carência de novas experiências, devido à solidão e principalmente à falta de envolvimento dos pais no seu processo de crescimento. Toda vez que ela tenta se aproximar dos pais, eles pedem para ela se afastar, argumentando que eles não podem parar de trabalhar.

Porém, se Coraline aceitasse que os outros pais lhe costurassem os olhos, ela perderia a liberdade que tinha e ficaria prisioneira das vontades da mãe 2. Seria o mesmo que abdicar da sua adolescência, da sua individualidade e do seu direito de acertar e errar.

Coraline é um filme que aborda um assunto complexo, o da educação dos filhos. Como tal, ele tanto pode agradar pela animação sofisticada e pelo desenvolvimento da estória, como propiciar àqueles que estudam o assunto uma oportunidade na apreciação dos pontos de vista do autor do livro e do cineasta. Eu creio que a apreciação desses últimos pode não estar ao alcance de quem assiste o filme pela primeira vez. Por outro lado, a obra está aberta a interpretações pessoais, o que torna Coraline diferente da maioria dos filmes de animação. [Webinsider]

 

. . .

 

Os 10 Mandamentos, um épico bíblico de 1956, agora em 4K

Avatar de Paulo Roberto Elias

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on telegram
Share on pocket

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *