Colecionar música em discos e procurá-los nas lojas foi uma das minhas paixões. Ao longo do tempo, os discos variaram em formatos cada vez mais avançados.
Quando as gravações de música começaram, o objetivo sempre foi o de vender um produto que pudesse ser usado em casa. Inicialmente, a música gravada em cilindros (Thomas Edison) e em discos (Emile Berliner) competiram por este mercado. O formato em disco acabou prevalecendo, porque ele se mostrou muito mais fácil de duplicar.
A linha do tempo para materiais gravados vem de aproximadamente 1805, em tentativas sucessivas. Berliner, entretanto, só apareceu com a invenção do disco, com um tamanho de 7 polegadas, rodando a 78 rpm (rotações por minuto), em 1897.
As datas aproximadas de lançamento dos formatos dos discos são:
| Formato do disco (polegadas) | Ano |
| 7”, 78 rpm (Berliner) | 1897 |
| 10 “, 78 rpm (Berliner) | 1901 |
| 12”, 78 rpm (RCA) | 1903 |
| Disco Stereo 45/45 (Alan Blumlein) | 1931 |
| 7”, 10”, 12”, 33 1/3 rpm (Columbia) | 1948 |
| 12”, Long Playing, 33 1/3 rpm (Columbia) | 1948 |
| 7”, 45 rpm (RCA) | 1949 |
| 12”, LP Stereo (Audio Fidelity) | 1958 |
| 12”, LP com master digital (Columbia, Japão) | 1971 |
| 12”, LP Quadrafônico SQ (Columbia) | 1971 |
| 12”, LP de corte direto (Sheffield Lab) | 1972 |
| 4.7”, Compact Disc (Philips/Sony) | 1982 |
| 4.7”, HDCD (Pacific Microsonics) | 1995 |
| 4.7”, DTS-CD | 1997 |
| DVD-Audio (Philips/Sony/Toshiba/Panasonic) | 1998 |
| SACD (Sony/Philips) | 1999 |
A tabela acima é muito resumida. Mas, alguns detalhes merecem destaque:
Peter Carl Goldmark, trabalhando para a Columbia (CBS), foi quem criou o elepê (“Long Playing”), o disco de vinil e o microssulco, este último com um avanço no disco rotulado como de “alta fidelidade”. Discos com este tipo de som também foram feitos com 78 rpm de 10 polegadas (aprox. 25 cm), mas o ruído desses discos continuava muito alto, exigindo um filtro adequado.
Alan Blumlein trabalhou com som binaural e com som estereofônico, cunhando o termo “stereophonic sound” deste último. Sua contribuição para os métodos de posicionamento de microfones também foi importante, desenvolvendo métodos minimalistas, usados por muitas gravadoras posteriormente. Mais importante ainda: Blumlein estabeleceu o corte do sulco em duas trilhas de 45 graus em relação à superfície do disco, com os canais esquerdo e direito separados, que depois permaneceu e se estabeleceu como padrão da indústria fonográfica:
As primeiras gravações em disco não usavam fita magnética, o som capturado ia direto ao torno de corte da matriz. Este processo foi ressuscitado por Doug Sax e Lincoln Mayorga, quando lançaram em 1972 o disco “The Missing Linc”, título com uma clara alusão à ausência de fita magnética. O método foi por eles chamado de “direct-to-disc” e por alguns de “direct cut”, ou de corte direto.
Na década de 1970 os discos de corte direto fizeram sucesso entre os audiófilos. Assim, outras gravadoras começaram a fazer o mesmo, entre elas a Crystal Clear. Um dos seus discos mais conhecidos entre nós foi o gravado por Laurindo Almeida, com o sugestivo título de “Virtuoso Guitar”. O disco foi cortado em 45 rpm, porque se julgava que soava melhor, e a prensagem foi dividida em discos com massa branca, conhecidos por isso como o “white album”, e com massa preta convencional. Abaixo se pode ouvir a faixa 3 do Lado 1, “Late Last Night”, composta pelo próprio Laurindo:
A Columbia desistiu de fabricar discos de 7 polegadas em 33 1/3 rpm, porque a RCA usou este formato em 45 rpm, com um som muito superior. A popularidade desses discos da RCA pode ser atribuída à portabilidade, tanto dos discos quando dos seus toca-discos. No entanto, discos de 7 polegadas em 33 1/3 rpm voltaram a ser fabricados anos mais tarde, tentando atingir o mesmo mercado, e foram chamados de “compactos”. Mas, compacto mesmo foi o CD, não só no nome, mas na evolução do seu conteúdo, impossível de ser duplicado no antigo “compacto”.
O HDCD (High Definition Compatible Digital), criado pela Pacific Microsonics, é um CD com codificação de 20 bits embutida no bitstream dos 16 bits da mídia, padrão que não pode ser modificado. O objetivo era de aumentar a resolução e a dinâmica do áudio. Para sua reprodução como HDCD é preciso usar um reprodutor que possa identificar a sua codificação e decodifica-la, caso contrário o disco vai ser reproduzido como um CD normal. Em 2000 a Microsoft comprou os direitos do HDCD e modificou o Windows Media Player para reproduzi-lo, mas em 2005 o suporte para o HDCD foi encerrado.
O CD com DTS seguiu os mesmos parâmetros do CD feito para o cinema, mas formatado para uma reprodução específica de música, só dependente de um equipamento reprodutor (decodificador) adequado dentro de casa. Se tal equipamento não for usado, o DTS tocará apenas como ruído.
Uma experiência pessoal como ouvinte e depois como audiófilo
Segundo relatos da minha mãe, eu comecei a prestar atenção em música ouvindo um disco com apenas uns nove meses. E à medida que eu ia crescendo, quando a minha mãe precisava sair e me deixar com a babá (pois é, eu tive uma) ela separava uma pilha de discos de 78 rpm e me dava acesso ao toca-discos da vitrola Zenith improvisada da época. Depois, a babá relatava a ela que eu tinha passado a tarde toda ouvindo música!
Eu tenho certeza de que a música é uma linguagem que não precisa de um tradutor, a gente já nasce com uma sensibilidade que nos permite estabelecer uma relação harmônica (sem trocadilho) com o som ouvido. Tais sons atraem ou repelem, depende do espírito auditivo de cada um.
Antes do meu pai comprar uma vitrola de alta fidelidade, todos os discos lá de casa eram os de 78 rpm, com uma música de cada lado. Discos 78 rpm de 12 polegadas, que continham mais música, eram raros. Houve uma melhora no som dos discos 78 rpm, quando a gravação passou a ser “elétrica”, ao invés de “acústica”, saindo do primitivo para o “moderno”. Anos depois, apareceram os 78 rpm de “alta fidelidade”.
Quando eu ia para o colégio, uma loja de discos, a Casa Irani, ficava no caminho, e eles tocavam os discos 78 rpm do momento, por meio de uma caixa acústica enorme, na porta da loja. Mas, foi nos programas de rádio que a indústria fonográfica garantia as vendas. Curiosamente, eu soube, anos mais tarde, que os discos de “sucesso” das emissoras eram na realidade pagos pelas gravadores para serem taxados como tal. Diga-se de passagem, os americanos faziam o mesmo, lá com a alcunha de “payola”.
O hábito de frequentar lojas de disco para mim sempre foi sacralizante, aquela mania de olhar capa por capa dos elepês, até achar um de interesse, Muitas lojas ofereciam cabines para que se pudesse ouvir aqueles discos, e eu fiz isso centenas de vezes,
Para que tinha mais grana, algumas lojas vendiam discos importados, a maioria de melhor qualidade. No centro do Rio de Janeiro existiu uma loja icônica chamada de “Lojas Palermo”, que também vendia equipamentos de áudio. Na minha fase de adulto eu frequentei a Modern Sound e depois a Gramophone, a primeira loja localizada no Shopping da Gávea, espécie de “point” para audiófilos. Quando a Gramophone abriu uma filial na Rua Sete de Setembro, centro da cidade, ali se aglomeravam audiófilos que trabalhavam por perto, e lá eu fiz algumas amizades por causa de interesses comuns, e que perduraram anos a fio.
Morando em Cardiff, eu aproveitava a hora do almoço e ia ao centro da cidade, que ficava perto da universidade. Lá eu via tudo de bom, em lojas como HMV e Virgin, com títulos que eu teria dificuldade de achar por aqui. Não só isso, mas as lojas aceitavam encomendas, isso em uma época em que não existiam vendas on-line como nós temos hoje.
Por volta do fim da década de 1990 eu comecei a me desfazer da maioria dos meus elepês. Os últimos deles, que eu achava mais importantes, eu restaurei e digitalizei, e depois os doei a um grande amigo.
Nesta comunidade local de audiófilos que conheci ou fui apresentado, eu encontrei gente com grande entusiasmo, mas nem sempre por áudio digital. Um deles, pessoa abastada, nos dizia que tinha colecionado treze mil elepês de Jazz, e eu nunca duvidei disso, porque o seu conhecimento sobre o assunto era vasto.
O áudio é uma experiência muito pessoal e às vezes é complicado conhecer alguém que goste do mesmo tipo de música ou se envolve com equipamentos para ouvir música. Eu sempre tive por hábito (herdei isso do meu pai) evitar discutir gostos ou preferências, cada um ouve o que quer e como quiser. Ao sair dos elepês, só ouvia um deles na casa dos amigos que ainda guardavam as suas coleções.
Pessoalmente, eu me livrei daquela obsessão em procurar o tal “som absoluto”, atrás de cápsulas, agulhas e pré-amplificadores de fono. Depois do advento HDMI o caminho do áudio passou a ir direto (sem trocadilho com os elepês do tipo) para um bom decodificador e os respectivos amplificadores, obtendo assim um som com uma qualidade que eu nunca tive antes. E não é exatamente este o objetivo de qualquer audiófilo? Ser amante da música é um bônus que já nasce com a gente! [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.











