Gerry Mulligan (1927-1996) não foi somente um músico de Jazz que tocava sax barítono, ele também era compositor e arranjador. Mas, durante anos ele ficou conhecido como um dos pais do chamado Cool Jazz. No igualmente icônico disco Birth Of The Cool, de 1957, gravado por Miles Davis para a Capitol, Mulligan e Gil Evans participam como arranjadores.
Mulligan já havia se destacado no Bebop, criado por Charlie Parker e Dizzy Gillespie, incentivado pelo primeiro. O Cool Jazz foi um movimento musical em radical oposição à agitação do Bebop. A música passou a ser mais lenta, mais cerebral, mais concatenada. A palavra “Cool” pode ter vários significados, como “legal” (gíria), “calmo”, “relaxado”, etc. Musicalmente, ele tem todas essas qualidades, mas o então novo estilo é inventivo e criativo, como, aliás, seria de se esperar de todos os que participaram da sua criação.
Mulligan, como arranjador, já havia mostrado suas virtudes. Uma das suas gravações como arranjador, que fizeram parte de minha adolescência inclusive, foi a do álbum com Gene Krupa para a Verve, de 1958, com o título “Gene Krupa Plays Gerry Mulligan Arrangements”. Este disco foi remasterizado em 2005, pela Verve. Destaco a seguir Disc Jockey Jump, a minha faixa favorita:
Em 1960, Gerry Mulligan criou a Concert Jazz Band, e gravou um disco com ela, usando a banda como título. O disco surge com a ideia da formação de uma banda de Jazz sem piano. Para tal, ele conta com a colaboração do trombonista Bob Brookmeyer. Eu tive este disco em mono, e levei anos para conseguir uma cópia remasterizada. Por sorte, a Mosaic Records lançou uma caixa com todas as sessões da Concert Band para a Verve, 4 CDs no total, e eu mandei trazer este lançamento, que veio com uma excelente transcrição estereofônica do disco de 1960.
A produção de Gerry Mulligan é muito extensa, ele tendo participado como músico e compositor, dos vários movimentos do Jazz contemporâneo. Por isso mesmo, a sua discografia é igualmente extensa.
Gerry Mulligan e Tom Jobim
Segundo relato de Roberto Menescal, quando os músicos da Bossa Nova chegaram em Nova York em 1962, no aeroporto estava lá um grupo de músicos de Jazz especialmente para recebê-los. Mulligan também estava lá e “raptou” Tom Jobim imediatamente. Um dos vídeos com os dois tocando Samba de Uma Nota Só, fruto de uma reportagem, já foi compartilhado aqui. No site Jobim.org aparece uma foto, com os dois em um jantar, na companhia do saxofonista Cannonbal Adderley e da atriz Judy Holliday.
Gerry e Tom fizeram amizade e tudo faz crer que tenha sido debaixo de um respeito mútuo pela qualidade musical de ambos. Mulligan esteve por aqui em 1994, e deu uma entrevista para a Folha de São Paulo, elogiando os predicados do amigo.
Gerry Mulligan compôs “Theme For Tom”, para homenageá-lo musicalmente. A primeira versão que ouvi desta música foi a gravada com o pianista Dave Brubeck, parte do álbum Summit Sessions:
Em 1993, Gerry Mulligan gravou Paraíso para Telarc, com a presença da cantora Jane Duboc, que fez a letra para o Tema Para Jobim:
Diga-se de passagem, a letra faz uma alusão à obra do Tom, afinal ele foi, sem dúvida alguma, um dos maiores expoentes do movimento bossanovista!
É uma pena que artistas como Tom e Mulligan desaparecem, quando ainda poderiam criar muito mais, mas pelo menos a obra de ambos está gravada e disponível para todos aqueles com sensibilidade para ouvi-las. [Webinsider]
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A influência da Bossa Nova na música popular romântica norte-americana
Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.









