Em essência, toda empresa só existe quando três elementos se encontram. Quando um desses pilares falta, o tripé desaba.
Nos últimos anos, tenho visto muitos empreendedores começarem do meio para o fim. Apaixonam-se pela ideia, pela tecnologia ou pelo produto — e só depois se perguntam se alguém realmente precisa daquilo.
Outros começam com um problema legítimo, mas não sabem como resolvê-lo de forma consistente. E há ainda os que têm uma boa solução, mas nenhum modelo de negócio capaz de sustentar o que criaram.
Em essência, toda empresa só existe quando três elementos se encontram:
1. Existe um problema real a ser resolvido?
É o ponto de partida de tudo. Sem problema, não há propósito. Uma empresa é, antes de mais nada, uma resposta organizada a uma dor. Às vezes, o problema é evidente — como a dificuldade de transporte antes dos apps de mobilidade. Outras vezes, ele é latente — algo que as pessoas ainda não percebem, mas que, quando resolvido, se torna indispensável.
O erro mais comum aqui é a inversão de lógica: começar pela solução. Quando isso acontece, criam-se produtos sofisticados que ninguém pediu. Startups de tecnologia fazem isso o tempo todo — constroem antes de validar. Mas o mesmo vale para qualquer negócio, de uma padaria a uma fintech.
A pergunta que deve guiar esse ponto é: esse problema é relevante o suficiente para que alguém pague para resolvê-lo?
2. Eu realmente sei como solucionar esse problema?
Identificar um problema é fácil; resolver bem é o que diferencia quem tem uma ideia de quem tem uma empresa. Soluções precisam ser viáveis, replicáveis e entregar valor de forma constante. Não basta “ter uma boa intenção” — é preciso método, produto e operação.
É aqui que entra a execução. E a execução, como sabemos, é onde quase tudo se perde. Não existe negócio sustentável sem consistência, e consistência vem de entender o que se entrega, para quem, e como fazer isso melhor a cada ciclo.
Ideias geniais não faltam. O que falta, quase sempre, é capacidade de transformar ideia em processo, processo em produto e produto em valor percebido.
3. Isso pode se tornar um negócio rentável?
Resolver um problema é importante. Mas, se isso não gera sustentabilidade, o negócio morre. Nem toda boa solução é um bom negócio. Há projetos incríveis que não se sustentam porque o custo de entregar valor é maior que o que se captura.
É aqui que entram a estratégia, o preço e o posicionamento. Rentabilidade não é apenas lucro: é a garantia de que o problema continuará sendo resolvido amanhã. Um modelo de negócio bem construído equilibra desejo e viabilidade — entende o que o mercado está disposto a pagar e como entregar isso de forma escalável.
O teste final é simples: quanto mais eu cresço, mais saudável o negócio fica? Se a resposta for não, talvez você tenha uma boa iniciativa — mas ainda não uma empresa.
Negócios sólidos nascem do equilíbrio entre esses três elementos. Eles não dependem de genialidade, mas de método, escuta e humildade — para validar hipóteses, corrigir rumos e aprender com o cliente.
Empreender, no fundo, é isso: construir pontes entre problema, solução e propósito. E essas pontes não se sustentam com entusiasmo apenas — precisam de estrutura.
Além disso, é preciso entender que botar esse tripé de pé leva tempo. Muitas vezes é um processo de tentativa e erro — ou, para falar bonito, de iteração. O fato é que esse ciclo pode levar muito mais tempo do que se imagina, e para atravessá-lo é preciso ter fôlego financeiro.
Mesmo na fase estrutural, antes de faturar, você ainda precisa pagar suas contas. Muita gente embarca no empreendedorismo com otimismo e pouca reserva — e se vê, após um tempo, sem condições de continuar a se dedicar ao negócio. A empresa morre antes de nascer.
Portanto, ao decidir empreender, é fundamental pensar não só no que você vai fazer, mas em como vai se sustentar enquanto faz. Toda empresa dá certo um dia — nem que seja por tentativa e erro. Mas, na maioria das vezes, o dinheiro acaba antes dela dar certo. [Webinsider]
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Michel Lent Schwartzman
Michel Lent Schwartzman (michel@lent.com.br) é um empreendedor serial e especialista em marcas e negócios digitais, com sólida experiência em acompanhar carreiras e aconselhar empresas. Pioneiro na indústria digital, é formado em Desenho Industrial pela PUC-Rio e mestre pela New York University. Ao longo de quase 30 anos, fundou e dirigiu agências e atuou como CMO em grandes fintechs, além de prestar consultoria para diversas empresas globais









