A síndrome do excesso de treinamento é resultado do trabalho de preparação de atletas sem o necessário controle. O excesso de competições agrava mais ainda a saúde de quem as pratica.
Por volta de 1995, um colega, médico cardiologista do Instituto de Puericultura da UFRJ, me procurou para ser orientado na parte de bioquímica de um projeto de pesquisa, sobre um tema que ele tinha interesse pessoal, que investigava a chamada Overtraining Syndrome (OTS). Esse colega era um nadador amador, mas o filho já treinava para competir, o que motivou aquele estudo.
A importância daquela investigação para ele e para o grupo de nadadores que faziam parte da equipe foi fácil de entender: após treinamentos intensivos havia uma perda sensível de rendimento, que impedia a todos de melhorarem os seus tempos na piscina.
Como em todo projeto de estudo deste tipo é fundamental saber com o quê se estava lidando, daí a procura deste colega ao nosso laboratório, para tentar desvendar o cerne do problema ao nível molecular.
Antes de continuar, eu queria esclarecer que uma síndrome clínica é um conjunto de sinais e sintomas que ocorrem ao mesmo tempo, em uma determinada condição de doença, nem sempre com uma explicação adequada.
Neste caso, o primeiro sinal que chamou a atenção foi o da incapacidade dos atletas de melhorar as suas performances, mesmo aumentando o ritmo de treinamento. Na realidade, é justamente o aumento deste ritmo que provoca e depois agrava a síndrome, daí o nome de Overtraining Syndrome ou Síndrome do Excesso de Treinamento.
A etiopatogenia da síndrome
Quando este estudo começou já havia um marcador estabelecido para diagnosticar a síndrome, que era o aumento da amônia livre no plasma. A amônia (NH3) é uma substância muito tóxica. Uma vez livre no plasma em um nível elevado ela pode causar doenças graves, geralmente afetando tecidos, como, por exemplo, o cérebro, onde ela produz os seus efeitos tóxicos.
Quando o projeto chegou a mim, uma das coisas que me foi solicitada foi a dosagem da amônia no plasma dos atletas, de forma que se pudesse acompanhar o efeito dos treinamentos na síndrome. Na época, o colega da Puericultura importou ele próprio os kits de dosagem, que eu usei para fazer as medidas.
Abaixo, eu mostro o exemplo de um dos gráficos desta dosagem, com amostras colhidas em etapas distintas de um microciclo de treinamento:
Como se pode notar, os níveis de amônia plasmática sobem além do normal (aproximadamente 11 a 32 µmol/L), durante todo o microciclo. Tais resultados sugerem uma imediata moderação da intensidade dos ritmos de treinamento e cuidados para evitar a instalação da síndrome.
A parte do projeto que me coube foi a de investigar quais seriam os possíveis mecanismos de produção de amônia intracelular, cujo excesso vai ser jogado no plasma. A seguir, eu mostro um diagrama que foi apresentado em um seminário sobre o tema, que cobre o metabolismo muscular no qual a amônia é produzida, e depois a detoxicação (eliminação) pelo tecido hepático:
Eu peço desde já desculpas ao leitores não iniciados, pela complexidade do diagrama acima. Porém, basta dizer por enquanto se trata apenas da produção de amônia dentro do tecido muscular, e a sua posterior eliminação no tecido hepático (fígado).
Neste diagrama, pode-se ver que a moeda energética das células, chamada de Adenosina Trifosfato (ATP) serve de combustível para produzir amônia, mediante um processo de degradação, com perda de fostato (Pi). Ambas as substâncias NH3 e Pi estão marcadas em vermelho.
Mas, o ponto mais importante, que diz respeito ao atleta em competição, é a queda, por consumo, dos níveis do glicogênio intramuscular, polímero que é uma reserva de glicose, o principal combustível para o rendimento energético de qualquer célula. Quando isto ocorre, o tecido muscular consome os chamados aminoácidos de cadeia ramificada, que são Valina, Leucina e Isoleucina, para compensar a perda de energia. E é este consumo o principal produtor de amônia. O excesso de amônia produzida no músculo vai ao plasma, onde ela pode ser detectada e dosada, que foi o que foi feito na época.
A minha saída do projeto de pesquisa
No estudo do overtraining eu fui onde pude. A minha participação como colaborador neste projeto de pesquisa foi muito pequena, e eu me desliguei do grupo algum tempo depois. Naquela época, eu soube por eles que havia surgido a figura de um profissional, que se autointitulava de “fisiologista”, que está presente até hoje nos clubes de futebol. Eu confesso que nunca tive contato com nenhum desses profissionais, muito menos saber do que eles estavam fazendo. Hoje em dia, eu vejo vídeos onde eles aparecem ao lado de um monte de equipamentos de medida, mas não sei com que finalidade.
Convenhamos, embora qualquer ajuda técnica ou profissional possa ser muito útil, o ideal é juntar uma equipe multidisciplinar para monitorar o trabalho físico de qualquer atleta. Por mim, eu incluiria com total convicção a participação de nutricionistas dedicadas às atividades desportivas nesta equipe. São eles ou elas que poderão determinar com precisão o recordatório nutricional de cada atleta e o que fazer para evitar a síndrome ou quaisquer outras formas de fisiopatologias musculares.
O aumento do consumo de aminoácidos de cadeia ramificada citado faz que com que a concentração dessas substâncias diminuam no plasma. Na época deste estudo, o então presidente da CBDA pediu ao meu colega para que eu elaborasse um laudo a respeito, porque um grupo de pesquisa havia dito a ele que os atletas deviam fazer uma suplementação nutricional com esses aminoácidos. Depois eu vi que as lojas deste tipo de produto vendiam esse suplemento. o que tornaria esta intenção viável. Mas, como o laudo foi encaminhado a mim, eu disse textualmente que não recomendava a suplementação sugerida, por uma série de motivos, e o tal presidente, depois eu soube, não gostou da resposta!
As consequências imediatas do preparo físico sem critério
Por acaso, o leitor que acompanha, por exemplo, o futebol, já se deu conta do número de jogadores que aparecem com lesão muscular a todo momento? Tal fenômeno não ocorre à toa. Qualquer atleta com ritmo intenso de treinamento precisa de um período de descanso adequado, entre um ciclo de treinamento e outro, período no qual ele ou ela devem ser devidamente monitorados.
No caso específico do futebol, ainda existe um agravante: o excesso de jogos, com pouco intervalo de descanso. É óbvio que a ocorrência de lesão muscular irá eventualmente aparecer.
A epidemiologia conhecida depõe contra o excesso de competições, que hoje são: Campeonato Regional, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Copa Libertadores da América, Copa Sul Americana, etc. É um absurdo qualquer atleta entrar em todas essas competições ao mesmo tempo, sem intervalo apropriado de descanso.
Infelizmente, nesses torneios o dinheiro sempre fala mais alto, a saúde dos atletas nunca! E como as competições são de iniciativa privada, o controle das mesmas fica por conta de quem patrocina!
Este mundo de dirigentes é complicado e, em princípio, não é prudente ninguém de fora se envolver nele. E a propósito, o então presidente da CBDA, ao qual eu não recomendei a suplementação nutricional, foi vítima, anos depois, de um processo por fraudes na entidade, e acabou preso, isso após ter ocupado o cargo por quase 30 anos seguidos. Não foi um caso isolado. Outras confederações passaram pela mesma situação e seus dirigentes afastados ou presos. Em meados de 2020, o ex-presidente da CBDA faleceu com Alzheimer terminal.
De 1995 para cá, muito material do meu trabalho de pesquisa se extraviou ou foi perdido, incluindo os desse estudo. Vários programas que eu usava naquela época nunca mais foram usados, e por conta disso, não é mais possível abrir os arquivos que sobraram. Nem mesmo o Corel Draw, que eu ganhei de presente para análise aqui no Webinsider, conseguiu ler as antigas ilustrações. A que está mostrada acima, sobre o metabolismo muscular e hepático, sobrou na forma de uma transparência, que eu então digitalizei para este texto.
Para mim, o estudo da síndrome do excesso de treinamento acabou sendo apenas uma experiência de vida. Mas que me permitiu ver as competições esportivas e os problemas de saúde delas decorrentes de outra maneira. [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.











