O que sobrou do cinema Tijuca-Palace, no Rio de Janeiro, foi cedido para uma academia de ginástica. A sala abrigou o cinema de arte no bairro.
Dias atrás, eu recebo uma mensagem do meu filho, me chamando a atenção para o futuro destino do Cine Tijuca-Palace, outrora o templo de filmes de artes na redondeza. O cinema foi inaugurado pela Franco-Brasileira, em 1967, como alternativa ao Cinema Paissandu, que havia se tornado um ícone dos cinéfilos que procuravam filmes desta categoria. Os frequentadores mais jovens deste último foram classificados como membros da “geração Paissandu”.
O Tijuca-Palace era um projeto ambicioso, com auditório bem maior do que o Paissandu. Às quintas-feiras, o pessoal da Cinemateca do MAM programava um dia exclusivo de exibição de filmes selecionados, e foi lá que eu vi muita coisa que eu não conhecia.
Com o passar dos anos, a cabine de projeção foi reformada, com a instalação de projetores Prevost de 70 mm. Na nova tela eu assisti a projeção de “That’s Entertainment, Part II”, (no Brasil, “Isto Também Era Hollywood”), de 1976.
Com o declínio dos cinemas, o antigo auditório do Tijuca-Palace foi demolido, e no lugar dele foram construídas 2 salas, uma delas eventualmente voltada para filmes pornográficos, o que gerou protestos dos frequentadores e de pessoas que transitavam na galeria que dava acesso aos cinemas. Entretanto, em 1982 o Tijuca-Palace fechou as portas em definitivo.
Em 2012, eu fiz um trabalho intenso de pesquisa sobre os cinemas de rua da Tijuca, que foi revisado e republicado em 2020 pelo nosso editor, onde o cinema foi citado. Mais ou menos nesta época da pesquisa, eu tentei visitar o que sobrou das salas, mas sem sucesso. Eu soube então que um grupo de São Paulo havia tentado ocupar as salas, mas desistiu, aparentemente por causa dos custos de reparação.
Agora, surge a infausta notícia de que os herdeiros da Franco-Brasileira decidiram declinar um projeto da prefeitura de revitalização da área, que nunca saiu das promessas, e decidiu repassá-lo a uma academia de ginástica. A matéria foi publicada no Diário do Rio, em 20 de novembro passado. O autor do texto se refere ao cinema como “o último cinema de rua da Tijuca”. Se ele tivesse investigado um pouco mais, iria ver que o Cinema Carioca foi tombado e depois ocupado por uma igreja evangélica. Destino similar teve o Comodoro, também ocupado por evangélicos.
A situação do Tijuca-Palace mostrada em documentário
A cineasta Isabella Raposo gravou um documentário sobre o seu pai Ivo Raposo, que foi exibido pelo canal Curta!, da TV fechada. O documentário é parte de série /Lost + Found, onde ela nos mostra o que sobrou do Tijuca-Palace. Eu capturei alguns momentos do documentário, que mostro a seguir. Notem que o Ivo Raposo sobe as escadas de uma das salas, para encontrá-la em total deterioração, e ainda visita o que sobrou da cabine de projeção, ainda com um dos projetores Philips abandonados:
O Ivo conseguiu recuperar os Prevost de 70 mm. Inicialmente, ele os instalou em uma de suas cabines. Eu estive lá e constatei o ótimo estados daqueles projetores. Abaixo, duas fotos que eu tirei, durante a projeção que eu assisti:
A foto da direita foi enviada para o projeto da Caboose, a respeito de profissionais que foram outrora operadores de cinema, chamado de Planetary Projection:
Os dois projetores Prevost foram depois removidos da cabine e expostos na réplica do Café Palheta da Praça Saens Peña, ao lado de outros projetores:
Na exposição acima, foram colocadas as bobinas de 70 mm, para que o público possa ver as películas daquele calibre, com som estereofônico de 6 canais, em banda magnética. Os Prevost projetavam ambas as bitolas de 35 e 70 mm.
A réplica do Metro-Tijuca e o espírito preservacionista do Ivo Raposo
Se existe uma coisa super difícil neste país sem memória é preservar espaços, e os cinemas de rua do Rio de Janeiro nunca tiveram muita sorte. O magnífico Metro-Tijuca foi uma dessas vítimas. No seu lugar foi construída uma loja de roupas. Quando o Metro foi demolido o Ivo cortou um dobrado para resgatar o que fosse possível dos espólios do cinema, e depois construiu uma réplica na sua casa em Conservatória, visitada por turistas, a quem ele oferece uma palestra sobre o cinema, e uma projeção de excertos da MGM:
Na réplica, a aparelhagem da cabine dos cinemas Metro está desde então totalmente preservada, com projetores Simplex E-7 e X-L. A preservação de tudo isso exige esforço, atualmente o espaço se transformou no Espaço Cultural Cine Centímetro, que pode ser visitado pelos interessados, estudantes e cinéfilos.
Infelizmente, a sanha destruidora consumiu todos os cinemas Metro. O último deles, o Metro-Boavista, originalmente equipado com aparelhagem 70 mm e projeção Dimensão-150, hoje nada mais é do que um espaço vazio, triste de se ver.
Na época em que eu tentava obter informações sobre o fechamento dos cinemas cariocas, eu soube, através de um ex-funcionário do grupo Severiano Ribeiro, que o Cinema Palácio, já dividido em dois antes de fechar, tentou um acordo com a prefeitura para isentar o imóvel da cobrança de IPTU, que poderia manter o cinema aberto. Mas, o tempo passou, o prefeito saiu e o novo prefeito cobrou uma fortuna de IPTU, sem honrar o acordo anterior. Então, o grupo fechou o cinema, que permaneceu assim até que as lojas Riachuelo restauraram o cinema original, que havia sido tombado, e o transformaram em um teatro. Da mesma forma, o antigo Cinema Vitória foi também tombado e as suas paredes reconstruídas pela Livraria Cultura, que acabou fechando as portas.
Na Tijuca, os dois cinemas que sobraram, Carioca e Comodoro, estão nas mãos dos evangélicos, o que não conforta ninguém. Os proprietários do Paissandu prometeram aos antigos frequentadores que nunca iriam fazer o mesmo. Mas, o seu destino foi o mesmo do Tijuca-Palace, convertido em uma academia de ginástica. [Webinsider]
. . .
Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.















