Laser rot é um problema leitura no disco que aflige usuários e colecionadores até hoje.
Quando a Philips e a MCA lançaram o DiscoVision, nós estávamos diante de um produto revolucionário: era um disco ótico, que podia ser tocado sem agulha, contendo áudio e vídeo de boa qualidade.
Apesar da mudança radical na leitura de um disco, logo surgiram problemas de vários tipos. O primeiro deles foi o da prensagem da mídia, com alto nível de rejeição na fábrica, e o principal problema foi a deterioração da mídia ótica, que foi chamada pelos usuários de “laser rot”, quer dizer “deterioração do laser”. Mas, como “laser” entenda-se a mídia usada e não o pick-up ótico.
Ao longo dos anos, os videodiscos apresentaram este tipo de problema, afetando a imagem e o áudio, com todo tipo de ruído. E o defeito nunca teve qualquer perspectiva de solução.
Na era seguinte, uma mídia similar para áudio, igualmente produzida pela Philips, mas de tamanho compacto, foi desenvolvida com lições aprendidas do videodisco: a informação de áudio passou a ser digital e não analógica, como anteriormente. Isto permitiu que eventuais erros de leitura pudessem ser rapidamente corrigidos de forma transparente para o consumidor.
Além disso, as camadas de proteção da mídia começaram a ser aperfeiçoadas, tornando o Compact Disc muito mais resistente ao “laser rot”.
A troca da informação analógica para digital teve continuidade no desenvolvimento do DVD, agora com imagem também digital. O DVD representou, em um certo momento, um grande avanço, porque permitia a autoração de filmes com trilhas em Dolby Digital e DTS, ambas chegando até 6.1 canais, com os nomes de Dolby Digital Surround EX e DTS-ES. Notem que derivações desses dois novos codecs foram depois usados nos discos Blu-Ray, como o DTS-ES, que foi recodificado para DTS HD-MA de 6.1 canais.
Porém, infelizmente, apareceu um novo problema de prensagem dos discos DVD: para codificar filmes de maior duração foram desenvolvidos discos de dupla camada, e estes se mostraram mais frágeis fisicamente.
Notem também que não haviam, naquela época, leitores de DVD com memória cache suficiente para permitir a troca das camadas de forma transparente: nesses aparelhos a imagem congelava momentaneamente, até que o pick-up ótico continuasse a ler a segunda camada do disco.
Mas, isso foi o menor dos problemas, porque a prensagem de discos de dupla camada se mostrou problemática e inadequada, voltando aos tempos do videodisco! Com o tempo, discos simplesmente paravam de tocar, às vezes no início da segunda camada, outras vezes o disco todo.
Eu tive vários discos DVD com este problema. Na década de 1990, eu tinha conhecidos no laboratório da Sony, que ficava no Rio de Janeiro. Eles me pediram para lhes entregar os discos de dupla camada defeituosos da minha coleção, que foram depois enviados para o Japão. Nesta mesma época, a Warner anunciou que havia detectado um problema em uma tal cola, que unia as duas camadas.
A maioria dos problemas está na prensagem imprecisa das camadas do disco
Para se entender melhor os problemas de leitura quando discos óticos não leem mais, é preciso entender o processo de manufatura com mais detalhes, e como o aumento de camadas de dados pode afetar a leitura pelo drive.
As mídias óticas mais sofisticadas podem conter mais de um codec de áudio e até de vídeo. Um exemplo singular deste tipo de disco é o DVD-Audio: ele pode ter áudio de até 5.1 canais, codificados em MLP ou PCM, Dolby e DTS, tudo incluso no mesmo disco. Para tal, as informações de cada codec são autoradas em camadas e/ou diretórios diferentes.
Um disco de áudio de alta resolução é chamado de híbrido quando ele contém mais de um formato de áudio ou vídeo. Isto é possível porque os comprimentos de onda do raio laser são dedicados a um dado tipo de codec. Para ler um CD (PCM ou DTS), por exemplo, o diodo emissor usa um comprimento de onda de 780 nm (nanômetros). Já o diodo para o DVD emite luz em 650 nm, e o Blu-Ray usa 405 nm, próximo da luz ultravioleta.
O diagrama abaixo mostra uma comparação de camadas dos discos híbridos:
Um reprodutor de SACD usa os 650 nm para a camada de DSD e 780 nm para a leitura da camada de CD, se o disco for híbrido.
Os ditos aparelhos de mesa universais são aqueles capazes de tocar qualquer tipo de mídia, e para isso a luz dos seus diodos emissores tem que cobrir todos os comprimentos de onda citados acima.
Qualquer mídia ótica pode ser afetada por problemas na prensagem de discos de mais de uma camada, pouco importa se o disco é novo ou não. No caso esdrúxulo do SACD, pode acontecer de uma das camadas (geralmente a do CD) continuar tocando. O que aliás, não conforta ninguém, quando o que se busca é a reprodução do áudio de alta resolução.
Mitos e crendices sobre erros de leitura da mídia ótica
A reprodução de qualquer disco ótico pode ser prejudicada basicamente de duas maneiras: primeiro, erros de alinhamento no pick-up ótico ou defeito na eletrônica ligada a ele, ou então deterioração da mídia.
Se o pick-up estiver funcionado corretamente, mas os discos sem leitura adequada, basta limpar a lente do drive com álcool isopropílico. Alguns fabricantes inclusive recomendam que isso seja feito pelo menos uma vez por ano. A propósito, não é recomendável o uso de discos de limpeza com escovas!
Durante muito tempo, dizia-se que o CD era passível de oxidação da camada de proteção, impedindo a leitura dos discos. Foi proposto que os CDs fossem prensados com uma camada protetora banhada a ouro, que impediria a alegada oxidação. Isto obviamente tornou o disco mais caro, e não provou nada, pelo menos no meu entendimento. Tanto assim, que eu tenho até hoje CDs convencionais com mais de 40 anos de vida, e que tocam perfeitamente.
Como com qualquer mídia ótica, o CD pode sujar ou ser contaminado com fungos, mesmo que corretamente armazenado. Quando isto ocorre, basta limpar o disco com gotas de detergente neutro, espalhando-as com os dedos no sentido radial dos discos, nunca concêntrico. Lava-se o lado do selo também, com o mesmo cuidado. Depois, é só secar bem antes de reproduzir de novo, podendo-se usar papel toalha, pano de microfibra ou uma toalha macia.
Uma balela que alguns experts de vez em quando divulgam pela Internet é o mito de que em algum momento do futuro os discos óticos vão parar de tocar, inclusive os CDs mais antigos. Porém, ninguém tem coragem de citar a possível meia vida de um disco ótico, portanto não é possível nem a eles prever quando isso vai de fato acontecer!
O alívio às vezes vem, quando se lava um disco e depois ele volta a tocar. Se não der certo, o prejuízo fica nas mãos do usuário. Quem não quer se aborrecer com isso, a porta dos streamings estarão sempre abertas. [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.











