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Letras de músicas ficam na nossa memória de repente tocam na nossa cabeça

Músicas ficam na nossa memória e de repente “tocam” na nossa cabeça nos momentos mais inusitados, sabe-se lá por quê.

 

Em uma palestra sobre um psicanalista famoso eu ouvi que é comum e normal as pessoas “ouvirem” música tocando no cérebro, em momentos de ociosidade mental temporária.

Na verdade, a associação entre a música e as pessoas começa desde cedo, e invariavelmente marca momentos e experiências de vida. Assim como nos filmes que induzem a plateia para um processo de catarse, a música pode perfeitamente servir de instrumento escapista para qualquer um.

Letras e melodias ficam registradas espiritualmente para o resto das nossas vidas. A música que “toca” no cérebro de cada um depende fundamentalmente da afinidade das pessoas com um gênero ou movimento musical, na maioria das vezes.

Digno de nota (sem trocadilho) em muitas ocasiões são os solos dos músicos preferidos e/ou determinados arranjos, que vem na memória constantemente.

Os grandes solistas

Louis Armstrong, o lendário músico de Jazz, foi um dos primeiros, talvez o primeiro, solista em uma banda de Jazz. Satchelmouth ou simplesmente Satchmo (apelido aproximadamente traduzido como “boca de caçapa” ou “boca de sacola”), Louis se destacou na banda de King Oliver, seu mentor, pelos solos que tocava. Diz a lenda que Oliver tinha ciúme dessa capacidade do pupilo, e costumava colocar um lenço em cima dos dedos, ao tocar nas pistas do trompete, para impedir que Louis soubesse como ele estava tocando.

King Oliver foi quem deu a Louis a grande oportunidade como solista, que sempre se disse grato a ele. No início da década de 1960, Armstrong lançou para a Audio Fidelity o antológico disco prestando um tributo a King Oliver:

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As sessões de gravação ocorreram no estúdio Radio Recorders, de Los Angeles, em 1959. O museu em memória do músico liberou um filme com trechos dessas sessões:

O disco teve inúmeras reedições, e foi lançado em CD aqui mesmo no Brasil, com excelente remasterização, décadas atrás. Um lançamento mais recente, também em CD, transcreveu todas as sessões do disco, inclusive de faixas que nunca saíram no elepê.

As letras da Bossa Nova que ficaram na memória de quem viu o movimento nascer

Com a gravação de Chega de Saudade, música de Tom e Vinícius, lançada pela Odeon em 1958, teria se fundado o movimento bossanovista, segundo vários autores. A letra fala de um amor perdido, mas teria implicado ou sugerido a mudança “radical” do sentimento dos compositores, que estariam se negando a continuar com o jeito depressivo que fez sucesso até então. Basta ver como foi escrita a letra de Ninguém Me Ama, para entender a mudança. A letra de Chega de Saudade, entretanto, parte da tristeza para chegar na esperança da reaproximação do amor perdido, e resgatando assim a libertação do sentimento depressivo da perda.

Várias letras da Bossa Nova também expressaram a frustração afetiva, mas com uma abordagem completamente diferente. Essas então novas músicas foram compostas com um notável lirismo, que muito bem poderia encarnar a sensação catártica de que nada afetivo tinha sido perdido. Por exemplo, na letra de Chega de Saudade, Vinícius escreve:

“Mas se ela voltar, se ela voltar

Que coisa linda, que coisa louca

Pois há menos peixinhos a nadar no mar

Do que os beijinhos que eu darei na sua boca”

Portanto, em nenhum momento deixou-se de contemplar a expectativa do sucesso da recuperação do sentimento afetivo anteriormente perdido.

Outro exemplo notório deste mesmo otimismo afetivo está em “A Volta”, composta pela dupla Menescal e Bôscoli. Aliás, ela teve uma interpretação primorosa de Elis Regina, gravada com Toots Thielemans, em uma passagem pela Europa. Elis canta a música como se fosse um Blues, de forma lenta e imaginativa, prolongando cada nota e transbordando sentimento.

A Bossa Nova foi pródiga de músicas e letras de grande expressão lírica e sentimental. E este talvez tenha sido o maior impacto do gênero no exterior. Nota-se, até hoje, o uso constante da cadência bossanovista em cenas românticas de filmes, e isso nos diz tudo! A batida e as harmonias se tornaram sinônimo do fascínio e da atração entre os personagens.

A música que fica na cabeça dos personagens, mostrada em cenas de filmes

São inúmeras as cenas de filmes, sem serem musicais, em que o personagem, sozinho ou acompanhado, começa a cantar uma música, sem nenhum motivo aparente, e em muitas cenas ele ou ela estimulam quem está por perto a fazer o mesmo!

Tudo isto nos mostra a força que a memória da música tem na vida de cada um de nós, com o benefício de que nós somos alimentados por uma das mais nobres de todas as artes, aquela em que o compositor expõe a sua alma quando escreve a melodia e as letras e as compartilha com quem ouve.

A meu ver, a música deveria ser uma disciplina importante, mesmo que opcional, no currículo da formação ed base de qualquer criança.

Em Conrack, dirigido por Martin Ritt, cineasta que fez parte da infame lista negra de Hollywood, Jon Voight personifica um professor branco, que vai trabalhar em um local isolado, cujos alunos são crianças negras e sem cultura.

As crianças são vistas na escola como retardadas e incapazes de aprender e evoluir, mas Conrack se nega a admitir isso: primeiro vence a discriminação por não ser negro, conquista a confiança da turma, e os ensina a viver. Entre os ensinamentos, ele mostra a criatividade da música erudita e como ouvi-la. No fim do filme, Conrack é despedido da escola pela ousadia, e na cena final, quando ele vai embora,  as crianças tocam um disco clássico o vendo partir.

Desnecessário dizer, este é um mais belos filmes sobre educação e apreciação de música, dando chance a quem se educa de conhecer e apreciar um mundo até então privilégio das classes mais abastadas. Além disso, o roteiro combate a noção de que nem todo ser humano é capaz de aprender, lição das mais valiosas que todo educador deveria saber! [Webinsider]

 

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A influência da Bossa Nova na música popular romântica norte-americana

 

Afinal, quem criou a Bossa Nova?

Avatar de Paulo Roberto Elias

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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