A contracultura fez parte de um movimento que tomou conta da vida dos americanos e europeus nas décadas de 60 e 70, e se a gente observar bem, seus efeitos continuam por aí.
A palavra cultura sempre teve para mim um vasto significado. Ao longo dos anos as pessoas vão acumulando conhecimento e podem amadurecer ideias, tornando-se melhor ou se aprimorando como ser humano. Mas, isso nunca foi um processo sem transtornos ou empecilhos e, consequentemente, muda através das décadas e/ou em diferentes países.
Até hoje, eu tenho absoluta convicção de que a cultura só pode evoluir quando as pessoas não ficam restritas ao ambiente doméstico. Na prática, significa, entre outras coisas, viajar e conhecer gente de outros países, saber como elas pensam ou agem. Eu vi isso no ambiente acadêmico: colegas que saíram do país para fazer pós-graduação e depois voltaram com outra mentalidade, pensando diferente.
A reação cultural
Nas décadas de 60 e 70 Estados Unidos e Europa começaram a mudar drasticamente. E no caso do primeiro, as mudanças foram mais notórias na juventude, que não acreditavam mais nos valores tradicionais que os seus pais ainda conservavam.
Embora não seja errado ser tradicional ou conservador, não se pode impor algum tipo de cultura nesta direção, quando as novas gerações descobrem que existem outras maneiras de viver!
E foi aproximadamente assim que a contracultura foi aos poucos tomando forma. Suas formas contestatórias envolveram vários aspectos da situação em que os Estados Unidos se encontrava, como, por exemplo, o envolvimento militar americano na guerra do Vietnã.
Na verdade, a contestação aos valores tradicionais já tinha se manifestado bem antes. Na década de 1950, período pós guerra, os intelectuais mais jovens já haviam iniciado um movimento, que depois se cristalizou com o aparecimento dos hippies, na década seguinte. Estes últimos foram os que mais combateram a participação de jovens convocados para ir combater no Vietnã, com o slogan “faça amor, não faça guerra”.
A contracultura americana se espalhou não só entre os intelectuais, mas nos meios de comunicação, como cinema, teatro e literatura. Filmes de conteúdo híbrido começaram a dominar as bilheterias, entre eles o filme já comentado aqui, com o título “Little Murders”, que aborda a violência urbana da sociedade novaiorquina, bem como a estrutura das famílias incapazes de se ajustar aos novos tempos.
O cinema underground foi um dos componentes importantes da contracultura, e muitos dos filmes comercialmente produzidos também deixaram a sua contribuição no movimento contestatório. Cineastas modernos norte-americanos fizeram filmes com narrativa bem mais próxima do que já se fazia no cinema europeu de vanguarda.
Na música, proliferaram os grupos de rock, com fusão de outros gêneros, cantando músicas com letras reveladoras. Na Inglaterra surgiram os músicos do chamado Rock progressivo, muitas vezes evocando para si as raízes culturais do país, de maneira a expressar a evolução musical através dos séculos.
Basicamente, a contracultura se propôs a desafiar e modificar o establishment ancorado em ideologias e políticas das elites, que anteriormente em nada contribuíram para uma sociedade de melhor qualidade.
Os mais jovens sempre irão querer mudanças
Embora a contracultura como tal tenha desaparecido, suas raízes ainda estão por aí, provando de certa maneira que a juventude sempre irá querer mudanças no status quo social. Essa juventude faz desafios também, e eventualmente indica a direção que irá tomar.
Um dos seus principais méritos é enxergar a hipocrisia social da maioria dos políticos, principalmente dos que falam sobre aquilo que nunca praticam.
As mudanças sociais são, em sua maioria, lentas, mas elas estão lá. Elas podem ser travadas ou nunca se concretizar, pela ignorância dos mais jovens, ou pela sua alienação social, ou ainda pela ausência de uma educação de base que os permita pensar e evoluir.
Neste ponto, eu fui testemunha da iniciativa de uma colega que tive quando dei aulas no secundário, que pediu à direção do colégio para chamar os pais para uma reunião, que iria discutir a evolução intelectual de seus filhos. A iniciativa não deu certo. Aqueles pais eles próprios não haviam evoluído, e acabaram se defasando do avanço dos filhos.
Esta defasagem foi prejudicada ainda mais pela ausência de suporte dentro de casa, daí a iniciativa da minha colega, que era formada em biologia e psicologia. Ela era uma pessoa brilhante, me ensinou muita coisa quando eu ainda estava começando a lecionar.
Infelizmente, ela faleceu jovem, vítima de câncer inoperável, embora levasse uma vida regrada. Assim, não conseguiu dar andamento às suas ideias, e descobrir se estava no caminho certo.
Foi por causa de experiências deste tipo que eu sempre acreditei que a evolução social precisará ser sempre amparada na aquisição do conhecimento. Ouso dizer que se a sociedade americana tivesse evoluído após a guerra, provavelmente a contracultura não teria existido, muito embora a mudança de comportamento seja dinâmica e faz parte de qualquer segmento social. [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.









