Cineastas e donos de estúdio de Hollywood sempre foram alvos de críticas. Uma das mais absurdas dizia que Walt teria roubado o Mickey Mouse de Ub Iwerks.
Na história do cinema foram incontáveis os relatos controversos sobre a personalidade de donos de estúdio, produtores, diretores, atores, atrizes e até de técnicos. Em muitos casos, historiadores ou críticos contaram o seu lado das estórias, portanto longe de serem justos ou corretos.
Uma das personalidades da indústria do cinema que eu sempre vi ser muito criticada foi justamente Walt Disney, muitas vezes de forma maldosa pelos seus críticos.
Uma dessas críticas se refere à criação do seu principal personagem de animação: Mickey Mouse. Críticos de Disney sempre insistiram que teria sido o animador Ub Iwerks o verdadeiro criador daquele camundongo, e assim Walt teria roubado a criação dele, passando a ser o vilão da história.
Disney deu a sua versão dos fatos: voltando de trem de uma viagem de negócios fracassada, lhe veio a ideia de usar um camundongo (muita gente erra, dizendo que Mickey é um rato) como novo personagem, cansado de ver as suas criações nas mãos de terceiros. Chegando em casa, relatou o que pensava à sua mulher, que foi quem propôs trocar o nome Mortimer para Mickey, e ele aceitou. Chegando no estúdio, contou a ideia para Iwerks, e pediu para ele desenhar sketches do personagem, que foi o que ele fez.
Portanto, Disney imaginou e Iwerks desenhou, quer dizer, os dois criaram o personagem, não houve roubo nenhum, como dizem os detratores. Sendo dono da ideia, foi perfeitamente legítimo e natural que Disney considerasse o personagem como seu.
Ub Iwerks como gênio criativo
Ub Iwerks fez de tudo: ele foi cartunista, animador, produtor, dono de estúdio, e no final desenvolvedor de processos cinematográficos revolucionários para a época.
No início da era DVD, a Image lançou dois discos com coleções recuperadas feitas por Ub Iwerks no seu estúdio, já afastado de Disney. Hoje é fácil achar todos esses desenhos no YouTube.
Iwerks experimentou trabalhar com o processo fotográfico Cinecolor, adotando o nome ComiColor nos créditos, em vários dos seus curtas, e criou personagens novos também, mas que não fizeram grande sucesso. Os curtas foram produzidos por Pat Powers e distribuídos pela MGM.
Ele inseriu em alguns desses curtas sugestões cômicas e satíricas sobre a homossexualidade masculina, como o personagem Percy, no desenho Mary’s Little Lamb, onde ele inclusive debocha da professora da escola. Percy faz trejeitos de feminilidade, e no final os alunos repetem os trejeitos em coro:
Também em Simbad The Sailor, mostrando o mesmo trejeito feminino com a dança de um dos piratas, logo a seguir apunhalado contra a parede, dando a entender que o roteiro não vê com bons olhos este tipo de personagem homossexual:
Iwerks teve problemas com a censura, por incluir alusões diretas e indiretas à sexualidade feminina, ousadas para aquela época.
Voltando a trabalhar com Disney Ub Iwerks dedicou-se ao desenvolvimento de efeitos fotográficos, inclusive na área de animação. O estúdio havia aperfeiçoado a câmera multiplano, que ele havia começado a construir, mas não tinha terminado.
Além disso, notabilizou-se pelos efeitos especiais, como pode ser visto em Mary Poppins, e ganhou um Oscar, quando trabalhou em Os Pássaros, de Alfred Hitchcock.
Como colecionadores tivemos sorte de poder ver os desenhos de Ub Iwerks sem os cortes da censura, e nem ser vítima deste discurso cretino do politicamente incorreto, como querem alguns que no passado removeram cenas de desenhos recuperados para as respectivas edições em home vídeo pós DVD. Esse paternalismo imbecil de censura nos impediu várias vezes de ver como os desenhos antigos foram feitos.
Walt Disney, o visionário
É historicamente inegável que Walt Disney não foi apenas mais um cineasta do ambiente corporativo criado em Hollywood, porque ele tinha uma nítida visão de como os seus filmes de animação, e depois de filmes com atores, deveriam passar uma mensagem de esperança às plateias.
É digno de nota que todos os vilões dos seus filmes morrem em precipícios, ninguém que assiste vê onde eles foram parar, mas apenas sentem o fim da batalha entre o bem e o mal, onde o bem sempre triunfará. Os roteiros de animação insistiam nos finais do tipo “felizes para sempre”, e para tal usou a fantasia do chamado príncipe encantado, personagem clássico dos contos de fada nos quais o estúdio se baseou.
Além disso, Disney insistiu na associação entre a música e o estado de espírito imaginativo de quem ouve, que foi a base de Fantasia, em 1940. Ele era convicto deste princípio, e estava certo. E seus diretores e animadores usaram esta base para “interpretar” todos os segmentos de música clássica no filme, e transpor esta interpretação para o cinema de animação.
Em Mogli, a música faz parte do enredo, cada segmento usa a música para caracterizar personagens e dar sequência à estória, algo inovador em filmes musicais, que iria se repetir claramente em Mary Poppins, dispensando diálogos falados.
Disney mandou seus cartunistas estudar artes, e só isso já contribuiu para a excelência e para o aprimoramento dos seus projetos de animação. Tecnicamente, o estúdio fez uso de todos os recursos disponíveis, como a introdução do som em trilhas sonoras dedicadas nos curtas, e depois no aprimoramento da imagem com a filmagem com negativos Technicolor, sendo pioneiro em ambas as áreas.
Disney viu no som o futuro do cinema, produzindo Fantasia com sofisticada animação e trilha sonora de múltiplos canais. Ele queria que o som acompanhasse os movimentos da tela, permitindo à plateia imergir nas cenas. Mas, não é essa a mesma ambição do som 3D de hoje?
Em outras palavras, Disney viu ainda no final da década de 1930 o que o cinema só iria fazer acontecer quase 20 anos depois, com o Cinerama, e décadas depois com o advento do Dolby Digital e do DTS nas salas de exibição.
Em A Bela Adormecida, de 1959, ele comissionou seus artistas para novamente investir em arte e fotografar o filme com o processo Super Technirama 70, mantendo cópias de distribuição em 70 mm e scope de 35 mm, para que nenhum cinema ficasse impedido de exibir o filme. Mandou gravar a orquestração na Alemanha, por acreditar que lá os estúdios tinham melhor qualidade de gravação. Estas orquestrações foram mais recentemente restauradas e lançadas em Blu-Ray 7.1 canais.
Disney foi também um dos principais inovadores em projetos que misturaram filmes de atores com animação, com a colaboração de UB Iwerks, desde Song Of The South, lançado em 1946. Foram técnicas inovadoras, que permitiram depois leva-las à perfeição em Mary Poppins.
O envolvimento de Disney com o Brasil
Walt Disney esteve no Rio de Janeiro em 1941, parte de um tour na América do Sul, que havia feito para fugir da greve dos técnicos do estúdio recém associados ao sindicato da categoria. Disney ficou aparvalhado e revoltado com o movimento de greve e mais tarde atribuiu ao movimento a ação de comunistas, com quem ele não simpatizava, infiltrados no sindicato. Ele deixou o estúdio e as negociações dos grevistas com o seu irmão Roy e viajou com vários de seus animadores para a América do Sul.
Aqui ele conheceu o compositor paulista José do Patrocínio Oliveira e se inspirou no seu jeito de malandro para pedir aos seus animadores criar o personagem do papagaio Zé Carioca, que passou a fazer parte de seus filmes seguintes.
Walt Disney absorveu muito da cultura carioca e posteriormente com a criação da Bossa Nova. Os estúdios prestaram homenagem ao movimento, gravando o álbum Disney Adventures in Bossa Nova, lançado em 2008 com artistas brasileiros.
Disney e sua mulher desfrutaram as praias cariocas, e ele chegou a registrar a paisagem com sua câmera. Uma foto, atribuída ao fotógrafo da revista Time Hart Preston, mostra Disney e seus artistas próximos do canal de Marapendi, na Barra da Tijuca, ao lado da lagoa do mesmo nome:
Bem verdade que o Rio de Janeiro das décadas de 1940 e 1950 atraiu artistas americanos e europeus, quando a cidade e a sua paisagem eram intoxicantes. Eu mesmo vivi muito disso na minha infância. O ambiente era bucólico e ao mesmo tempo fascinante. Era possível, por exemplo, pegar o bonde e subir até a Floresta da Tijuca, onde fica o maior parque florestal urbano do mundo. Ou pegar um ônibus e ir à praia, longe do tráfego e do barulho da cidade.
Então, não é de se admirar que Walt, sua família e artistas se sentissem bem por aqui. Na época, ele chamou para Hollywood artistas e compositores brasileiros, como Aurora Miranda, que filmou Você Já Foi à Bahia, ou o notável Ary Barroso, cuja música também fez parte de seus filmes.
É uma pena, eu diria lamentável e desprezível, que críticos tenham tentado distorcer o histórico de Walt Disney. No que me concerne, não conseguiram. [Webinsider]
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Walt Disney em Fantasia inaugurou o som estereofônico multicanal no cinema
Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.












