O líder viciado em aprovação vive para não desagradar. É quase um influenciador corporativo: evita conversas difíceis e afrouxa critérios para ser querido.
A cena é comum: a equipe sai moída de uma reunião difícil, cheia de pendências, silêncio atravessado e problemas não resolvidos. Cinco minutos depois, o líder posta uma selfie sorridente com a legenda:
“Time incrível, entregando tudo com muita garra. Rumo a novos desafios!”
Nos bastidores, burnout. No feed, felicidade HD. Se isso não for paradoxo, é propaganda.
Trazendo para a liderança: se a melhor parte da sua liderança é o story sobre ela, talvez o que falte não seja engajamento do time, mas história de verdade com o time.
Líder ou influenciador corporativo?
Tem muito líder hoje mais preocupado com o “branding pessoal” do que com o básico: dar direção, cuidar de gente, assumir decisão impopular e bancar consequência.
Na prática, fala bonito no LinkedIn, mas some quando a meta aperta. Faz thread inspiradora sobre “cuidar de pessoas”, mas responde mensagem de liderado com três dias de atraso. Tem discurso de vulnerabilidade, mas não admite um erro sem anexar uma justificativa de 12 linhas e entrelinhas recheadas de múltiplos sentidos.
Nos dias atuais é fácil perceber que a validação digital adoece até quem vive de rede social: influenciadores que entram em crise quando o algoritmo vira o rosto, ex-estrelas de plataformas que desaparecem e ficam sem identidade quando o palco acaba. Na liderança então, o algoritmo é outro e o de sempre, independente da tecnologia envolvida: ele continua sendo o olhar do time, a confiança silenciosa, a conversa difícil que você não fugiu, a decisão ética que ninguém viu, mas que todo mundo sentiu.
Uma vida não examinada (mas bem postada)
Sócrates diria que uma vida não examinada não merece ser vivida. Se o pai da matéria caísse hoje numa reunião de diretoria, provavelmente perguntaria:
- “Quem é você sem o seu crachá e sem o seu LinkedIn?”
- “O que sobra da sua liderança se tirarmos os eventos, os posts e as frases de efeito?”
- “Que histórias o seu time contaria sobre você… se ninguém fosse descobrir quem falou?”
O método socrático é um antídoto poderoso contra a liderança de fachada: fazer perguntas até o verniz cair e aparecer o que realmente está ali. Porque enquanto os stories mostram segundos escolhidos a dedo, a história mostra anos de coerência (ou de teatro bem ensaiado).
Na mesma mesa, Aristóteles lembraria que virtude é hábito, não ato. Você se torna justo, corajoso ou covarde pelo que repete todos os dias, não pelo que declara uma vez por semana (Momento Merchan: vale conhecer também “A Revolução do Pouquinho”, o outro conteúdo base deste que vos escreve)
Então, líder, na próxima Convenção da sua empresa, que tal lembrar que:
- Você não é o post sobre cultura. Você é a forma como interrompe (ou não) quem desrespeita alguém na sala.
- Você não é o slide sobre “segurança psicológica”. Você é o silêncio ou a proteção quando alguém pensa diferente.
- Você não é o discurso sobre “equilíbrio de vida”. Você é a mensagem mandada 23h37 com “urgente” no assunto.
A sua história vale mais que seus stories. Porque a história é feita de microdecisões repetidas, não de macrofrases compartilhadas. Neste seu feed interno, caráter é hábito, não carrossel.
Epicuro entraria afobado na sala não falando de “curtidas”, mas de prazeres falsos: aqueles que prometem muito, entregam pouco e cobram caro depois. O like é exatamente isso, só que em versão digital: dá dopamina rápida, alimenta o ego, mas não resolve conflito, não desenvolve ninguém, não sustenta resultado.
Nesta busca insanaa, o líder viciado em aprovação acaba vivendo para não desagradar. Como? Evitando conversas difíceis, afrouxando critérios pra ser querido e prometendo o que não pode cumprir pra manter a imagem de herói.
No curto prazo, gera aplauso. No médio, gera desconfiança. No longo, gera limão azedo: um time que olha pra você e pensa “não dá pra levar tão a sério assim”.
Pra liderança genuína, o “prazer” que importa não é o de parecer incrível, mas o de saber que você fez o que era certo, mesmo que o story tenha ficado péssimo. Te preocupa mais o que acontece na sala do que com o que vão dizer da sala. Quando a liderança vira apenas um espetáculo de movimentos calculados, sabemos que a reunião é pensada para a ata, não para a decisão. O projeto é pensado para o case, não para o impacto e o time, ah… o time é tratado como plateia (às vezes palco), testemunhas da genialidade do chefe e não como coautor.
O que realmente importa na liderança? (Dica: não é carrossel)
A pergunta incômoda, que devemos levar pra vida, é: quando você olha pra trás, o que realmente conta? E o que encontra? Não são os prints, nem as curtidas, nem os recortes perfeitos do feed, mas as conversas em que você segurou a barra de alguém, as decisões em que você perdeu status pra não perder caráter e os dias em que você reconheceu que errou e não usou o cargo como escudo.
Talvez seja a hora de algo parecido na vida de quem conduz equipes: menos post, mais presença. Menos frase de efeito, mais efeito real nas pessoas. Porque a sua história com o time (aquilo que eles vão contar de você quando você não estiver na sala ou na empresa) vale infinitamente mais do que qualquer story que você mesmo publica sobre a própria grandeza.
Então, bora deslocar um pouco este ego e promover trocas simples que mudam tudo?
- Que tal trocar “Como isso vai ficar no case?” por “Quem vai ser impactado por essa decisão e como?”
- Que tal trocar “Vamos comunicar bonito” por “Vamos conversar de verdade com quem vai sofrer a mudança”?
- Que tal trocar “Preciso postar isso” por “Preciso primeiro ouvir quem está vivendo isso”
- Por fim, que tal trocar “Quero ser visto como um grande líder” por “Quero ser útil na vida dessas pessoas, mesmo que ninguém saiba”?
História é o que fica em quem viveu com você. Story é o que desaparece em 24 horas.
Deixo aqui alguns limões (mais que nos artigos anteriores, hein) pra você espremer no olho com carinho:
- Se ninguém nunca mais pudesse postar nada sobre você, o que sobraria da sua liderança? Cargo, reputação ou histórias reais de cuidado e coragem?
- Você gasta mais tempo ajustando apresentação, discurso e post do que ouvindo, olhando no olho e tomando decisão difícil com o time?
- Na última crise séria, você se preocupou mais com o “como vamos comunicar isso” ou com o “como as pessoas vão viver isso”?
- Quais histórias o seu time contaria sobre você… se tivesse garantia absoluta de anonimato? Você teria orgulho de ouvir ou vergonha de saber?
- Que parte da sua narrativa de líder é storytelling bem produzido… e que parte é storydoing, aquilo que você realmente faz quando ninguém está gravando?
- Se alguém assistisse aos bastidores da sua agenda (reuniões, reações, decisões) e comparasse com o que você posta, encontraria coerência ou contradição?
- O que você precisa viver — de verdade, com gente de verdade — antes de merecer o próximo story celebrando a sua “liderança inspiradora”?
É simples, líder, mas nada fácil: sua história vale mais que seus stories. E quem trabalha contigo sabe exatamente qual das duas você está entregando.
[Webinsider]
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Eduardo Zugaib
Eduardo Zugaib (falecom at eduardozugaib.com.br) é profissional de comunicação, escritor e palestrante motivacional. Sócio-diretor da Z/Training - Treinamento e Desenvolvimento.









