A exploração da sexualidade no cinema disfarçada de arte

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Calígula e Império dos Sentidos: a sexualidade no cinema

A exploração da sexualidade no cinema existe desde sempre e chegou à pornografia nas salas de exibição algumas vezes disfarçada de cinema de arte.

 

No filme-documentário That’s Entertainment Part III, o ator Gene Kelly faz um comentário sobre a exploração do sexo nos filmes antigos, com o objetivo de aumentar a receita da bilheteria.

Logo a seguir, entretanto, a censura em Hollywood atacou prontamente, começando lá pela década de 1920, e culminando com o infame Código Hays, que atuou nos códigos de produção a partir de 1930, protagonizado pelo advogado presbiteriano William Hays, e que teve forte atuação por várias décadas.

A sexualidade humana foi desvendada em detalhes por estudiosos das ciências médicas, e é parte integrante da natureza do ser humano e dos animais em geral. Ela é também um importante componente da reprodução das espécies, governada pela presença de hormônios no plasma, que controlam o lado mental (psicológico) do comportamento das pessoas nesta direção.

A reação visual ou neurossensorial da sexualidade é portanto perfeitamente natural e intrínseca ao processo de aproximação entre casais.  A excitação que toma conta das pessoas, classificada na medicina como “libido”, é resultado, em última análise, da presença plasmática de hormônios como a testosterona, estrogênio, e de neurotransmissores. Somente com o passar dos anos a libido pode diminuir, desaparecer ou reaparecer, assunto este frequentemente debatido pelos médicos da área.

Apesar da censura, o erotismo, componente essencial da excitação sexual,  sempre esteve presente em inúmeras cenas de filmes. Tanto assim, que o Código Hays não permitia beijos prolongados na tela. Tal censura era facilmente driblada pela forma como atores e atrizes se comportavam nas tomadas de câmera.

A pornografia nas salas de cinema

Com a perda de bilheteria, os exibidores apelaram para a exibição de filmes pornográficos, ao invés de simplesmente eróticos. A pornografia implicava na exibição de cenas de sexo explícito, detalhando a genitália de quem estava na tela. Esta mudança foi um fenômeno mundial, e incentivou produtores pornógrafos e até diretores convencionais a disseminar seus filmes no parque de exibição.

Salas de cinema do Rio de Janeiro com uma outrora reputação ilibada caíram nesta armadilha, cinemas como Vitória e Rex, por exemplo, na Cinelândia. Na Tijuca, sucumbiram o América e uma das salas já divididas do Tijuca-Palace.

Neste interregno, apareceram filmes com uma alegada fama de filmes sérios, mas que continham cenas de sexo explícito. Um deles foi o filme japonês Império dos Sentidos, de 1976, supostamente baseado em uma estória verdadeira, contando que uma ex prostituta se juntou ao seu patrão, ambos obcecados em sexo, e que passaram dias em um quarto de hotel, até que ele morreu por fraqueza funcional generalizada.

Na época, o diretor afirmou que os atores toparam fazer as cenas de sexo, para expor a obsessão das pessoas ao apelo sexual sem controle. Na dita alegada estória real, depois que o parceiro morre, a mulher corta o seu pênis e sai com ele nas ruas entre as pernas, sendo vista como louca. No filme, a personagem faz o corte, mas o roteiro para por aí.

Um filme de enorme polêmica desata época foi Calígula, dirigido pelo italiano Tinto Brass, e lançado em 1979, contando o lado perverso do imperador romano. A controvérsia começou antes do filme ser lançado, porque o produtor e pornógrafo americano Bob Guccione reeditou o filme e inseriu cenas de sexo explícito.

O roteiro havia sido escrito pelo dramaturgo americano Gore Vidal e como a polêmica em torno da reedição se concretizou, ele e Brass se afastaram da autoria do filme.

Aqui cabe uma explicação médica sobre os nobres romanos: eles tinham hábito de beber vinho aquecido em recipientes de chumbo. A eluição deste elemento muito provavelmente contaminou a bebida, e deve ter sido a igualmente provável causa do comportamento louco dos imperadores romanos, como Calígula, vítima de uma intoxicação conhecida como saturnismo, que provoca degeneração mental.

O filme contou com a presença de atores de peso, como Malcolm McDowell, Peter O’Toole, Helen Mirren e Sir John Gielgud. Quer dizer, tinha tudo para dar certo, mas as reações variaram, alguns que eu conheço gostaram ou acharam exótico, outros detestaram, entre os quais eu me incluo.

Afinal, Tinto Brass era um diretor sério como dava a entender que era, ou adepto da exploração do sexo?

Vários dos filmes do diretor Tinto Brass foram restaurados no início dos anos 2000, e estão aí em DVD, Blu-Ray 2K e 4K, para quem quiser revisitar estes títulos. Os relançamentos foram feitos por um selo independente, com o nome pedante de Cult Epics.

Um desses filmes, chamado Cheeky (no Brasil, A Pervertida), passa no streaming sem cortes, para quem quiser ver. Ele conta com a então jovem e bela atriz italiana, nascida na Ucrânia, chamada Yuliya Mayarchuk, que expõe seus predicados físicos o filme todo.

A estória é banal e o roteiro medíocre: uma moça italiana vai a Londres para se estabelecer por lá, e intenciona chamar o namorado para viver com ela. À procura de um lugar onde morar, ela conhece uma corretora lésbica, sexualmente hiperativa, que propõe que as duas vivam juntas, e com quem a jovem eventualmente tem um caso, é claro.

O diretor (?) passa 99% do tempo filmando bundas e enquadrando vaginas cobertas com pelos pubianos, com os personagens se roçando uns nos outros. Parece até que esta obsessão pelas genitálias é fruto de uma mente infantil do roteirista e/ou do diretor, querendo descobrir como é o sexo feminino. Ele mesmo diretor aparece em uma cena, acariciando as partes íntimas da personagem, chega ser ridículo.

Eu li de curiosidade as reações de usuários no IMDb de quem viu o filme: alguns acharam que o é uma comédia de costumes, sugerida para voyers de sexo, enquanto outros identificaram como pornografia mesmo. Vários acharam o filme tedioso, provavelmente porque a trama é de fato inexistente e o roteiro fica restrito às aventuras sexuais da personagem.

O problema deste tipo de visualização continua de sexo no cinema é o mesmo, desde a época em que as salas de cinemas decidiram exibir pornografia: depois de um certo tempo, cansa, e as reações dos usuários do IMDb provam isso! As salas de cinema fecharam, e anos depois a Internet esvaziou a produção de filmes pornográficos no mundo todo, passando ela própria a divulgar este tipo de material.

A escolha de conduta é individual e prerrogativa de quem está crescendo

No final das contas, é a educação paterna e formal, que poderia orientar melhor os jovens nas suas fases de formação dos caracteres sexuais secundários, e sem colocar neles a sensação de qualquer indício de culpa por se sentirem sexualmente ativos. A escolha de como se comportar é direito dos adolescentes, e esta liberdade deve ser exercida sem repressão!

Quando criança, eu tive contato e amizade com duas moças, filhas de uma família conservadora, que gostavam de exibir a genitália. E daí? Ambas se tornaram adultas, inteligentes e com alta capacidade intelectual. Uma delas se tornou professora de matemática e estatística. Foi com ela que eu aprendi a construir gráficos de dados do laboratório, durante a fase de construção da minha tese de mestrado, e eu tenho até hoje uma enorme dívida e gratidão por isso.

Julgar as pessoas pelo comportamento da adolescência é um dos maiores erros que eu vi na minha vida como docente. O educador e os pais devem observar como o adolescente se torna adulto, aí sim se pode avaliar com exatidão o caráter dos educados.

Na Europa existem grupos de casais que decidiram viver uma vida celibatária, sem qualquer influência religiosa. Em entrevista de um deles para um programa de TV eles alegavam que o sexo os impedia de consumar a felicidade da vida de casal.

Isto posto, pode-se concluir que para muitos a busca da felicidade independe da vida sexual, e eu me arrisco a dizer que em casos como esses, é o companheirismo que fala mais alto. Casais que se acertam na maneira como vão viver suas vidas em comum têm certamente muito mais chance de serem felizes. [Webinsider]

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Pornografia nos cinemas de rua

 

Avatar de Paulo Roberto Elias

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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