A música cresce com a interpretação das grandes cantoras de Jazz que acabaram por transcender com suas vozes o que havia sido feito antes.
Sempre foi hábito do músico ou cantor de Jazz improvisar e até “compor” uma peça musical quando ela está sendo executada. Cabe a quem ouve ter sensibilidade para gostar ou não do que está ouvindo.
E foi assim que no início da minha adolescência eu comecei a escutar discos de Jazz e fiquei impressionado com a vocalização da cantora Ella Fitzgerald no seu disco Whisper Not. Anos depois eu tomei conhecimento de que a belíssima música título do disco foi composta por Benny Golson, e incluída, com Art Blakey e os Jazz Messengers, na trilha sonora do filme Des Femmes Disparaissent, de 1959, dirigido por Édouard Molinaro.
O que Ella Fizgerald havia feito foi o aprimoramento das vocalizações dos primeiros intérpretes vocais de Jazz que tiveram impacto na maneira de cantar este gênero de música, notadamente Bessie Smith, considerada como uma das maiores intérpretes de Blues de todos os tempos, e Louis Armstrong, que “inventou” o scat singing.
A lenda conta que Louis estava gravando e esqueceu a letra da música, mas para não parar a gravação (teria que gravar tudo de novo), ele começou a inventar sílabas desconexas, cantadas no lugar do seu instrumento. Alguns contam que isto aconteceu quando Louis, gravando Heebie Jeebies para a Okeh Records, em 1926, deixou cair a partitura no chão e aí teria começado a contar em scat singing.
Seja como for, o estilo de cantar em scat singing ficou e uma das cantoras que melhor se utilizou desta técnica foi Ella Fitzgerald. Em apresentações, a cantora dava um show de interpretação usando esta técnica, e eu dei sorte e tive o privilégio de vê-la fazer isso em 1971, quando ela se apresentou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
E o que ainda me impressionou bastante foi como Ella Fitzgerald cantava os arranjos de seus acompanhantes junto com eles. Era como se ela usasse a voz como um instrumento de sopro, por exemplo, seguindo assim a tradição dos principais músicos de Jazz. Sua voz, de generosa extensão, ora macia e sussurrante, ora vibrante e cheia de swing, de acordo com a música a ser interpretada.
A tradição e a vida das cantoras
Na época em que Ella Fitzgerald gravava para a Verve, outra cantora se destacou: Anita O’Day. Curiosamente, ela não teve a mesma publicidade e o que se comentou anos atrás era que o produtor Norman Granz era obcecado por Ella Fitzgerald, tendo deixado, digamos assim, Anita O’Day de lado. No entanto, as suas vocalizações sempre foram inspiradas. A sua parceria com o trompetista Roy Eldridge demonstrou inequivocamente que ela tinha um inegável swing na maneira de cantar, e era também versátil em improvisações.
Uma coisa triste que acompanhou algumas vocalistas de Jazz foi o abuso dos tóxicos, como drogas e álcool, mas é possível entender o que se passou, diante das suas vidas pregressas e a sensibilidade de espírito ao interpretar músicas amparadas no Blues. Anita O’Day foi viciada em heroína, o que lhe prejudicou muito a sua vida, mas ainda pior foi o caso da icônica Billie Holliday, uma das maiores cantoras de Jazz, que morreu muito cedo.
Billie teve uma infância e adolescência horríveis. Para sobreviver, chegou a se prostituir e nunca foi capaz de viver depois uma vida emocionalmente equilibrada. Sua última gravação antes de morrer é simplesmente dura de ouvir. Dizem que ela havia começado a se recuperar das drogas, mas teria entrado alcoolizada no estúdio. Dá para perceber que a sua voz não está normal, ainda mais quando comparada às suas magistrais vocalizações dos discos anteriores. Billie Hollyday sempre demonstrou revolta com o racismo que os negros sofreram na América, Sua música Strange Fruit se refere aos linchamentos e enforcamentos em árvores dos negros discriminados:
Billie Holliday sempre teve uma voz encantadora, com um sotaque sofisticado e envolvente. A sua perda prematura foi um duro golpe para a música e para os seus fãs.
Por outro lado, Sarah Vaughan teve uma vida musical intensa e se completou com vários estilos de Jazz, ao se juntar com músicos de vanguarda. Juntou-se também com músicos e compositores brasileiros, e a sua passagem pelo Rio de Janeiro está registrada nos discos gravados por aqui.
A propósito, Ella e Sarah parece que interagiram com o ambiente carioca. Há relatos de que Ella teria ido ao Beco das Garrafas, local onde várias casas noturnas abrigavam músicos que tocavam Jazz e naturalmente Bossa Nova. A sua passagem por lá foi para conhecer Dolores Duran, lá pelos idos da década de 1950.
Aliás, Dionne Warwick também esteve nas paragens cariocas, tendo morado por aqui algum tempo. Segundo soube anos atrás, ela morou no bairro do Jardim Botânico parece que por cerca de 15 anos, mas isso aconteceu na década de 1990, e como era cantora popular, os seus contatos e gravações foram feitos com parceiros brasileiros do seu gênero musical.
Eu aprendi que cada um ouve o que gosta. A experiência auditiva com interpretações vocais sempre me atraiu, seja no Jazz ou na música popular. Há sempre algo de mágico quando se ouve alguém ou um grupo cantar, motivo talvez um dos mais importantes que motivaram o público ao assistir peças e filmes musicais. Bons técnicos de gravação do passado se esforçaram para capturar vocais que pudessem resistir ao tempo, e quem gosta de música será sempre muito grato. [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.









