DVD-Audio, um formato que poderia ter dado certo

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O DVD-Audio, formato em PCM de alta resolução, desapareceu das prateleiras, e deixou um vácuo entre usuários aficionados.

O DVD-Audio, formato em PCM de alta resolução, desapareceu das prateleiras, e deixou um vácuo entre usuários aficionados.

 

No final dos anos de 1990, a indústria de áudio procurou estabelecer formatos em disco capazes de reproduzir som de alta resolução. Em meados de 1999, Philips e Sony se uniram para lançar o Super Audio CD, que aproveitou a mídia DVD para armazenar o DSD, um tipo de áudio digital que usa a modulação delta-sigma, uma novidade na época.

No ano seguinte, o DVD Forum introduziu no mercado o DVD-Audio, formato baseado no PCM de alta resolução, mas capaz de armazenar qualquer tipo de PCM.

Esses dois formatos bateram de frente um contra o outro, e tiveram, como têm até hoje, vantagens e desvantagens. Por causa disso, foi desencadeado um debate sobre qual dos discos era melhor. Muitos criticaram o DSD porque ele se baseia na amostragem de apenas 1 bit, dizendo que ela não seria suficiente para um áudio de alta resolução. Enquanto outros criticaram o PCM, por exigir métodos de filtragem nem sempre eficientes. Na prática, nenhum dos debatedores tinha razão, e isto só ficou até desprezível quando começou aquela conversa de que “o DSD tem um som mais próximo do analógico, e portanto soa melhor do que o PCM”…

Toda esta discussão inútil, que nunca levou a lugar nenhum, acabou perdendo o sentido, porque ambos os formatos foram paulatinamente abandonados para venda no mercado de áudio. No caso do SACD, o abandono não foi completo, felizmente, continuando a ser vendido em sites especializados.

A quase extinção do uso doméstico do DVD-Audio

O DVD-Audio sofreu um baque bem maior: até certo tempo atrás, porque o formato podia ser utilizado pelo usuário doméstico, usando programas de autoração, como o HD Audio Solo Ultra, da Cirlinca, ou o DVD-Audio Creator, da Sonic, que foram ambos descontinuados.

A propósito: eu comprei o programa da Cirlinca anos atrás, para autorar downloads de alta resolução em disco, ao invés de reproduzir por drives em outros aparelhos. Ao rodar o programa ele procurava um servidor, que atualizava a versão em uso e ao mesmo tempo verificava se o programa era legítimo pós fase de experiência.

Sem aviso prévio, a Cirlinca fechou as portas, deu adeus a todo mundo, e eu li na Internet que houve gente que comprou a chave de instalação e não a recebeu, quer dizer, venderam e não entregaram!

No meu caso, eu ainda consigo rodar o aplicativo, mas volta e meia ele me pede para inserir a chave de novo, ou seja, caiu em um loop de programação que não acha mais o tal servidor. Com a evolução do Windows o programa não tem mais acesso ao drive ótico, mas, por sorte, ainda permite montar um arquivo ISO com o projeto, que me deixa montar um DVD-Audio.

Estrutura e reprodução

O DVD-Audio usa a mesma árvore de diretório do DVD-Video. O subdiretório chamado AUDIO_TS contém os arquivos que serão lidos pelo reprodutor do disco:

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Em um DVD-Video este diretório encontra-se vazio. Nas autorações profissionais de DVD-Audio usa-se um algoritmo de compressão criado pela Meridian, o MLP, ou Meridian Lossless Packing, ou seja, PCM comprimido sem perda.

O MLP é normalmente usado em gravações 5.1, de até 96 kHz de amostragem, a 24 bits. Se o programa de áudio for superior, digamos, 192 kHz e 24 bits, o áudio será necessariamente de apenas 2 canais. O MLP ainda está em uso, porque ele é a base do Dolby TrueHD, usado no Blu-Ray;

A reprodução de um DVD-Audio exige um player de mesa com capacidade de ler o AUDIO_TS, e de preferência com saída HDMI. Se isto não for possível, o reprodutor irá ler o subdiretório VIDEO_TS, que poderá conter o mesmo programa de música em Dolby Digital ou DTS. Como disco híbrido, o DVD-Audio é compatível com qualquer leitor de DVD ou Blu-Ray.

A reprodução por um computador exige um programa também capaz de ler o mesmo subdiretório AUDIO_TS. Eu uso o tradicional foobar2000, com uma extensão para fazer esta leitura:

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Na figura acima pode-se ver o foobar2000 em funcionamento, tocando um “sampler” (mostruário), do disco promocional da DTS, que eu ganhei de um conhecido que trabalhava em um estúdio de gravação. O codec usado é o MLP (PCM) 5.1 canais de 48 kHz a 24 bits.

Qualidade do áudio

Eu aprendi que não há formato de áudio digital que supere uma autoração de baixa qualidade. Discos bem autorados, mesmo o CD, que trabalha em 44.1 kHz e 16 bits, irão soar muito bem para um audiófilo que não tenha preconceito contra o PCM.

O DVD-Audio expande esta qualidade para até 5.1 canais de alta resolução. Usuários que criticam o som digital, seja estéreo ou multicanal, não se atentam para um importante detalhe do ambiente digital: não há correlação entre frequência e amplitude do áudio gravado. Na prática, significa que é preciso usar uma cadeia de amplificação com dinâmica elevada, propiciada por equipamento com maior potência e com “slew rate” o mais baixo possível. Tal equipamento evitará a distorção do sinal de áudio por clipping da onda.

Além disso, é conveniente passar toda a cadeia digital neste ambiente. Isto hoje é perfeitamente possível em reprodutores e receivers. O recurso é chamado de “pure audio” ou simplesmente “pure”, às vezes “direct”. Qualquer sinal digital, mesmo de um CD, deve usar este modo.

Eu já observei que nem todo mundo conhece esses detalhes. Outro dia, um vídeo do YouTube me mostrou um audiófilo frustrado e confuso com a reprodução de um SACD, e se confessou sem experiência no assunto. O SACD como formato fez parte de vários reprodutores de mesa muito antes do Blu-Ray ser lançado, mas estes players têm várias limitações: eles não são capazes de reproduzir o sinal do DSD sem antes convertê-lo a PCM. Em tese, isso não seria problema, mas os decodificadores daquela época deixavam muito a desejar. Há vários anos, é possível ler e transmitir o DSD puro para um decodificador externo mais moderno. Na realidade, esta é, na minha opinião, o melhor método atual de reprodução.

Seja o DVD-Audio (PCM) ou o SACD (DSD) a qualidade do áudio será sempre superior ao de outras mídias ou formatos. O usuário que quiser fazer uso destes tipos de disco terão que buscar um player do tipo “universal”. Após a Oppo Digital ter parado de fabricar os seus leitores de Blu-Ray, vários fabricantes lançaram clones dos últimos modelos da Oppo. O inconveniente é o preço elevado no mercado. A Sony tem um modelo um pouco mais em conta, o UDP-X800M2, mas o aparelho exige a tela da TV ligada para se escolher a mídia e as faixas, o remoto é tosco e o display frontal está ausente, um vexame desnecessário!

O mercado ainda vende DVD-Audio, mas também a preços nada convidativos. O SACD se safa, dependendo do site, como, por exemplo, o Dutton Vocalion, que faz discos quadrafônicos em SACD, de excelente nível.

Em termos absolutos, o DVD-Audio morreu completamente, embora ainda haja muita gente fazendo uso dele. Trata-se de uma mídia copiável, item útil para fazer backup da coleção. O SACD não permite fazer cópia, embora muitos usuários tenham usado alternativas em vídeo games da Sony, com o nome de SACD-R, que já não é mais DSD.

Existem também vários sites que vendem downloads de DSD, copiáveis para um drive USB ou servidor de mídia. Muitos reprodutores de mesa no mercado tocam estes arquivos, e o usuário só tem que tomar cuidado com o formato oferecido antes de baixar o que quer ouvir. [Webinsider]

 

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O assassinato do áudio de alta resolução

Em busca do som perfeito

Avatar de Paulo Roberto Elias

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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2 respostas

  1. Tem coisas que não entendo, por mais que me esforce: porque existe um mercado de vinil aparentemente crescente, se quaisquer gravações hoje são feitas em daws com alta resolução? Como pode alguém afirmar que o som “ analógico “ é melhor se o processamento é todo digital antes da prensagem? E ainda, porque revistas conceituadas como What Hi Fi, insistem em fazer reviews e propagar toca discos analógicos? Neste mar, coitado do CD, o que dirá de PCM e DSD de alta resolução.

    1. Oi, Felipe,

      Existem pessoas, inclusive na mídia, que mão têm responsabilidade e/ou caráter por aquilo que afirmam, pouco importa quem vai digerir a bobagem sem base do que é escrito ou dito. Por causa disso, inclusive, muita gente leiga no assunto acredita no que lê, construindo mitos e preconceitos! P preconceito contra CD’s existe desde antes dele ser lançado, acredite se quiser.

      Na década de 1980 achava-se elepês masterizados com gravações digitais. Depois que o CD foi lançado teve gente na mídia dizendo que o som digital no elepê era melhor do que no CD. Essa gente acho que nunca se deu conta de que as masters usadas para cortar elepê são propositalmente ajustadas para o corte, que tem limitações de resposta de frequência, quer dizer, o som do elepê era, e sempre foi, uma aproximação do som do estúdio. E ninguém nota!

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