Vinil ou CD? Válvula ou transistor? As discussões e brigas em assuntos de áudio perduram até hoje no ambiente digital.
Desde tempos imemoriais, eu vejo, leio e ouço todo tipo de disputa nas preferências e gostos dos formatos de áudio, em alguns casos debaixo de brigas e xingamentos! Eu ainda me lembro do sarcasmo de usuários em disputa de opiniões classificando outros com o termo “ouvidos de ouro”.
Com o advento da Internet os fóruns de usuários começaram a ser povoados por usuários deste tipo, obrigando muitas vezes a criação e posterior intervenção de administradores, para poder apartar as brigas! Foi uma mudança de clima desagradável, porque antes o fórum era apenas um lugar de compartilhamento de experiências no campo do áudio.
O curioso dessas disputas é que frequentemente não há espaço para que os contendores admitam que um ou outro possa ter razão. E pior ainda: eles brigam, mas não entendem de anatomia e/ou de física o suficiente para entender as razões para o gosto auditivo de cada um.
Algumas das principais razões das brigas
Sem entrar em muitos detalhes e pormenores, eu passo a elencar algumas dessas disputas, sem ordem cronológica:
1 – válvulas versus transistores
A criação e aplicação de transistores na eletrônica tradicional foi um passo importante para a modernização dos circuitos. Um dos seus principais aspectos de funcionamento foi a alta capacidade de trabalhar com correntes elevadas, com a vantagem de ser um componente menor, mais durável, mais econômico, e dissipando muito menos calor do que as válvulas.
Foi por causa disso que os japoneses tomaram a iniciativa de usar transistores em equipamentos portáteis. Quem da minha geração não sonhou ter um rádio de pilha transistorizado, só para ouvir as músicas do momento?
Inevitavelmente, o transistor passou a ser usado em amplificadores de áudio, mas não sob protestos de muita gente. O principal argumento contra este uso foi o de que o “som” do transistor era frio e áspero, uma vez comparado com o da válvula que erra “quente e macio” (palavras muito usadas nesta época).
Mas, válvulas, ao contrário dos transistores, queimavam ou ficavam gastas com o tempo de uso. Eu perdi a conta de quantas vezes eu troquei o par de EL84, para “consertar” a saída de áudio da vitrola Telefunken lá de casa. Apenas uma vez, um senhor alemão que conheci me afirmou e provou que as válvulas davam problemas por causa dos capacitores usados naqueles circuitos. Eu deixei o amplificador da vitrola com ele, e depois de trocados todos os capacitores que ele julgava prejudiciais nunca mais precisei trocar as EL84. A propósito, essas válvulas vendem até hoje. Eis aí a imagem do par à venda por um fabricante atual, ao lado das EL84 Miniwatt (Philips) que eu comprava, vendidas no Mercado Livre:
Sem querer tomar partido nesta discussão eu diria que o som da válvula é, de fato, muito agradável, mas infelizmente ela apresenta uma distorção harmônica considerável. Nos meus últimos anos de convivência com audiófilos eu ouvi na casa deles amplificadores a válvula, todos absurdamente caros, mas eles nunca abriram mão do som que ouviam!
2 – transistor versus circuito integrado
O transistor foi o ponto de partida para criação dos circuitos integrados, na forma de pastilhas, depois conhecidas como microchips. A principal aplicação deste tipo de circuito é o da integração dos diversos componentes eletrônicos, fazendo com que as placas de circuitos se tornassem menores e mais eficientes, com considerável poupança de espaço.
Placas com transistores passaram a ser classificadas como de componentes “discretos”, ou seja, não integrados. As aplicações de componentes discretos hoje em dia é óbvia, principalmente nos estágios de saída dos amplificadores, ainda mais com o aperfeiçoamento deste tipo de componente. Enquanto os circuitos integrados foram projetados cada vez mais de forma sofisticada, formando a base da eletrônica moderna. Mas, no início desta integração, choveram críticas!
3 – CD versus elepê
Esta discussão acalorada começou para valer na década de 1980, quando o CD foi lançado, e ela dura até hoje. Antes disso, o áudio digital usado para masterizar elepês era tolerado por quem depois condenou o som digital, uma incongruência nunca explicada. Chegaram a dizer que o som digital no elepê era muito melhor do que o ouvido no CD, deixando a entender que o elepê “domava” a má qualidade do som digital, tornando-o mais “macio”. O gozado é que nenhum argumento técnico é lançado nesta discussão. As opiniões são puramente subjetivas.
Críticos europeus taxaram o CD de “mid-fi”, outros diziam que ele não conseguia reproduzir harmônicos. Mas, a maioria dizia que o som do CD era “frio” e o do elepê “macio e quente”, o mesmo argumento usado na briga “válvula versus transistor” décadas atrás.
4 – SACD (DSD) versus DVD-Audio (PCM)
SACD e DVD-Audio foram lançados mais ou menos na mesma época, circa 1999 e 2000, respectivamente. A promessa de ambos era a reprodução do som digital de alta resolução,
E pela enésima vez, os mesmos argumentos rapidamente reapareceram: o som do SACD era quase idêntico ao analógico, quer dizer, se aproximava do elepê, enquanto o DVD-Audio tinha os mesmos “defeitos” do som do CD.
Críticos do DSD partiram do princípio que o codec é amparado em um erro provocado pela amostragem de apenas 1 bit, implicando em uma suposta baixa resolução da onda musical.
Este tipo de argumento ignora completamente o processo de amostragem do DSD. Cada bit é parte de uma sequência que acompanha a onda senoidal, em uma velocidade de 2.8224 MHz, aproximadamente 64 vezes a amostragem do CD (44.1 kHz).
O PCM, por seu lado, admite taxas de amostragem elevadas, podendo chegar até 192 kHz na mídia ótica convencional. Se isto não é alta resolução, então eu não sei o que é!
Na prática, o que eu vejo frequentemente é o fator de durabilidade da mídia: eu tenho mais de um SACD que parou de tocar , parcial ou totalmente: Abaixo eu mostro a varredura de superfície do disco “Twenty Songs Of The Century”, do compositor Michel Legrand, edição quadrafônica Vocalion, com 100% de trilhas com danos físicos:
Notem que este exame não é preciso, porque o programa reconhece o disco como CD, mas a varredura indica falha na superfície da mídia, coerente com a ausência de leitura do DSD.
O disco da Vocalion é híbrido, isto é, SACD e CD em camadas diferentes. A do CD ainda toca, verificada na ilustração abaixo polo Foobar 2000:
Um dos graves problemas do SACD é que, embora fisicamente ele seja um DVD, o conteúdo de DSD não pode ser copiado. Hackers já fizeram isso, mas o usuário comum não tem ferramentas para fazê-lo. Quer dizer, se der defeito na mídia, como mostrado acima, a única solução é comprar outro disco!
Já no DVD-Audio a situação é completamente diferente. Tentou-se colocar uma proteção de cópia no início, mas poucas gravadoras aderiram. Como se trata de um DVD fisicamente igual a qualquer outro, a cópia do disco pode ser feita em qualquer computador.
Além disso, para quem coleciona discos, programas de autoração disponíveis no passado distante permitiram a montagem de downloads de alta resolução, estéreo ou multicanal, em um DVD-R. Infelizmente, estes programas foram descontinuados, e a mídia prensada idem.
Eu ainda rodo o programa de autoração HD Audio Solo Ultra da Cirlinca, mas sou obrigado a inserir a chave de autorização a todo momento, que nunca é registrada, porque o servidor da Cirlinca está inoperante há anos. Além disso, o programa só me deixa montar um arquivo ISO, e olhe lá.
Bem, coincidência ou não, nenhum DVD-Audio da minha coleção deixou de tocar, seja mídia prensada ou gravável;
Discussões inúteis e/ou que não levam a canto algum
Às vezes, eu me pergunto porque essas brigas e discussões continuam existindo online. Já assisti vídeos do YouTube com opiniões impostas a quem vê, que evidenciam ignorância no assunto. Então, só vão influenciar quem não sabe o que essas pessoas estão afirmando.
Salvo melhor juízo, o que está por trás de tudo isso chama-se egocentrismo. Existem profissões, e eu conheço várias delas, onde este tipo de conduta é prevalecente. Mas, em áudio, chega a ser ridículo. Um amigo meu me contava as brigas entre audiófilos que ele presenciava, em torno de cápsulas e agulhas ou cabos de ligação. A imprensa de áudio também estimulava isso, com análises suspeitas de tudo quanto é tipo, por vezes, contestadas pela própria revista, fazendo testes cegos em torno do equipamento considerado superior.
Quem se envolve em discussões que nunca chegam a conclusão alguma se esquece que o mais importante é ouvir música e não o equipamento. Este fica para os momentos de ajustes e configurações que permitam ser obtido o melhor som possível. A eletrônica digital de hoje permite fazer isso a contento, só não usa quem não quer! [Webinsider]
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Trilhas sonoras de filmes antigos rejuvenescidas pela remixagem
Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.













2 respostas
Olá Paulo diante da tamanha polêmica e controvérsia, e “respeitando o contraditório”, defendo que no atual degrau da tecnologia, o áudio analógico ainda oferece vantagem no quesito sonoridade e profusão sonora.
Esse raciocínio pode ser visualizado através de um ensaio técnico em laboratório de áudio, utilizando um gerador de frequências a um dispositivo de armazenamento ou gravador conectado e um osciloscópio.
Se gerarmos uma vasta gama de frequências e gravar esses sinais em um dispositivo de armazenamento digital, ao reproduzir essas frequências, iremos visualizar na tela do osciloscópio as frequência em ondas de forma quadradas.
Mas caso realizarmos essa mesma gravação em um dispositivo analógico magnético, as visualização das ondas no osciloscópio serão na forma senoidal .
Resumido; no armazenamento e reprodução no formato digital, há perdas (por mínimas que sejam), mas no analógico não existe visualmente nenhuma perda no sinal.
Mas como dizem, os técnicos veem a materialização da sua teoria, diferente dos ouvintes que tem percepções diferentes…
Um abraço.
Oi, Rogério, obrigado pela contribuição. Não me lembrava mais dessa estória da onda quadrada no osciloscópio. Um conhecido meu, audiófilo já falecido, me contou uma vez que ouviu de outro audiófilo conhecido dele que ele conseguia ouvir o picotado do som digital. No entanto, esse meu conhecido ignorou o comentário e abraçou o CD totalmente. Um detalhe: ele só ouvia música erudita.
Lembro a você, entretanto, as razões pelas quais a indústria fonográfica se afastou daqueles incríveis decks Studer nos estúdios: no ambiente digital não existe correlação entre frequência e amplitude. Além disso, não existe flutter, wow ou crosstalk.
Foi uma pena ver as Studers aposentadas, e depois ver a própria derrocada dos principais estúdios.