Funciona assim: o código IF pergunta se alguma condição é falsa ou verdadeira; THEN determina o que fazer se ela for verdadeira. Se não for, ELSE que determina o que fazer.
O início do uso dos primeiros microcomputadores na década de 1980 já era acompanhado de aplicativos de diversos tipos, entre eles processadores de texto, planilhas, bancos de dados, etc.
Porém, no que tange a aprender informática mesmo, a única saída era aprender a programar. Em 1984, o Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ abriu o primeiro curso para ensinar Basic, destinado os professores, e eu me inscrevi. Muitos dos futuros alunos já tinham ouvido falar da novidade, outros já tinham importado clandestinamente, por meio de terceiros, um microcomputador americano. Um dos colegas do curso disse que tinha um Apple II, para inveja do resto da turma.
Um colega do Instituto de Matemática da UFRJ foi quem ministrou aquele curso. Quando ele falou que seriam pedidos três trabalhos e uma prova, para o aluno ser aprovado, a decepção foi geral, porque, com exceções, professores detestam fazer prova ou sentar para assistir aula, eu então nem se fala. Quando a primeira aula acabou, uma turma do Instituto de Nutrição, sentada na minha frente, disse que iria desistir. Uma ex-aluna virou-se para mim e falou que nunca ia aprender aquilo. Eu tentei convencê-la de não desistir, mas foi em vão. A debandada foi geral.
Na realidade, nem o colega professor daquele curso sabia tudo do assunto, e, na base da brincadeira com os poucos que sobraram na sala de aula, que passou de quase cem para uns vinte professores, ele dizia que era bom testar a programação que ele escrevia, quando estivéssemos no laboratório, para ver se funcionava!
O curso era em Basic sim, mas o conteúdo era muito mais abrangente. O CP/M era o sistema operacional dominante, e nós alunos éramos obrigados a aprendê-lo. O NCE tinha montado computadores de 8 bits rodando CP/M com drives de discos flexíveis de 8 polegadas. O tempo oferecido no laboratório foi de uma hora apenas. Para quem, como nós, nunca tinha usado um teclado daqueles ou sabia editar um programa, uma hora passava rápido. A turma exigiu duas horas, o que nos foi concedido debaixo de muita pressão.
Dentro do laboratório, os monitores eram solícitos, mas escondiam o jogo ou não sabiam responder. Quando eu fui usar o meu primeiro (e único) disquete, um deles me disse que eu não podia usar sem antes formatar. E quando eu perguntei o que era “formatar” ele me diz que era preciso “escrever um programa”, antes do primeiro uso.
O autodidatismo
Ao longo dos meus primeiros anos tentando aprender o pouco que me ensinaram naquele curso do NCE, eu conheci dois tipos de pessoas: uma, que tinha noções além do básico, mas quando lhe pediam ajuda, complicava propositalmente a explicação, e outra, que queria de fato se aprofundar no assunto e compartilhava tudo que aprendia.
Nas visitas nas lojas que vendiam software eu encontrei todo tipo de usuário. E houve época em que o telefone lá de casa não parava, principalmente depois que publiquei um artigo na MSX Micro, revista da Gradiente.
Eu perdi a conta do tempo e do esforço que me custou para entender melhor com o quê eu estava lidando. Sem muita grana para gastar, eu só consegui comprar um MSX Expert depois que a Gradiente fez uma promoção de venda em 10 vezes sem juros!
Durante anos a informática se resumiu a uma caixa preta. Havia escassez de livros didáticos, que poderiam ter propiciado um aprendizado mais rápido para os interessados daquele assunto.
Do meu lado, o esforço compensou: eu deixei de ser um neófito, aprendi direito o que era “formatação”, a programar algoritmos mais sofisticados, e a vislumbrar o que era possível fazer para garantir o controle dos dados obtidos no laboratório de pesquisa.
Os pacotes em Basic
Com a ajuda de um colega, com quem trabalhei anos em uma pesquisa complexa, eu programei alguns testes de estatística em Basic. Esta linguagem de programação fora criado no Dartmouth College, em 1964. A intenção dos seus criadores era a de criar uma linguagem de programação de alto nível, usando palavras que pudessem estar próximas da linguagem de cada um, objetivando ajudar estudantes e estimulá-los a escrever programas. O nome BASIC é um acrônimo de “Beginner’s All-purpose Symbolic Instruction Code”.
Os computadores da época vinham com o Basic gravado em ROM e prontamente utilizável logo na partida do sistema. Então, eu usei o MSX-Basic para aprender mais e escrever alguma coisa que fosse útil no laboratório.
Eu já havia escrito um programa para o cálculo de regressão linear, mas em linguagem primitiva, para analisar as curvas de calibração dos métodos espectrofotométricos, e ajudar a determinar as concentrações desconhecidas de substâncias pelos métodos utilizados. Com o Basic, a criação deste tipo de programa foi imensamente facilitada, porque cada código era escrito em uma linguagem acessível.
O resultado do cálculo obtido atingia níveis de precisão elevados, mesmo em uma plataforma de 8 bits. Quando, já morando em Cardiff, e precisando enfrentar a árdua tese de doutorado, eu aproveitei o programa em Basic, e aumentei os algoritmos de cálculos de estatística, agora usando o GW-Basic, em 16 bits.
Algumas linhas de programação tiveram que ser alteradas, porque se tornaram inúteis. Uma linha contendo a mensagem “Aguarde”, por exemplo, tinha sentido no 8 bits, mas em 16 bits ela nunca aparecia na tela!
O GW-Basic era muito mais poderoso em termos de recursos, permitindo reescrever as rotinas originais, em formas mais elaboradas. O programa original em MSX-Basic foi muito útil, principalmente feito em uma época em que programas de estatística não estavam ao meu alcance. Estes ganharam uma força enorme na década de 1990, mas, por incrível que pareça, o meu humilde pacote continuou a ser usado no laboratório, porque a sua simplicidade nos permitia colocá-lo em um disquete de 3 ½” e levá-lo a outros laboratórios, para conferir, por exemplo, as curvas de calibração de uma dada dosagem.
Escrever um programa teve para mim o grande apelo do aprendizado do raciocínio lógico. Notem que muitas pessoas já nascem com uma maior facilidade de raciocinar desta maneira, e geralmente irão seguir carreiras técnicas. Claramente, não era o meu caso, mas a informática é toda ela baseada no raciocínio lógico, que a gente aprende escrevendo algum programa.
Um dos recursos fascinantes usados em programação é o de testar a existência ou não de variáveis ou condições operacionais. O algoritmo funciona assim: o código IF faz a pergunta se alguma condição é falsa ou verdadeira, e o código THEN determina o que fazer se ela for verdadeira. Se não for, então é o código ELSE que determina o que fazer.
Pesquisando os meus alfarrábios, eu achei os códigos do meu último pacote de estatística, terminado em 1992, já com as mensagens escritas em inglês, e transcrevo abaixo uma das linhas:
IF ERR = 71 OR ERR = 72 THEN CLOSE #2: PRINT : PRINT “Current disk or drive has a problem”: GOSUB 270: IF S1 = 1 THEN S1 = 0: CLS : RESUME 110 ELSE IF o$ = “1” THEN RESUME 4070 ELSE RESUME 4370
Eu fiz questão de sublinhar os comandos IF, THEN e ELSE, que determinam se uma dada condição é encontrada, neste caso um erro operacional encontrado na hora de ler ou salvar um arquivo em um drive com problemas.
Tudo tem importância na sua época
Eu não tenho dúvida de que esforços no aprendizado e domínio de qualquer assunto são úteis para o resto das nossas vidas. Por isso, a informática ocupou um espaço importante na lógica de raciocínio que eu nunca tive.
Porém, o tempo passa e tudo que era importante em um dado momento acaba ficando para trás. Olhando hoje um programa escrito em 1992, fica até difícil lembrar como aquilo tudo foi conseguido. Aquilo que era fácil naquela época, ficou impossível de ser feito hoje.
Além disso, a programação para pessoas como eu perdeu completamente o sentido, ao longo do tempo, inclusive porque programas sofisticados se tornaram prontamente disponíveis. Os últimos programas que eu escrevi, em Basic e em dBase IV, foram escritos para o meu trabalho de tese, e o escrito nesta última linguagem posteriormente abandonado.
O aprendizado da informática nas décadas e 1970 e 1980 exigia muito esforço de quem não era da área. A entrada em cena dos sistemas operacionais gráficos mudou tudo isso, e quem aprendeu a usar um computador depois dessa época não tinha noção do que era, por exemplo, “salvar um arquivo”. Isso eu vi várias vezes, lidando com alunos de graduação dentro do laboratório. Em alguns casos, eu fui obrigado a descrever como um computador funciona.
Hoje, com o uso sistemático dos novos telefones celulares, o usuário não sabe que tem um computador nas mãos, rodando um sistema operacional, que passa transparente a quem usa.
E quando hoje se fala em Inteligência Artificial, eu aposto que a maioria das pessoas não tem a mínima noção do que é isso. No entanto, ela está presente em diversos tipos de aparelhos de uso comum, como, por exemplo, uma televisão do tipo Smart, que quase todo mundo tem em casa.
Existem exceções ao abandono da programação pessoal: quem trabalha com sistemas de interface gráfica baseada em Linux pode se dar ao luxo de voltar aos alfarrábios e voltar a programar como antigamente. O usuário que não programa não precisa fazer isso, mas existem sistemas operacionais baseados em Linux que são dedicados a desenvolvedores.
O conhecimento de qualquer assunto é um dos maiores benefícios que um ser humano pode conquistar. Nada do que passou perde a sua importância, pelo contrário.
O meu antigo professor de Física do colégio dizia que “entre dois malandros, mais malandro é aquele que sabe Fisica”, e ele tinha razão! [Webinsider]
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Paulo Roberto Elias
Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.










