Ward Swingle foi um estudioso e músico, que fez parte do conjunto vocal Les Double Six de Paris e fundou o Les Swingle Singers, que aproxima Bach da criação do Jazz.

Ward Swingle foi um estudioso e músico, que fez parte do conjunto vocal Les Double Six de Paris e fundou o Les Swingle Singers, que aproxima Bach da criação do Jazz.

 

Durante um período da minha vida como ouvinte de discos de Jazz foi difícil não tomar conhecimento dos avanços que aquela música sofrera, mas principalmente da criação e do processo evolutivo pelos quais o Jazz e seus músicos passaram.

Ward Swingle foi um estudioso que participou desta evolução. Por volta de 1959 ele estava na França com uma bolsa de estudos e acabou se juntando a um grupo vocal formado pela igualmente estudiosa Mimi Perrin, que se dedicara ao estilo Vocalese, que era interpretar músicas, no caso standards de Jazz, com scat singing e/ou com letras que lhes permitisse cantar os arranjos instrumentais. O grupo chamou-se Les Double Six de Paris. Abaixo, compartilho um raro clip com o grupo, disposto no YouTube:

O Double Six teve uma presença destacada na década de 1960, interpretando Bebop, gravando inclusive com Dizzy Gillespie temas deste repertório.

Mas, Ward Swingle não parou por aí, e em 1962 ele organizou e fundou um novo grupo com características vocais semelhantes, o Les Swingle Singers, com o objetivo de interpretar Bach, com arranjos jazzificados.

Foi neste momento, com o disco Jazz Sebastien Bach, gravado pela Philips, que eu ouvi pela primeira vez o Swingle Singers.

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O disco Jazz Sebastien Bach teve sequências, inclusive do disco original, gravadas pela Philips na França. No YouTube é possível ver uma sessão de gravação inglesa, com o grupo, no mesmo tema. Não há créditos no vídeo, mas é possível que a sessão tenha sido feita para a TV local:

As gravações da música de Bach para mim nunca soaram bem, seja em elepê (mono ou estéreo) ou CD (estéreo). A vocalização em uníssono está muito distante e sem foco, exceto em alguns momentos dos arranjos. A falta de destaque é completada pela gravação da base (contrabaixo e bateria) muito distante, tão ao fundo que quase não se percebe os músicos trocando.

A alegada influência de Bach na criação do Jazz

Na década de 1960 eu ainda não sabia que os teóricos especializados no estudo do Jazz haviam sugerido que Bach teria sido o precursor da estrutura musical do que iria depois se chamar Jazz. Eu li sobre isso em uma publicação europeia cujo título não me lembro mais. Achei a teoria interessante e não desprovida de base, principalmente porque New Orleans fazia parte de uma antiga possessão francesa, e era um lugar onde se divulgava música erudita, que bem poderia ter influenciado os primeiros músicos de Jazz.

Não só scholars defenderam esta ideia, mas músicos também, como, por exemplo, Jaques Loussier, com uma série de discos com o título Play Bach, gravados com interpretações de Bach nesta direção.

Outro grupo que mesclou Jazz com música erudita foi o icônico The Modern Jazz Quartet, inclusive gravando o disco Place Vendôme, com o Swingle Singers.

O termo “moderno” acompanhou e rotulou outros grupos vocais., que cantaram com o scat singing. E fizeram parte de várias trilhas sonoras de filmes, europeus e americanos.

O movimento de músicos de Jazz em direção à música erudita me chamou a atenção para o fato de que não há nada de errado quando um gênero ou estilo de música influencia outro!

No entanto, me choca até hoje lembrar que, quando na minha adolescência, eu lia nas páginas dos jornais e ouvia exegetas de música brasileira reclamar da influência de “música estrangeira” no samba, especificamente do Jazz na Bossa Nova.

No fundo de tudo isso paira o atraso intelectual e a falta de visão de pesquisadores e críticos, que deveriam ter aberto os ouvidos e não conseguiram.

Ward Swingle fez o oposto. E as suas iniciativas de redescobrir as raízes da música erudita no Jazz se mostraram frutíferas. O Swingle Singers sobrevive até hoje, com diferentes formações, diga-se de passagem, merecidamente! [Webinsider]

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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