Porque a segunda guerra mundial continua gerando tanta polêmica

A segunda guerra mundial mostrada pelo cinema

A segunda guerra mundial ainda é tema constante de historiadores e schollars. Existem perguntas sobre o assunto não totalmente elucidadas ou respondidas.

 

A segunda guerra mundial foi tema de muitas aulas de história da minha época de colégio, mas, no entanto, nenhum de nós alunos tinha a necessária maturidade para entender o porquê da segunda guerra ter ocorrido com a violência que a caracterizou.

Hoje, eu posso dizer com convicção que lições de vida deveriam ter sido aprendidas depois do término daquele evento, mas, aparentemente, não foram.

Pior ainda: é quase impossível, apesar das incontáveis analises de scholars, historiadores e analistas, entender porque uma figura anteriormente inexpressiva como Adolf Hitler conseguiu se tornar um dos maiores líderes carismáticos da história mundial, capaz de levar multidões ao delírio coletivo. Hitler chegou a ser visto como um representante divino, cuja missão seria a de levar a Alemanha e a sua  raça para o lugar onde mereciam estar.

As teorias que explicam algumas razões da guerra

Parece ser consenso que a derrota e a humilhação sofrida pela Alemanha após o término da primeira guerra mundial, motivada principalmente por motivos políticos, foi o principal motivo para o sentimento de revanche que tomou conta daqueles alemães que sobreviveram depois que aquela guerra acabou.

Também é consenso que uma das coisas que Hitler fez foi determinar quem eram os culpados por aquela humilhação. Aliás, este foi o tema do filme de Ingmar Bergman “O Ovo Da Serpente”, de 1977. O filme sugere o que depois se tornou óbvio: os culpados pela humilhação foram os judeus e os comunistas!

A segunda guerra foi extensamente filmada. Tudo faz crer que Hitler era capaz de fazer discursos inflamados que fizeram as multidões acreditarem que tudo o que ele dizia era verdade. O irônico disso tudo foi que para chegar ao poder o partido nazista recorreu a recursos democráticos, através de eleições. Mas, depois, com manobras sutis, e com o poder que coube ao chanceler que Hitler se tornou, foi possível tornar aquele início de democracia em uma ditadura feroz, onde quem discordasse era preso e mandado aos campos de concentração!

A prepotência, a vaidade e a falta de bom senso que cercam os poderosos

Se existe uma lição concreta que deveria ter sido aprendida, e aqui não me refiro às aulas do colégio, mas sim ao cotidiano dos países, era de que ninguém deveria ficar no poder por tempo superior ao determinado pela constituição de cada país. Quando isto acontece, o resultado é um só: ditadura!

O fim da monarquia em diversos países da Europa no século passado permitiu o acesso popular à democracia, palavra esta que a gente aprende no colégio, e que significa que o poder emana do povo: demos (povo) + krátos (poder).

Mesmo na Grã-Bretanha, onde a monarquia foi mantida, o povo vota para eleger os membros do parlamento e estes o primeiro ministro, uma espécie de presidente parlamentar. Mas, notem: os monarcas são figuras decorativas, isto é, sem poder sobre decisões do governo, e o primeiro ministro  só continua no cargo se tiver o apoio do parlamento. Cabe, entretanto, uma nota importante: lá a votação não é obrigatória! O que não deixa de ser uma lição de democracia.

Ditadores convencem o povo de que precisam ficar no poder, mas com o uso da força, seja como foram Hitler, Stalin, Mussolini, e outros, no passado distante. Todos eles se determinaram a ocupar territórios e impor as suas maneiras de pensar, na prática o que se costuma popularmente chamar de “imperialismo”, que é um tremendo retrocesso político, e acaba não dando certo.

Ditadores pós segunda guerra seguiram o mesmo modelo: o de se manterem no poder a qualquer custo. Aqui novamente o cinema traz o assunto, em uma paródia sobre as ditaduras latino-americanas: “Bananas”, de 1971, coescrito e dirigido por Woody Allen.. O filme é uma claríssima alusão à ditadura cubana:

O mais irônico e interessante desta história é que muita gente apoia ditadores e seus regimes, pouco importa se crimes são cometidos ou se adversários são perseguidos ou assassinados. Aqui, se demonstra mais uma vez que esta é mais uma lição da segunda guerra que nunca foi aprendida.

Ditadores são prepotentes, narcisistas, e se consideram infalíveis, mesmo nos momentos de derrota, quando não se dão mais conta de que estão vivendo em um mundo de fantasia. Tal fato é claramente explícito no excelente drama de 2004 sobre os últimos dias de Hitler, em Der Untergang.

Hitler foi ganancioso e ao mesmo tempo insensato quando abriu uma segunda frente de guerra contra os russos, impossível de vencer. Com a divisão, a queda do regime nazista se tornou inevitável.

No lado do Pacífico, os japoneses subestimaram a força americana, cujo poder militar e determinação de se vingar de Pearl Harbor se tornou uma obsessão. Como em qualquer guerra, são as circunstâncias que determinam o resultado das batalhas. Infelizmente, o lado trágico desta luta foi o uso da bomba atômica, um ato criminoso e igualmente insensato.

A pior consequência das guerras

Em todos esses momentos de conquista do poder e beligerância o pior de tudo é a perda de milhões de vidas humanas. Na Europa e no Japão pós segunda guerra o que mais se viu foi terra arrasada. Hitler queria tacar fogo em Paris, mas felizmente foi convencido do contrário. Afinal, ele já tinha se vingado do infame tratado de Versailles.

O louco marechal da força aérea britânica Arthur Harris, conhecido pelos seus críticos como “Bomber Harris”, dizia que para desmoralizar o inimigo era preciso bombardear uma cidade atrás da outra, com isso matando civis ao invés de militares. A guerra acabou e mesmo assim Bomber Harris bombardeou Dresden, cidade alemã que nunca foi alvo militar. Este ultrajante episódio terminou como ponto negativo do lado aliado, no término da guerra.

A guerra nada mais é do que assassinato em massa, com uma desculpa política qualquer, e o que mais impressiona é a descartabilidade da vida humana. O cineasta John Ford foi para a guerra e saiu de lá um homem com outra visão do mundo. Uma evidência disso foi o seu filme They Were Expandable (no Brasil, “Fomos os Sacrificados”), onde Ford mostra a inutilidade da perda de vidas, disfarçada sob a ótica de uma homenagem patriótica à marinha americana:

As milhões de vidas ceifadas e os territórios arrasados ainda perduraram como uma herança maldita por décadas a fio. Por isso, não é surpresa historiadores continuarem a tentar entender como os líderes carismáticos se tornaram ditadores, como as guerras aparecem e como as lições derivadas dos conflitos não foram aprendidas. [Webinsider]

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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