DRM: Na era digital, a facilidade de cópia de conteúdo aumentou, mas o sistema reagiu com a imposição do DRM (do inglês, Digital Rights Management, ou Gerenciamento de Direitos Digitais)

DRM: a insistência de medidas contra cópias de mídia ótica tem levado a uma nova série de programas que visam combater estes mecanismos.

No mundo analógico do passado era quase impossível copiar conteúdo de qualquer mídia. Os filmes de 16 mm, por exemplo, usados para projeção doméstica (o home theater antigo), eram alugados ou até comprados, mas neste caso por preços muito elevados. Então, a maioria dos usuários, cineclubistas e fãs de cinema iam nas locadoras e alugavam uma cópia por um dia ou mais. Geralmente, nos fins de semana, a locadora deixava a cópia ser projetada cobrando por um dia apenas.

Com o advento do home theater propriamente dito, muita coisa mudou: programas de proteção contra cópia passaram a ser gravados junto com o conteúdo. Em 1985, a Macrovision Corporation lançou o software de proteção contra cópia de fitas VHS, que depois se estendeu ao DVD. Com o tempo, a proteção do Macrovision parou de ser usada, acompanhando o declínio de fabricação de videocassetes, por volta de 2006.

Outros motivos para o desaparecimento do Macrovision foi a oferta para o consumidor de dispositivos que impediam que o software deles danificasse a cópia. Além disso, a indústria de vídeo parou de pagar royalties para a Macrovision, por conta do alto custo. A propósito, situação semelhante ocorreu anos depois com as proteções de cópias de CDs de música, facilmente quebradas sem precisar de quase nenhum recurso.

A era digital mudou tudo

Na época do videodisco, o usuário copiava o conteúdo para uma fita de videocassete, Hi-Fi ou Super VHS, se fosse o caso. Com a chegada do DVD tudo isso mudou, porque não haviam ainda meios de duplicar este tipo de mídia ótica.

Antes do DVD foram os CDs de jogos que se tornaram protegidos de uma forma agressiva. Entretanto, programas se tornaram rapidamente disponíveis para contornar isso e copiar qualquer CD ou até DVD. Eu ainda tenho instalado o lendário CloneCD, de 1999, programa da Elby (Elaborate Bytes), que hoje não serve para mais nada:

image002

Na era digital, a facilidade de cópia de conteúdo aumentou, mas o sistema reagiu com a imposição do DRM (do inglês, Digital Rights Management, ou Gerenciamento de Direitos Digitais).

A principal premissa para este tipo de proteção é a de que o usuário é dono da mídia quando a compra nas lojas, mas não é dono do conteúdo. Esta premissa foi e ainda é sujeita a debates de todo tipo, principalmente porque usuários compram a mídia por preço elevado, e advogam o chamado “fair use”, que é a conquista do direito de fazer uma cópia de segurança, o conhecido backup.

A proteção contra cópia de mídia continua feroz e como sempre a Internet oferece alternativas para o fair use. Uma das primeiras dessas iniciativas coube a uma empresa chamada Slysoft, localizada  em Antigua, que criou o lendário programa AnyDVD em 2003.

O AnyDVD fazia de tudo, inclusive desbloquear o drive de CD/DVD instalado no computador, ao qual se impunha a troca de região por apenas 5 vezes, impedindo o uso de mídias diferentes. Ao rodar o AnyDVD, bastava inserir o disco no drive, mesmo o já bloqueado em alguma região, e esperar que o programa inspecionasse a mídia, visse qual a chave de proteção e depois permitisse assistir o conteúdo ou fazer a cópia sem código de bloqueio de reprodução.

Notem que alguns reprodutores de mesa já desbloqueados para a reprodução de DVDs de qualquer região não conseguiam tocar DVDs com RCE (Region Code Enhancement). Assim, o AnyDVD passou a ser uma mão na roda, tirando este bloqueio na cópia.

Com a chegada do Blu-Ray (2K) a Slysoft lançou o AnyDVD HD, com os mesmos recursos do programa anterior. Mas, em 2016 a empresa fechou as portas, debaixo de forte pressão norte-americana. Não obstante, a mesma equipe se mudou para Belize, com o nome RedFox, relançando o AnyDVD HD. Os usuários precisaram comprar uma chave de instalação nova, sob protestos, diga-se de passagem. A RedFox abriu em 2016 e fechou as portas em 2024, deixando todo mundo na mão.

Um detalhe importante sobre o uso do AnyDVD HD e similares para ler discos Blu-Ray 4K é que ele precisa rodar com a ajuda de um drive de discos compatível com este tipo de mídia; Esses drives são conhecidos como “UHD friendly”, e mesmo assim é preciso saber se o firmware desses drives permite ler a raiz do diretório do disco 4K. Se não for, ainda assim é possível tornar o drive compatível. A mudança de firmware pode ser feita manualmente, mas o método difundido na Internet não é muito amigável.

A Leawo vende uma ferramenta chamada UHD Drive Tool, que lê o firmware do drive modificado pelo DRM e baixa o firmware mais novo e correto para aquele modelo, do eu próprio banco de dados, seja a mesma ou uma nova versão. Na ilustração abaixo o drive da LG veio de fábrica com um firmware versão 1.5, impedindo a leitura de discos 4K. A ferramenta da Leawo trocou a versão de fábrica pela mesma 1.5, mas sem bloqueio:

image004

Assim, se o DRM forçar o fabricante do drive “UHD friendly” a bloquear o firmware, a ferramenta da Leawo reverte este processo. A mudança dura menos de 1 minuto e é segura. A ferramenta funciona por até um ano depois de adquirida, de maneira que outros drives possam ser desbloqueados.

As alternativas posteriores

O principal recurso contra o bloqueio de cópias foi a criação de um banco de dados contendo todas as chaves criptografadas pelo DRM. Quando novas chaves são criadas elas são acrescentadas a este banco de dados.

O banco (“database”) é chamado de KeyDB, e pode ser baixado pelo usuário. Alguns reprodutores de mídia criados para o computador, como, por exemplo, o VLC, podem usar o KeyDB.

Uma forma mais prática e funcional é baixar e instalar programas similares ao AnyDVD. No momento, os dois principais programas para este fim são o Passkey da DVDfab, e o Xreveal, muito parecido com o AnyDVD HD.

Ambos os programas oferecem uma versão gratuita, como o Passkey Lite, mas o desempenho das mesmas está longe de trazer resultados com proteções mais aprimoradas.

O Xreveal ofereceu inicialmente a versão gratuita, completa, mas com várias limitações de uso. Recentemente, esta versão parou de funcionar, sendo oferecida compulsoriamente a versão Pro. Esta nova versão tem mais recursos e pode ser testada antes do usuário comprar.

A versão Pro obriga o acesso à Internet, para ler o banco de dados das chaves (KeyDB), mas o processo, uma vez habilitado, é automático, ao contrário da versão gratuita, cujo acesso era manual.

image006

O usuário que já usava a versão gratuita não precisa reinstalar a versão Pro, basta registrar a chave comprada. Esta é oferecida em duas versões: uma por assinatura anual (25 dólares) e outra com chave permanente (“Lifetime”), por 45 dólares. Em ambos os casos, o custo é bem inferior às chaves do Passkey.

Opção pessoal

Eu usei o AnyDVD HD por muitos anos, e resolvi optar pelo Xreveal. Achei a obrigatoriedade de passar para a versão paga uma decepção, mas este é o espírito herdado de outros tipos de programa.

Este tipo de recurso é muito útil para quem monta um HTPC, que é um computador dedicado ao uso em instalações de home theater. Para usuários como eu, que uso a máquina somente  para inspecionar as mídias, ainda assim o recurso é útil, porque programas como o PowerDVD (somente até a versão 22) podem reproduzir discos 4K, mas forçam o uso de SGX, independente do descarte deste programa pela Intel. O AnyDVD HD já havia resolvido isso, e o XReveal manteve o desbloqueio. A Cyberlink, entretanto, retirou a reprodução de discos 4K em todas as versões. Ironicamente, a Intel ainda mantem os servidores SGX funcionando.

Outras formas de fazer backup de discos 4K

Quem não quer ou precisa deste tipo de desbloqueio pode usar o processo de extração (conhecido como “ripping”), e passar o conteúdo dos discos para arquivos que podem ser reproduzidos fielmente em vários sistemas operacionais ou reprodutores de mesa. Um dos programas populares e gratuitos no caso é o MakeMKV, mas vários outros fazem a mesma função.

Outro processo de cópia é criar um arquivo ISO, que é uma imagem idêntica a um CD, DVD ou Blu-Ray. Existem vários programas que podem fazer isso, inclusive gratuitos como o IMGBurn e o acima citado Make MKV. Para reproduzir este tipo de arquivo fora do computador, o usuário deve ter um reprodutor capaz de ler arquivos ISO.

A insistência do DRM continua. Reprodutores de mesa também podem ser afetados por ele, obrigando a atualização do firmware. É uma guerra sem fim, e por vezes, muito injusta. O Blu-Ray 4K não tem mais código de região, mas as chaves de proteção são muito mais drásticas. Já vi muita gente reclamando que comprou um disco, e quando chegou em casa, viu que ele simplesmente não tocava! [Webinsider]

 

. . .

DRM: a luta contra a proibição de cópias continua

Cópia de mídia ótica: pseudo proteções para o uso no computador

Avatar de Paulo Roberto Elias

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *