A muralha

De uma forma geral, quando pensamos em internet, associamos diretamente o uso desta ao computador pessoal, o famoso “PC”. Ou seja, a premissa para que um usuário acesse a web e todas as suas possibilidades, é a existência de um PC disponível. É exatamente nesta premissa tão básica que está a grande barreira para o crescimento do uso da internet domiciliar no país (o mundo corporativo é uma questão à parte). PCs ainda são caros, especialmente em um país que tem a maioria esmagadora de sua população nas classes C,D,E. Não é surpresa que os usuários da internet brasileira estejam fortemente concentrados nas classes A e B, representando assim menos de 10% da população total.



Para sair desta penetração de internet ainda pífia em um país de escala continental como o nosso, existem duas possibilidades quanto ao PC: ou este diminui seu preço, ou as pessoas aumentam seu poder aquisitivo. Ambas as possibilidades podem demorar, especialmente a segunda. O resultado é que temos uma verdadeira muralha para a expansão do uso da internet via PC no Brasil. Como prova temos observado um crescimento muito pequeno do uso da internet domiciliar nos últimos tempos.



Good news

Saindo do campo das más notícias, acontece um fenômeno em paralelo que pode demolir esta muralha. Numa onda muitas vezes chamada de Pervasive Computing, processadores estão se tornando portáteis e “descentralizados”, ou seja, podem estar em todos os lugares: no seu carro, na sua geladeira, na sua TV, seu celular etc. Melhor ainda, estes sistemas podem estar em rede, inclusive conectados à internet. Assim, o PC tende a perder a sua onipotência como porta de entrada à internet, havendo inúmeras outras maneiras para um usuário se conectar à web.



Dentre estas novas portas de entrada, a potencialmente mais popular, em teoria, é um eletrodoméstico que mais de 90% dos lares brasileiros, do Oiapoque ao Chuí, possuem: a televisão. Naturalmente, não estamos falando exatamente da mesma “televisão”. Para uma experiência de TV Interativa, o usuário vai precisar estar conectado a uma rede fechada de cabo ou satélite, e ter um box contendo a tecnologia necessária para processar a interatividade. Países com Inglaterra e Alemanha já têm uma penetração bastante alta de TV Interativa em suas populações, tanto para o uso da internet como para conteúdos exclusivos (fechados).



Mas a introdução da interatividade na TV depende da expansão das redes da cabo e satélite no Brasil – que são investimentos muito altos. No mais, a população teria de ter o poder aquisitivo para um upgrade dos equipamentos caseiros. Ou seja, temos aí mais uma barreira de expansão, ao menos em curto prazo.



Fato histórico

A luz no fim do túnel talvez esteja no menor dos aparelhos: o celular. No segundo semestre deste ano aconteceu um fato histórico no panorama brasileiro. O número de celulares ultrapassou o número de telefones fixos no país, de acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Devemos ter cerca de 45,5 milhões de celulares em uso no Brasil (final de 2003). De janeiro a agosto do ano passado foram vendidos 5,2 milhões de aparelhos telefônicos móveis, 84% a mais que no mesmo período de 2002. Em 1998, ano da privatização das telecomunicações no país, havia apenas 7,4 milhões de celulares no Brasil.



Celulares estão cada vez mais baratos, o que catalisa este forte crescimento nas vendas. Em paralelo, estão cada vez mais poderosos, verdadeiros PCs portáteis que além de voz oferecem uma multiplicidade de serviços – inclusive acesso à internet. A experiência de internet (ou redes fechadas) em um celular ainda está longe de seu potencial verdadeiro, depende do aumento de banda nas redes e melhorias no aparelho e seu software. Mas mesmo assim, a penetração cresce agressivamente. Quem já tem ou usou um celular 2,5 G (ou 3G) sabe como é incrível o uso da interatividade nestes aparelhos. O celular é possivelmente o único aparelho que pode, a curto ou médio prazo, chegar perto das estatísticas de penetração da TV no Brasil. Sendo assim, será potencialmente a principal porta de entrada para a internet no país.



Uma questão interessante é que no uso de celular usuários estão habituados a pagar por serviços, ao contrário da internet via PC, que começou sua história no maravilhoso mundo da gratuidade para o consumidor – e até hoje sofre por uma transformação para um hábito de consumo pagante. Assim, do ponto de vista do negócio, a internet via celular tem a vantagem de já nascer com o “DNA” da receita.



Qual seja o caminho, o importante é que a mídia interativa prolifere, pois pode ser uma vantagem competitiva sócio–econômica para o país. Oxalá todos, sem exceção, possam usufruir deste benefício. [Webinsider]



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