De uns meses para cá, no decorrer do ano da Graça de 2010, o termo restauração digital ganhou um novo significado. Ele foi usado inúmeras vezes no passado, mas nunca chegou a ser algo que impressionasse muito o espectador atento.

O que mudou de lá para cá é que os estúdios aprenderam novos métodos de restauração e novos equipamentos e programas passaram a ajudar muito nesta tarefa. Além disso, e é importante que se diga, que embora o resultado final possa até ser aproveitado para um DVD de boa qualidade, ele só poderá ser totalmente realizado com uma mídia com as características de transporte de sinal do Blu-Ray. Aliando-se a ele TVs de alta performance, como aquelas com backlight de LED rodando a 120 Hz ou mais, o resultado faz finalmente jus ao trabalho do laboratório.

Saltos de qualidade técnica começaram a ser dados com os processos de varredura do negativo com duas mil linhas de resolução (“2K”) e a gente pode ver o resultado disso em Blu-Ray na edição de “A Conquista do Oeste”, pela Warner. E logo a seguir com o dobro da resolução: 4K. No decorrer deste ano, pode-se finalmente ter acesso aos trabalhos de restauração com 6K e 8K de resolução, anteriormente em fase experimental.

Os resultados falam por si próprios, mas eles não estariam tão perfeitos se não estivessem associados aos novos programas de restauração, capazes de limpar o negativo dos chamados débris, que consistem de sujeiras diversas, riscos e falhas de negativo, e principalmente aqueles capazes de colocar a cor de volta no lugar. E aqui novamente se observa que, para aproveitar ao máximo este último recurso, é preciso ter uma contrapartida no sistema usado para a reprodução da imagem!

Em De Volta Para O Futuro tem tudo isso e muito mais!

Toda a trilogia da série De Volta Para O Futuro foi filmada no processo Super 35. A vantagem dele é aproveitar um negativo 35 mm com uma área de exposição aumentada, e adaptá-lo para o formato de cinema que se deseja, com o máximo de qualidade e economia possível. A cadência do filme na câmera pode ser adaptada para 3 perfurações ao invés de 4, com o uso de lentes esféricas.

Se o espaço em filme for aproveitado integralmente, a cópia final para exibição é composta pela interpolação de máscara (soft matting). As cópias anamórficas, para tela larga Panavision (2.35:1) são feitas em laboratório, como aconteceu, por exemplo, nos filmes Titanic ou Silverado.

Os resultados em nitidez e profundidade de campo são bastante próximos do VistaVision, mas em De Volta Para O Futuro os efeitos especiais foram conseguidos com o auxílio deste último.

O negativo Super 35 pode, e no caso até foi, usado para ampliação em 70 mm, com resultados muito bons.

Bob Gale, um dos cineastas envolvidos com o projeto original conta os detalhes da restauração, em algumas entrevistas concedidas antes do Blu-Ray da trilogia ser lançado.

É ele mesmo quem diz, e com toda a razão, que a imagem do filme nunca esteve tão boa desde o seu lançamento, em 1985. Foram mais de quatrocentas horas gastas em laboratório, para tirar sujeiras e restaurar a cor do fotograma original, e o resultado chegou a ser exibido em um cinema de Los Angeles.

Mas o trabalho de restauração não parou por aí: desde que o filme saiu nos cinemas ele nunca teve uma trilha sonora tão boa como a que foi feita agora. E eu próprio sou testemunha disso, pois tendo ouvido a versão do cinema (em Dolby Stereo), depois em Laserdisc (Dolby Surround, com trilha analógica codificada pelo redutor de ruídos CX®), e posteriormente em DVD, já com mixagem 5.1 em Dolby Digital, é fácil perceber que todos os efeitos especiais (sonoplastia) foram regravados e remixados em 5.1 canais, em uma trilha completamente nova.

“Nova” é pouco para defini-la (sem trocadilho): na verdade, eu nunca ouvi um resultado tão bom em fidelidade e em surround, tirado de uma trilha antiga, como este.

Em vários trechos, o áudio se expande para as laterais, com uma coerência de fase excepcional. Na conhecida cena do início do filme, quando Marty McFly estoura uma caixa acústica gigante, agora dá para ouvir distintamente o som de uma guitarra junto do grave, o qual, aliás, vem lá de baixo e com uma qualidade de cair o queixo.

Nas cenas de tempestade, onde o surround do DVD já era interessante, no Blu-Ray a sala se enche de som, com uma ambiência excepcional. Aqui não há mais dúvida de que os restauradores optaram por fazer tudo de novo. E para garantir a chegada deste trabalho na casa do usuário, optou-se pela sua remasterização em DTS-HD MA 5.1 canais.

A comparação entre o futuro e o passado

O primeiro filme do que viria mais tarde ser a trilogia trata de um assunto que todos nós queríamos ter como resposta: o que a gente faria se conseguisse voltar ao passado, de maneira a entendê-lo melhor e, se possível, consertar o futuro?

Não creio que seja por acaso que o referencial para os cineastas tenha sido a década de 1950. O filme foi escrito por Robert Zemeckis e Robert Gale, conhecidos em Hollywood como “the two Bobs”. Ambos são da mesma faixa etária, e cresceram na década de 1950. Eu acredito que só quem passou como menino ou adolescente por esta época pode avaliar as condições sociais claramente expostas no roteiro deste filme.

A década de 1950 foi experimentada em vários países, inclusive no Brasil, como um momento de otimismo quanto aos passos dados em direção ao futuro (novamente, sem trocadilho) que viria pela frente. Embora essencialmente conservadora, foi também uma época onde a predominância de espírito empreendedor entre os jovens era de ingenuidade e de comportamento furtivo, mas desprovidos de maldade.

A tradicional experimentação adolescente de coisas como bebida alcoólica, tabagismo e até com a sexualidade encontram, no filme dos dois Bobs, um curioso paralelo no universo da década de 1980 do personagem Marty McFly. Na educação conservadora que este recebe, seria no mínimo inadmissível que seus pais pudessem ter tido a liberdade de fazer escondido o que fizeram.

Mas, em uma sociedade conservadora é justamente isso o que acontece. E Marty já viu o resultado de passar a adolescência deste jeito na prática: são adultos que não se encaixam corretamente no contexto da maturidade, e/ou inclinados em abrigar coisas não resolvidas nos vícios, como o alcoolismo autodestrutivo da mãe.

BTTF-1

Marty encontra no passado um pai que não acredita em si próprio. A maior lição que ele irá tirar dali é que tudo na vida depende de encorajamento no fazer. E ele então toma a iniciativa de usar o maior preceito educacional que eu ser humano pode dar a outro: “quando você coloca de fato a sua cabeça em algo, você consegue realizar qualquer coisa”!

Marty McFly se torna, no passado, educador de seus próprios pais, mas como ele mesmo confessa ao final, foi educativo para ele mesmo, pois de volta ao futuro, será ele quem terá que passar pelas mesmas incertezas da evolução de vida de qualquer adolescente.

De Volta Para O Futuro mostra em paralelo a admiração sincera e a amizade de Marty McFly com o cientista “Doc” Emmet Brown. Christopher Lloyd nos dá um show sobre a personalidade de um homem envolvido profundamente com a ciência, e completamente alienado sobre outros valores da sociedade. Os cineastas mostram isso, ao arrastar a câmera no laboratório do cientista, uma espécie de “bagunça organizada”, com equipamentos e inventos espalhados pelas bancadas.

“Doc” é contemplativo, perspicaz, e capaz de ponderar sobre problemas existenciais com grande competência. Na realidade, é o exemplo modelar, no qual o adolescente se inspira. E é ele quem irá detectar a influência do passado sobre o futuro, e de como alguém pode mudar os eventos das coisas, independente da época, no decorrer do tempo.

A trilogia se completa com filmes não tão brilhantes assim, mas divertidos como cinema, mantendo o tom de paródia e comédia do seu predecessor.

Em qualquer hipótese, a trilogia é item indispensável ao colecionador e apreciador de cinema, e para aqueles que, além disso, querem ter em casa o melhor material de áudio e vídeo disponível em Blu-Ray.

Os dois Bobs, que anteriormente haviam fracassado retumbantemente em filmes como 1941, por exemplo, este conjunto de filmes acabou sendo redentor de suas capacidades de fazer cinema. Portanto, não é à toa que Bob Gale fale até hoje com enorme entusiasmo da trilogia, e queira rememorar isso com todos nós, que nos tornamos seus fãs. [Webinsider]

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Respostas

  1. Evandro Temperini

    Putz… bateu realmente uma vontade de correr pra locadora e assistir essa trilogia completa e remasterizada.

    Sinceramente, como não vivo de áudio e vídeo, não tinha parado pra pensar no pé que estão essas tecnologias.

    Por isso apoio fugir um pouco de nosso mundinho e passar a olhar mais pros lados.

    É isso aí. Gostei do material Paulo.
    Analisarei e valorizarei ainda mais este trabalho quando tiver novamente acesso a ele.

    Abraços e sucesso.

  2. Paulo Roberto Elias

    Caro Evandro,

    Obrigado. Existem muitos filmes que acabam se perpetuando por méritos diversos. Geralmente, os que contém mensagens universais, isto é, fora do ambiente onde se filme se origina, costumam ter mais sucesso.

    O que eu acho que é o caso desta trilogia. No primeiro, existe uma clara menção ao potencial de criatividade de todo indivíduo jovem, na pele do pai de Marty. Muitos educadores perdem a oportunidade de descobrir e incentivar estes potenciais, na melhor fase que eles podem se desenvolver, e com isso muita gente perde a chance de fazer alguma coisa na vida, como profissão ou hobby, que a tornaria mais feliz e realizada!

    E no último filme, a mensagem direta é a do fim, quando Doc Brown diz para você que o futuro de ninguém está de fato escrito, e é você quem decide qual será ele.

    Apesar dos extras, eu ainda não vi nenhum cineasta falar claramente de suas intenções ao escrever e dirigir seus filmes. Cabe à nós, da platéia, descobrir as mensagens subjacentes e é por isso, em última análise, que é sempre interessante assistir o filme várias vezes, em momentos diferentes das nossas vidas.

  3. Evandro Temperini

    É isso aí. Tb concordo que no cinema, como em toda arte, sempre haverá uma mensagem.

    Lembro de quando assisti “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”.

    Gostei tanto do filme que vasculhei todos os extras do DVD atrás de mais informações a respeito da mensagem que o filme queria passar.

    Assisti, na sequência, o filme todo comentado pelos roteiristas/diretores.

    Uma coisa que me marcou foram os comentários do Michel Gondry e do Charlie Kaufman a respeito da forma como a personagem, interpretada por Kate Winslet, invadia a zona de conforto do personagem do Jim Carrey, logo ao se conhecerem. O que, depois que você passa a entender melhor o personagem, percebe que se tratava de um desconforto enorme pra ele, pois este tipo de contato não fazia parte de sua personalidade. Ele não estava aberto a isso e não esperava esse tipo de “stress”.

    Quando assiste normalmente, vários detalhes passam despercebidos. E quanto mais assiste, mais detalhes novos vê que havia perdido. E por isso acho que qualidade da imagem e áudio são essenciais para a ambientação e absorção da(s) mensagem(ns).

  4. Paulo Roberto Elias

    Sem dúvida! A filha do Hitchcock, que acompanhou o pai no estúdio desde menina, e que fez ponta em Psicose, uma dos filmes de referência do cineasta, disse em entrevista, que só foi entender certas cenas depois de muitos anos.

    E é bom que assim o seja, porque só deste jeito a gente tem uma desculpa legítima para ver de novo os filmes que a gente tanto gostou nos cinemas, ou de tê-los em casa permanentemente.

  5. Lucas

    Deixem de ser burros e tirem esse flash gigante da pagina!!! Tentei ler o artigo pelo iPhone duas vezes mas não consegui! Alias, já passou da hora de trocar esse layout, não??!! Falar de tecnologia e não ter um site atual… Enfim, quando tiver as oportunidade de ler o artigo no desktop eu comento!!!

  6. Eder Delatore

    Parabéns Paulo, por mais este artigo maravilhoso sobre esse filme que adoro! Sabe que a Universal vai lança-lo novamente nos cinemas em versão restaurada? Mas, somente na Europa, o trailer já esta sendo exibido! Abraços

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