Com Luciene Santos.

Bastaram apenas aparecer alguns milhares de pontos vermelhos no Google Maps para que um gigante adormecido ressurgisse para o mundo midiático com toda a sua força e relevância social. Com a publicação de um simples mapa indicando os nomes e endereços dos titulares de licenças de armas curtas nos arredores de Nova York, o jornalismo resgatou antigos ideais que levaram à queda de Richard Nixon no caso Watergate, renovando assim as suas prerrogativas de quarto poder e último baluarte do espaço público.

“Onde estão as licenças de armas no seu bairro?” Com essa pergunta, o The News Journal publicou um artigo com um mapa do Google, que revela os nomes e endereços de licenças de pistola ou revólver, nos condados de Westchester e Rockland. O mapa interativo surgiu na esteira do massacre em Newtown, em Connecticut, ocorrido em dezembro passado, quando o jovem Adam Lanza, 24 anos, fortemente armado invadiu a escola infantil Sandy Hook, matando 20 crianças e seis funcionários, após matar a sua mãe em casa.

A assustadora interatividade do mapa permite aos leitores fazer um zoom nos pontos vermelhos (Titulares de licenças registradas), azuis (Titulares de licenças registradas nos últimos cinco anos) e roxos (Titulares de licenças sem atividade nos últimos cinco anos), trazendo à tona dados ‘escondidos’ sobre pessoas com permissão para usar armas. Numa mesma imagem, a magia do jornalismo ajuda a desnudar uma das grandes contradições humanas: o uso de armas por cidadãos comuns em tempos de paz.

A publicação do mapa provocou uma enorme indignação em todo o país e milhares de comentários irritados. O professor Al Tompkins, membro do corpo docente da escola de jornalismo Poynter Institute, chassificou o movimento do jornal de “arrogância jornalística”. A editora e presidente do The News Journal, Janet Hasson, defendeu a publicação, afirmando que “os leitores estão compreensivelmente interessados em obter mais dados sobre armas de fogo em seus bairros”. No seu comunicado à imprensa, Hasson ainda disse mais:

“Sabíamos que a publicação seria controversa, mas sentimos que o compartilhamento de informações sobre licenças de armas em nossa área foi importante na sequência dos tiroteios de Newtown.” Mas alguns leitores disseram que o mapa levaria a roubos porque os ladrões agora estão cientes de onde as armas podem ser encontradas. “Agora, todo mundo sabe onde as armas legais são mantidas, uma parte valiosa de informação para criminosos”, escreveu outro leitor.

Newsgames e o ressurgimento do jornalismo

O mapa interativo mostrou o poder de fogo do jornalismo, que a sua narrativa não morreu e que o espisódio serviu de marco de seu ressurgimento como um verdadeiro bem social. O motivo de tanta repercurssão se deve ao fato de ter sido a primeira vez que as pessoas se deram conta do poder jornalístico do sistema de geolocalização do Google Maps, um dos pilares da narrativa dos NewsGames. A publicação do aplicativo ainda vem gerando muita polêmica nos Estados Unidos.  Muitos leitores comemoraram o retorno do jornalismo como forma de debate de grandes temas sociais.

Já outros tantos ficaram enfurecidos. O impacto do mapa interativo foi tão grande que a caixa de comentários do jornal chegou a registrar mais de 1.700 opiniões de leitores apenas na manhã em que a publicação foi ao ar. Apesar da maioria dos comentários revelar uma posição contrária à publicação de dados públicos, o episódio marca o poder das ferramentas de visualização de dados, como prevê a Teoria dos NewsGamesgames, rede sociais, mapas interativos e notícias cartografadas.

Em jogos baseados em notícias, o tabuleiro emula um visualizador de dados a partir de informações noticiosas que contribuem para entender, envolver-se, debater e resolver problemas sociais, de forma colaborativa. Em plataformas, como newsgames, o jornalismo baseado em aplicativos de visualização de dados não se precisa falar tanto para dizer muito. Essas ferramentas ajudam a romper narrativas de conteúdo vazio. A imagem interativa amplifica o envolvimento pessoal com a informação que realmente interessa ao leitor.

Poder da Lei de Liberdade de Informação

Os nomes e endereços de licenças dos moradores dos municípios nos arredores de Nova York só foram obtidos graças à Lei de Liberdade de Informação. A publicação de licença de arma é informação pública e pode ser adquirida por qualquer pessoa através de um simples pedido intitulado de Ato de Liberdade de Informação. Embora vindo na esteira do tiroteio Newtown, a publicação tinha uma clara intenção provocativa.

“Os cidadãos de Nova York têm o direito de possuir armas com licença e eles também têm o direito de acesso livre à informação pública”, destaca Hasson. Baseado nessa informação, um leitor contucou os editores do jornal: – “Por que vocês não fazem algo útil, como tentar descobrir onde são mantidas as armas ilegais?”. Irônico, outro leitor rebateu: “Se você está envergonhado com a sua arma, se livre dela! Eu tenho um carro e uma casa – e não é segredo para ninguém”.

Toda essa polêmica trouxe à baila a discussão sobre a questão ética da publicação ou não de dados públicos. Pela lei atual americana, qualquer um pode acessar informações publicas. O fato novo foi a publicação do material de forma legal em ferramentas de visualização de dados, que aumentaram de forma exponencial o poder de informação do jornalismo. Pela primeira vez, algumas características do jornalismo online (sem limites de espaço e tempo), vieram à tona de uma só vez, como um tsunami que não excluiu ninguém.

Reações ao movimento de transparência total

Nomes e endereços de pessoas poderosas e anônimas foram parar na primeira página dos jornais, e de uma forma nunca feita antes. O episódio da publicação dos dados públicos nos remete ao filme ‘Beleza Americana’, em que os cidadãos parecem viver em eterna farsa numa sociedade onde tudo parece ser belo e perfeito. Ninguém poderia imaginar que o vizinho que critica a corrida armamentista ostenta em casa fuzis Ar15 de fabricação israelense para uso exclusivo das forças armadas.

O movimento de transparência total se transformou em uma tentativa de represália contra os editores do The News Jorunal, depois que um advogado de Connecticut postou no seu blog o número de telefone e endereços de funcionários do jornal, incluindo uma imagem de satélite do Google Maps da casa da editora principal. O blogger Christopher Fountain tomou o debate como algo pessoal, ao publicar informações pessoais de funcionários do jornal. A ironia aqui é que foram anunciados dados abertos em via de mão-dupla, como uma ferramenta de diálogo cívico na fronteira do comprometimento pessoal com a coisa pública, tudo que propõe a Teoria dos NewsGames.

A promessa do uso de dados abertos é levar à sociedade a uma discussão aberta sobre temas relevantes. Isso ajudaria a romper a grande muralha que separa as pretensões regulativas dos governos, as necessidades sociais e de entidades sem fins lucrativos, que lutam por maior acesso a dados que estão nas mãos dos poderes legislativo e executivo. Defensores de dados abertos têm se esforçado para terem atenção da mídia dentro de uma visão utópica de obtenção de mais serviços automatizados do governo.

A utilização pelo The News de dados abertos através do Google Maps – tanto a publicação das licenças de armas quanto dos dados de geolocalização dos jornalistas – parece ter acertado em cheio o ponto de equilíbrio do uso da mídia como uma real tribuna de transparência total, já que joga com os degradantes interesses partidários. Parece que a transparência se presta igualmente a ser tanto uma ferramenta de democracia como uma arma partidária. Mas nessa queda de braço, o povo deve sempre sair vencedor!

A influência das mídias sociais e vez dos NewsGames

Em 2006, o mesmo jornal The News já havia publicado algo semelhante, mas sem tanta repercussão. Desta vez, as mídias sociais, um dos pilares da Teoria dos NewsGames, fizeram o trabalho de espalhar rapidamente a história. Na semana da publicação do mapa, “a conversa no site (LoHud.com) e páginas de opinião do jornal The News foi intensamente focada na questão do controle de armas”, lembra o editor do jornal e vice-presidente, Cyndee Royle.

Esse fenômeno reforça a discussão do jornalismo segmentado por temas, em oposição ao jornalismo de variedades que ainda permeia a maioria das redações dos jornais tradicionais, inclusive de publicações online. A narrativa dos NewsGames é pautada basicamente por notícias temáticas, em torno das quais os jogadores podem buscar, de forma colaborativa, a cossolução de problemas reais. A liberação de dados públicos alimenta ainda mais o pontencial narrativo dos jogos baseados em notícias.

Em 2007, o site do The Roanoke Times publicou uma lista de empresas autorizadas a transportar armas escondidas, mas os dados foram logo apagados no dia seguinte. O Instituto Poynter afirma que algumas agências de notícias têm publicado sistematicamente vários tipos de bancos de dados já disposnibilizados ao público. No passado, outras agências de notícias publicaram bancos de dados semelhantes, uma constatação de que o uso de dados públicos veio para ficar e dar mais conteúdo à informação.

2013 – um ano de consolidação, transição e rupturas 

Se há uma lição que a Apple nos ensinou é que os usuários de uma forma geral realmente preferem App’s – aplicativos que atuam em sistemas independentes dos navegadores. Além de mais rápidas, essas ferramentas são mais fáceis de encontrar e, geralmente, garantem uma experiência superior, porque elas não possuem uma camada anexada ao browser.

Afinal, os navegadores atingiram uma espécie de barreira em termos de desempenho, com a morte anunciada do Flash, o Unity indo de mal a pior no navegador e o HTML5 ainda lutando para sobreviver. Por esses e outros motivos, 2013 será um ano de consolidação, transição e rupturas de serviços online, produtos e tecnologias digitais. Na área dos games, a redução de receita em 20% da empresa Zynga sinaliza a tendência de esgotamento da narrativa vazia dos joquinhos rodados no Facebook.   

Por outro lado, os gamelikes – “jogos como”, numa tradução literal – recoloca os games como notícia em uma posição de vantagem, embora dados apontem uma queda nesse setor da indústria em áreas como gamification, jogos educacionais e ligados à saúde. Contudo, diante da enorme repercussão do uso de dados públicos em ferramentas de visualização de dados (vide Google Maps), os gamelikes com narrativas baseadas em informação, como os NewsGames, têm uma grande chance de surpreender seus investidores este ano.

NewsGames ganham nova chance

Assim, a crítica que se faz aos NewsGames como sendo um mero aplicativo se dilui quando ousamos usar simples App’s de geolocalização do Google Maps para obter mais informações sobre endereços e placas de carros que rodam sem permissão pelas ruas de São Paulo e a consequente redução dos níveis de monóxido de carbono no ar se não estivessem rodando. A discussão poderia relacionar ainda a poulição causada pelos carros e o crescimento do número de doentes e mortos em decorrência de doenças relacionadas, na capital paulista.

Ou ainda usar tais aplicativos, por exemplo, como mapas de atualizações meteorológicas, ou avisos de evacuação em tempos de crise, Do mapa do Google sobre o Furacão Sandy ao mapa de evacuação do The New York Times, essas ferramentas salva-vidas online só foram possíveis graças a um recente e relativamente subfinanciado programa do governo americano de disponibilização de dados abertos desenvolvido pela iniciativa privada. Dados abertos é crítico em situações de crise.

Afinal, com a liberação dessas ‘informações ocultas’, o governo pode informar melhor e servir as pessoas mais do que jamais poderia fazer por conta própria através de canais convencionais. “Ao tornar os dados disponíveis gratuitamente em um formato utilizável para consciência cívica, desenvolvedores e plataformas de tecnologia, o governo pode exponencialmente direcionar suas comunicações e prestação de serviços”, sinaliza a diretora da New York Digital, Rachel Haot, que escreve no blog de tecnologia TechCrunch.

Obama apoia empreendedores e inovadores

O movimento de dados abertos é baseado em uma fé que os cidadãos podem construir ferramentas surpreendentes com base em dados armazenados em servidores do governo. “Estamos permitindo que empreendedores e inovadores em todas as esferas da sociedade ajudem a desenvolver projetos de acesso público a dados assentados em cofres do governo, em forma legível por máquina”, disse Todd Park, conselheiro de tecnologia do presidente Barack Obama. Eles vão “criar todos os tipos de serviços e produtos que só podemos mesmo mal imaginar.”.

Nos anos 1980, o Presidente Reagan foi quem lançou originalmente o Positioning System Global (GPS), a partir de dados em resposta a um avião abatido que acidentalmente apareceu em território soviético, ainda que Reagan nunca tivesse previsto que o GPS acabaria sendo usado por toda uma indústria de smartphones e produtos de navegação para automóveis. Entre as crises financeiras que assolam a economia americana, os defensores de dados abertos acabam sendo deixados de fora dos pacotes de prioridades do governo.

Afinal, no meio de uma recessão permanente incapacitante e trilhões de dólares dragados em guerras pelo mundo (que pagam os salários de programadores para transferir dados privados para planilhas públicas) é tentador colocar o projeto de abertura dos dados públicos em segundo plano por falta de financiamento. Quando os dados abertos são ligados a áreas partidarizadas, como a saúde, por exemplo, a situação piora, pois pode atrair a ira de burocratas de plantão.

Que alguém saia em defesa dos nerds de planilhas que sempre defenderam a abertura das reservas de dados do governo, e que agora alimentam ferramentas online de uso jornalístico. Se num simples mapa interativo, a ferramenta já causou um enorme barulho na Big Apple, não é difícil imaginar quando esses sistemas forem usados em tabuleiros de jogos informativos. Porque, diferente de joguinhos que não emulam quase nenhum conteúdo de valor social, os games baseados em notícias são alimentados justamente com informação pura. E, agora, estão mais na moda do que nunca!

Link para ler mais sobre a matéria Map: Where are the gun permits in your neighborhood?www.lohud.com/interactive/article/20121223/NEWS01/121221011/Map-Where-gun-permits-your-neighborhood-?gcheck=1 [Webinsider]

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