As sequelas da transição entre o Lp e o CD

16 de maio de 2015

Quem colecionou discos no passado sabe que muitos títulos dos catálogos das gravadoras andam perdidos por aí, sem uma solução a curto prazo, a despeito de terem decorridos mais de trinta anos da transição entre o Lp e o CD.

Parece mentira, mas já se passaram mais de trinta anos desde que o Compact Disc surgiu no mercado internacional. Mostrado na Stereo Review de dezembro de 1982, mas lançado oficialmente no início de 1983, o Compact Disc foi imediatamente apelidado de “CD”, pelos articulistas de periódicos de áudio norte-americanos que adoram um acrônimo.

Inicialmente, o CD foi desenvolvido para os amantes de música clássica, que prezam o silêncio durante a execução das peças, mas seria inevitável que logo no início houvesse um apelo ao mercado de música fonográfica em geral. As gravadoras tiveram como experiência concreta que a venda de música popular, às vezes vultuosamente rendosa, financiou em vários selos a venda de música clássica, uma cobrindo o prejuízo da outra.

Por outro lado, o público em geral mostrou-se intolerante aos diversos ruídos do Lp, e começou a exigir que os títulos de catálogo fossem remasterizados de imediato. Mas, insensível a estes apelos, a indústria fonográfica, com as exceções dos grupos Sony (CBS) e Philips (Polygram), empurrou a remasterização com a barriga, e o resultado disso é que a maior parte das gravações até então arquivadas ficaram sem a sua contrapartida digital.

E para agravar mais ainda esta situação, os arquivos das gravadoras foram se perdendo ao longo do tempo, em alguns casos nem os arquivistas sabem aonde foram parar as matrizes, pelo menos é o que eles alegam. Aqui no Brasil também este problema se tornou grave, segundo matéria publicada há algum tempo atrás.

E o leitor poderá entender a extensão da perda, porque muito da antiga estrutura das gravadoras foi extinta, antigos produtores e engenheiros de gravação não estão mais aqui para tornar factível qualquer projeto de resgate.

Há alguns anos atrás a gravadora Som Livre foi vítima de uma inundação na empresa Iron Mountain, dentro da subsidiária estabelecida no Brasil para arquivamento de documentos.

Grande parte do material do estúdio, englobando fitas analógicas master, ficou debaixo d’água por dias, as caixas com anotações sobre as gravações perdidas para sempre. A Iron Mountain foi também protagonista de uma matéria recente publicada nos jornais cariocas, dando conta da perda de informações em fitas magnéticas de outros estúdios.

A ausência de um ambiente com temperatura e umidade controladas torna difícil e às vezes quase impossível a manutenção do material magnético gravado há mais de quarenta anos atrás. E, ao contrário do cinema, que restaurou um monte de filmes clássicos, nem todas estas gravações magnéticas antigas foram remasterizadas para digital, como forma de preservação.

A perda da memória fonográfica se torna assim como a principal sequela da transição entre o Lp e o CD, em alguns casos de forma irremediável. Mesmo que Lps existam, eles são cópias de segunda geração, com uma relação sinal/ruído que contraindica o seu uso para trabalhos de maior vulto.

 A solução caseira tenta contemporizar o prejuízo

Eu estive recentemente à cata da reedição da gravação Verve de Lalo Schifrin, com o título “Music From The Motion Picture Once A Thief And Other Themes”, que nunca saíra em CD. Foi quando eu soube que os editores da Film Score Monthly havia montado uma compilação de trilhas do compositor, incluindo aquela que eu estava procurando. No press-release, a FSM alega que só conseguiu reeditar o título por causa de ter sido achada “uma fita sobrevivente de ¼ de polegada, de duas trilhas”, possivelmente usada pela Verve para alguma matriz daquela época.

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A caixa com as trilhas do Lalo Schifrin saiu de catálogo e o preço disparou para mais de quinhentos dólares no eBay, tornando assim a sua aquisição pelos mortais um projeto inviável.

Por sorte, eu tenho um amigo na América chamado Brian Williams, colecionador que dedica grande parte do seu tempo procurando fitas magnéticas de seu interesse. Depois de discutir muito este assunto, resolvemos eu e ele ficar de olho na fita pré-gravada desta gravação e de outras. Muitos colecionadores querem se desfazer de suas fitas, por um motivo ou por outro, e mais uma vez contando com a sorte, eu achei no eBay uma cópia em fita comercial pré-gravada, em 7 1/2 i.p.s., em bom estado.

Mandei a fita diretamente para ele, junto com outras do meu interesse, com o acordo de que ele ficaria com as fitas e eu com as remasterizações feitas por ele, simples assim. O acordo é justo para todo mundo: para mim, que abandonei fitas magnéticas há mais de vinte anos atrás, e para ele que, ao contrário, é colecionador e conhece o histórico da estereofonia e selos antigos.

O Brian tem uma excelente aparelhagem para fita magnética de carretel aberto. O seu esquema de trabalho é super simples: a reprodução é feita por um deck semiprofissional diretamente para um deck de gravação de CD-R/RW desses de mesa. Ele me manda os discos e o resto eu faço aqui.

Durante anos a fio, em épocas remotas, eu remasterizei material analógico em casa, do meu acervo e ocasionalmente para alguns amigos. Com fitas magnéticas o trabalho é bem mais simples e mais direto. Seja como for a fonte de sinal usada, o importante é a gente se conduzir de forma conservadora, ou seja, evitar aplicar filtros sem que haja algum tipo de problema que não possa ser solucionado de outra forma.

E mais importante ainda é obter uma fonte de sinal a mais limpa possível. Neste particular, e sabendo-se o que está sendo mostrado na tela do computador, é fácil constatar a quantidade de ruído de um Lp, seja da massa, seja das paredes desgastadas dos sulcos. Já com fitas magnéticas, tudo depende do estado da fita, do tipo de deck usado (o de três cabeças é construído com um gap otimizado) e do trajeto do sinal até chegar ao computador ou, neste caso, um deck CD-R de mesa.

O meu amigo Brian faz tudo conforme o figurino, coisas que eu mesmo já fiz anos atrás quando usava fitas: desmagnetizar as cabeças e guias, limpá-las com álcool isopropílico 99% puro (P.A.), e usar este álcool para limpar também o capstan e os roletes de borracha que transportam a fita.

O resultado inicial que ele obtém já é sonicamente impressionante, melhor, diria eu, que uma remasterização comercial. A seguir, uma vez de posse das faixas em domínio digital, é uma questão de fazer pequenos ajustes. Eu tenho por praxe nunca usar filtros a não ser estritamente quando necessário.

As fitas magnéticas tem um sibilar constante, chamado pelos técnicos de “hiss”, um ruído de alta frequência, em torno de 10 kHz. Aplicar um filtro “de-hiss” é perigoso, porque o resultado pode ser desastroso. Aqui vale o preceito de que “é melhor ouvir um pouco de ruído do que destruir a alta fidelidade da fonte”. E as fitas de rolo têm uma relação sinal/ruído que pode chegar a 60 dB em velocidade mais alta (7 ½ pol. e acima), mesmo em decks domésticos. Assim, o nível de ruído é facilmente mascarado, sem precisar de qualquer tipo de esquema redutor de ruído, como o Dolby NR, usado nas fitas cassete.

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Eu sei que fazer um trabalho deste tipo demanda esforço e conhecimento, em ambos os ambientes analógico e digital, mas um mínimo de noções básicas o torna exequível. Por outro lado, a questão aqui transcende o mero aspecto financeiro. Se eu não tivesse a chance de conseguir uma remasterização com alguém bem equipado e com conhecimento técnico do que está fazendo, todas essas gravações estariam perdidas.

 O exemplo da High Definition Tape Transfers

No passado não muito distante eu escrevi sobre a HDTT, em um texto que, segundo o nosso editor do Webinsider, foi muito lido na época.

A HDTT é uma empresa quase micro, mas que vem crescendo depois que as gravações clássicas caíram em domínio público. Robert Witrack, o dono, praticamente faz tudo sozinho. Ele e eu trocamos ocasionalmente algumas mensagens. Logo de início ele se disse uma pessoa que conhece mais profundamente música clássica, e por conta disso, volta e meia eu ganho a chance de comentar sobre jazz, música com a qual eu cresci e conheço um pouco mais.

Recentemente, por sugestão minha, ele batalhou e finalmente conseguiu uma cópia em bom estado da gravação Monster, de Jimmy Smith e Oliver Nelson, para a Verve, em 1965.

Eu havia comentado com ele a respeito de gravações importantes de jazz que nunca viram a luz do dia em CD. Na HDTT se faz mais do que isso: cada fita é usada para criar uma matriz DSD e outra PCM em resolução alta.

Eu havia deixado em aberto algumas sugestões, entre elas a desta gravação da Verve, que é o que existe de melhor, na minha opinião, da colaboração de Jimmy Smith com Oliver Nelson, junto com a edição anterior da dupla, na gravação “Bashing”, de 1962, existente em CD e ainda em catálogo.

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Contei eu a ele que no antigo fórum da Verve, um grupo de pessoas começou a instigar a empresa em restabelecer o antigo catálogo em CD. A Verve criou então a série “Verve By Request”, da qual eu tenho alguns exemplares importantes. Sobre “Monster”, entretanto, um silêncio sepulcral, e até hoje eu tenho a sensação de que as matrizes foram perdidas.

Na pagina da HDTT eu postei um pequeno review, com um comentário óbvio: o ideal teria sido usarem as masters originais, mas na falta dessas uma fita comercial é melhor do que nada. A minha restauração do meu antigo Lp não é ruim, mas a dinâmica de uma fita pré-gravada será sempre superior.

Se não fosse o fato das gravações de estúdio antigas terem caído em domínio público, empresas pequenas como a HDTT não seriam possíveis de existir. Hoje, ela se oferece para enviar o disco pronto, para aqueles que não se interessam por download, e vem representando selos que deixaram de existir anos atrás.

 Reedições em CD sem qualidade alguma

A despeito de todas as limitações das fitas pré-gravadas comerciais, elas são preferíveis como fonte de sinal para digitalização do que Lps ou fitas cassete. Eu tenho sido vítima de reedições incompletas ou adulteradas, comercializadas sem respaldo ou responsabilidade de que as masteriza em CD. E já li reclamações na internet de usuários que se queixavam de estar ouvindo ruído do vinil de Lps supostamente usados comercialmente para reeditar títulos.

Em uma dessas ocasiões, o selo inglês Jasmine reeditou a série Swingin’ Dixie, gravada por Al Hirt e seu grupo de Dixieland para Audio Fidelity. Quando o disco chegou aqui em casa, a surpresa: cadê o volume 4? Esse por acaso foi um dos Lps que eu recuperei, a partir de um vinil cheio de problemas. Eu escrevi para a Jasmine, sem resposta. Acho que eles nem sabiam que existia um volume 4, porque as anotações do livreto do CD falam em sessões de 1958 a 1959. O volume 4 foi gravado em 1961!

Para se fazer uma reedição destinada a colecionadores, o correto seria consultar alguém que conhecesse o catálogo, e na ausência dele uma pesquisa da discografia correspondente. Com informações disponíveis pela internet, até um neófito como eu conseguiria fazer isso!

 O que o usuário pode fazer para se defender

Pesquisar sempre! Nunca se sabe quando um título de interesse será relançado. Alguma coisa interessante vem saindo aqui no selo Discobertas, em se tratando de gravações locais.

Para fãs de jazz e clássicos, conseguir alguma coisa por aqui só por uma tremenda coincidência. O normal é o relançamento em solo americano, europeu ou japonês. Mas, o problema, em qualquer caso, é que essas edições costumam ter vida curta e prensagem reduzida, portanto é importante nunca cochilar nem hesitar no momento em que acha alguma coisa importante.

Para quem quiser se aventurar em reeditar em casa, algumas sugestões:

Use um programa editor de áudio, como por exemplo, o Audacity, que é gratuito. Trabalhe sempre em uma cópia, nunca no original. Evite o uso de filtros, a não ser que você saiba o que está fazendo.

Depois de tudo terminado, normalize o arquivo editado. A normalização recupera a dinâmica em relação ao 0 dB (100% de amplitude) digital. As pessoas inexperientes devem sempre se aventurar em criar ou modificar, pois trabalhando é que se aprende. E o bom resultado compensa amplamente. [Webinsider]

 

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2 respostas para “As sequelas da transição entre o Lp e o CD”

  1. Obrigado Danny. Aguarde mais um texto sobre o assunto que ainda vai entrar na pauta, que espero seja do seu agrado.

  2. Danny Anderson disse:

    Adorei o texto. Admito que tenho um fraco por aspectos históricos relativos às tecnologias de gravação e acabei lendo seu texto duas vezes.
    Valeu Paulo.

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