O modelo Uber adotado em larga escala

31 de março de 2016

Os humanos agora simulam o modelo das formigas, em Curadoria Digital. O modelo Gestão ficou obsoleto. Carlos Nepomuceno explica.

curadoria-digitalVamos falar do futuro começando pelo passado. Conheci o Nepô no jornalismo de tecnologia ainda nos anos 80, na época da chegada do computador pessoal, e ficamos amigos desde então.

Carlos Nepomuceno, que escreve para o Webinsider desde 2000, não para de pensar e produzir sobre o digital. E logo se tornou conhecido pelo trabalho contínuo nesta linha ao longo dos últimos 20 anos.

A visão dele olha mais de longe, de onde a história nos faz entender melhor os movimentos e os sinais de mudança que vemos a todo momento.

Vamos falar dessas mudanças conversando aqui com o Nepô, que está preparando uma coleção de livros, que chama de “livros líquidos”. O livro líquido, nas palavras dele, é um “modelo de publicação já com a impressão personalizada de exemplar para cada leitor por demanda, o que facilita a atualização de novas versões quase todos os dias”.

– Você já lançou dois livros, que são atualizados quase todo dia. Para que tanta pressa?

– Este formato procura responder a algumas inquietações. Atualizar com mais constância, ter mais controle sobre o material e ganhar mais com direitos autorais. Na atual crise não tem ninguém dispensando nenhum centavo.

– Onde o pessoal encontra os livros?

– No Clube dos Autores. Estão lá o Tecnopolítica 3.0 e o piloto da série, Curadoria Digital.

– o que estes livros trazem de novidade?

– Resolvi concentrar nos livros meus esforços destes anos de ralação – mais do que no blog e no canal do YouTube. É um ano em que quero aproveitar para sistematizar tudo que venho pensando e falando para os clientes em palestras e para meus alunos em sala de aula. Os livros organizam melhor a narrativa, pois obrigam a ter coerência. Um bom exemplo disso é a tabela que fiz com todos os meus conceitos. No processo, vi que havia vários buracos conceituais e estou, aos poucos, tapando e dando mais coerência ao discurso.

– Qual é o público do livro?

– A coleção é voltada para lideranças estratégicas e pessoas curiosas sobre o futuro. O pulo do gato da coleção foi optar por olhar para a Internet, suas causas e consequências, do ponto de vista macro-histórico, algo que comecei com os estudos de Pierre Lévy, aprofundei no mestrado e doutorado e agora passou a ser uma marca registrada.

– Qual a vantagem?

– A camada Macro-Histórica (que lida com milênios e séculos) nos permite enxergar causas e consequências que não são tão visíveis para quem trabalha nas camadas da Micro ou Hiper-Micro Histórica com uma timeline menor, como anos ou décadas.

A Internet é, sem dúvida, ruptura de mídia similar à chegada dos gestos, da oralidade, da escrita em suas diferentes possibilidades e das mídias eletrônicas.

Não tem como analisar causas e consequências sem estudar rupturas similares que ocorreram no passado. Pode-se tentar, mas será sempre algo ineficaz. Quando olhamos desse “mirante” Macro-Histórico podemos ver, por exemplo, a influência dos aspectos demográficos. Nossa espécie saltou de um para sete bilhões de membros em 200 anos e isso explica bastante a crise estrutural civilizacional pela qual o mundo todo está passando e a demanda por inovações disruptivas que precisamos fazer.

– Qual é a influência desse aumento demográfico na crise atual e na chegada da Internet?Nepô

– Somos espécie Tecnocultural, por causa disso não temos limites de Teto Demográfico. Os outros animais, por serem genéticos, não conseguem passar de determinado número de membros. Quando se aventuram, entram em colapso. O Sapiens pode aumentar de patamar demográfico, mas é escravo da inovação Tecnocultural.

Muitas civilizações acabaram justamente por não terem conseguido se reinventar.
Quanto mais Sapiens no planeta, mas complexidade e quanto mais complexidade, mais teremos que inovar a Tecnocultura. Se olharmos as mudanças cognitivas (de mídia) na Macro-História, veremos que de tempos em tempos, criamos novos aparelhos que permitem que nosso cérebro fique mais flexível e potente e possamos recriar a Tecnocultura de forma incremental ou disruptiva, conforme as tecnologias cognitivas disponíveis.

E, por causa dessa perfil de Tecnoespécie do Sapiens, podemos reinventar a sociedade. Fizemos isso com a chegada dos gestos, da oralidade, da escrita e agora faremos o mesmo com a internet. Estamos numa guinada civilizacional profunda e que terá impacto nos próximos séculos. Porém, nenhuma foi tão radical como a mudança atual.

– Qual é a macrotendência radical que teremos?

– Pelo tamanho da espécie, iremos partir de agora simular ao modelo das formigas, que é muito parecido com o Waze, Airbnb, Uber, YouTube, o que eu chamo de Curadoria Digital. Estamos abandonando a Gestão que ficou obsoleta.

– Explique melhor o que é o fim da gestão.

– Hoje, praticamos a gestão, que é um modelo muito próximo aos mamíferos, temos líderes-alfas e trocamos ideias pelos sons, há uma hierarquia que é feita pelos limites tecnoculturais que tínhamos.

Era assim pois não havia forma de ser diferente. Com o aumento da espécie, a gestão está se tornando obsoleta e vamos mudar de “canal” saindo dos mamíferos e indo para o modelo de comunicação e de poder das formigas.

– O que as formigas têm a nos mostrar?

– São mais dinâmicas e complexas, por causa da Complexidade Demográfica que tem pela frente. Formigas resolvem problemas diariamente de milhares, milhões ou bilhões. Diferente de bandos de leões ou lobos, bem menores, ou de zebras e gnus maiores, mas menores do que colônias de insetos.

Formigas comunicam-se por rastros, o que permite que cada um dos membros possa ser uma espécie de Líder Contextual. Se uma formiga acha comida, não coloca isso no “Jornal Nacional”, mas apenas “curte” o caminho, permitindo que todas as outras saibam que ali é algo promissor.

Isso pode parecer uma brincadeira de criança, mas é justamente aí que começamos a mudar a Administração da Espécie do Sapiens do mundo 2.0 para o 3.0.

Estamos migrando para modelos de Administração da Espécie que começam a migrar para a Curadoria Digital mais próxima dos insetos. Isso altera tanto o Modelo de Comunicação como a Topologia de Poder que praticamos. É uma mudança cultural profunda, a maior que já vivemos até aqui.

– Qual a dimensão da mudança?

– Quando inventamos a escrita impressa o rei era muito parecido, do ponto de vista da Topologia de Poder, a um presidente, apenas era mais sólido e o agora é mais líquido. O modelo da monarquia era pelo sangue, hereditário, hoje elegemos e alteramos de tempos em tempos a “família real”. O modelo é similar. Há um líder-alfa que apenas muda o período que fica no “trono”.

A Curadoria Digital é algo muito mais radical.

Marca a passagem do modelo dos mamíferos para o dos insetos, não é mais a mesma Topologia de Poder dos líderes-alfas, mas algo parecido com a Liderança Contextual das formigas. Isso é evidente no Waze, ninguém determina de um centro o que está acontecendo pelos caminhos, como um repórter de uma rádio num helicóptero fazia. O líder alfa está ficando obsoleto, pois agora temos algo mais sofisticado.

– E isso vai se espalhar?

– Quando temos um modelo de Administração da Espécie, que permite que os problemas tenham solução com custo/benefício melhor, é muito difícil conter a onda. Vai demorar um tempo, haverá muita resistência, mas prevejo que gradualmente o novo modelo irá tomar o espaço do atual. É o que ocorre com uma tecnoespécie mutante. O mundo, a meu ver, vai virar um grande Uber!

– Quais as previsões que você faz?

– Mais e mais veremos surgir plataformas de Curadoria que irão matando esta intermediação e implantando a Curadoria. Do ponto de vista objetivo, teremos um novo tipo de relação trabalhista, não mais patrão-empregado, mas Curadores e Curadorados, com novos tipos de problemas, como esse da greve dos parceiros do Uber. Os intermediadores vão perder cada vez mais valor.

Qualquer intermediação ineficaz será substituída aos poucos pela Curadoria. Aí estão os professores, médicos, juízes, gerentes, políticos, trocadores, garçons, frentistas, caixas de banco, caixas de supermercado, corretores, diretores. Aonde pudermos colocar robôs e curadoria, não hesitaremos em fazê-lo.

– Não é uma visão muito radical?

– Não, radical é o novo patamar demográfico e os problemas que isso traz para o Sapiens, o resto é consequência disso. Enquanto estávamos como zumbis hipnotizados pela televisão, aceitávamos uma baixa qualidade de consumo e de vida.

Agora com a explosão horizontal das trocas e a reintermediação de produtos e serviços, há um despertar típico e recorrente de Revoluções Cognitivas Descentralizadoras, que não permite mais que, como diz a nossa quase ex-presidenta, que a pasta volte para o tubo. [Webinsider]

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