Bambi, obra master de Walt Disney (e suas conotações absurdas)

Nova Escola de Marketing
14 de dezembro de 2016

Bambi em Blu-ray: filme inovador mostra como um obra de cinema pode ficar cercada por visões deturpadas em torno do contexto original.

As crianças da minha geração foram frequentadores precoces das salas de cinema, dependendo da mentalidade dos pais de cada um, e neste contexto todos os desenhos que saíam do estúdio de animação de Walt Disney eram os mais procurados.

Naquelas circunstâncias de ambiente e estilo de vida, era natural que alguns desses filmes fossem mais apreciados do que outros. Em comum em todos eles estava o primor técnico da fotografia Technicolor e da animação detalhada feita pelos artistas que rodeavam Disney.

No meu caso em particular, como criança eu achava “Bambi” um desenho chato, meloso e sem grandes atrativos. E passei anos achando a mesma coisa. O que hoje, em retrospecto, eu acho curioso são dois aspectos da visão deste filme: o primeiro, o lado visto pelos animadores e técnicos atuais, todos eles enfaticamente citando Bambi como um filme de enorme influência e avanço técnico na filmografia de Disney.

O segundo, o incrível amontoado de controvérsias e polêmicas que o desenho gera até hoje.

Bambi em Blu-Ray apareceu recentemente em uma daquelas liquidações de vinte pratas a dúzia, e eu achei por bem dar outra chance ao filme, visto agora por um homem cansado de guerra. E aproveitei para fazer um esforço de análise em torno do tema, da mesma forma como exegetas e críticos andaram fazendo nestes últimos anos.

A realidade é que cada um vê o filme como pode

É inegável que tecnicamente Bambi é um filme brilhante, e a versão em Blu-Ray nos mostra uma imagem impecável, fruto do esforço dos restauradores. É fato histórico que Walt Disney tinha fascinação por animais e pela natureza, e em um dado momento mandou um corpo de fotógrafos para documentar a vida na floresta, em um prelúdio do que viria a ser mostrado depois em Bambi.

Mas, o projeto do filme esbarrou em dificuldades técnicas: as imagens colhidas na natureza eram muito complicadas e detalhadas para serem representadas em um background convincente.

Eventualmente, Disney foi abordado pelo artista sino-americano Tyrus Wong, que solucionou o problema de duas maneiras: a primeira, estilizando todos os elementos florestais, trocando detalhes por uma imagem pitoresca e muito atraente.

Em seguida, usou a cor como elemento dramático, de forma a pontilhar cenas distintas do roteiro, ora relaxadamente, ora em clima de suspense. O visual resultante influencia até hoje artistas e técnicos, que conseguem enxergar na arte da pintura de fundo (o background dos desenhos animados) um veículo de transmissão de sentimentos. E neste ponto, Bambi se tornou um filme para lá de inovador, na época em que foi feito.

Mas, o impacto visual não para por aí: animadores do estúdio foram convidados a observar a anatomia dos animais, de maneira a levar para a tela um movimento convincente, que daria credibilidade à fantasia da estória. Animais, obviamente, não falam, não que alguém tenha percebido, e o próprio Disney foi duramente criticado por emprestar personalidade humana a animais em seus desenhos.

É uma crítica tola! A humanização de animais era e continua sendo uma maneira de transmitir emoções em animação, bem como parodiar ou criticar o comportamento do tal “bicho homem”, e suas contradições, neste caso, com a natureza do ambiente onde ele vive.

Disney coloca em Bambi valores humanos nos animais, partindo de uma sociedade em evolução sadia, em contraste com a capacidade destruidora do ser humano propriamente dito. Esta inversão de papéis reduz os homens aos animais, no sentido do primitivismo de conduta. Então a visão crítica de Disney e seus associados é correta, não só pelos princípios éticos do comportamento da sociedade com relação à vida animal, como pela necessidade de preservação do meio ambiente.

A intuição de Walt Disney em explorar todos esses aspectos teria sido o que, em última análise, o levaria ao impulso de fazer seus técnicos voltar à natureza, e criar filmes com este tema. A série foi chamada de “True-Life Adventure”:

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A extensão desta iniciativa gerou também a versão moderna da série, com o nome de “Disneynature”, fruto da colaboração de cineastas europeus com o estúdio, e que distribui este material em formato de home video para os interessados.

Conotações negativas do personagem ao longo do tempo

Tem gente que enxerga na animação do estúdio teorias de conspiração por parte dos animadores, como se eles tivessem se arrumado em algum tipo de complô para passar mensagens subliminares de caráter duvidoso.

Talvez por isso “Bambi” chegou aos jargões populares como sinônimo de homem homossexual, e de encontro íntimo sem participação genital alguma.

Dentro deste contexto é possível que a palavra “Bambi” seja dirigido a alguém de forma ofensiva e ou discriminatória, o que, convenhamos, é um profundo e injusto desrespeito ao filme e às pessoas ofendidas.

Tem gente que consegue ver em Bambi um filme de terror. Se analisarmos as palavras escritas por seus interlocutores poderíamos observar a falta de visão do corpo do filme, substituída neste caso por detalhes que dizem respeito apenas a quem o observa desta maneira. É como se o conjunto da obra perdesse a prevalência para momentos retirados fora do contexto da narrativa.

No filme é impossível não ver Bambi como uma síntese do ciclo de vida no reino animal. Animadores modernos argumentam terem se inspirado em Bambi para criar algo semelhante em O Rei Leão, por exemplo.

Mas, o aspecto mais importante do roteiro é a intromissão destruidora do homem na natureza, sem se importar com as consequências deste tipo de violação. Os cineastas colocam na morte da mãe de Bambi o isolamento e a sensação de perda, aspectos importantes que vieram a ser contemplados pela medicina moderna no tratamento das doenças relacionadas ao estresse.

Disney e seus colaboradores tomaram a sábia decisão de não colocar em cena a morte da mãe de Bambi. E não precisavam: qualquer criança (e isso eu vi com os meus filhos) sente a dor da perda mesmo sem tê-la vista!

A edição em Blu-Ray

A edição Diamante de Bambi é exemplar para o colecionador e fãs do filme. Muito do que foi coletado para a parte de extras pode interessar aos que gostam de aspectos históricos das produções com esta estatura. Afinal, Bambi levou anos em produção, e merece o crédito pelo esforço em narrar uma estória banal, e sem aparente credibilidade como comédia ou drama.

O filme em si é muito curto, rodando em pouco mais de 60 minutos, mas foi uma boa decisão de seus realizadores, porque o arrastar da estória poderia torna-lo insuportável de ser assistido por crianças e até por adultos.

A restauração digital da imagem é soberba, com a transcrição que não mostra artefatos de compressão ou qualquer outro tipo de deturpação da imagem. Traços originais do desenho são exibidos com notável clareza, e isso é o que de melhor se pode esperar da imagem de um filme deste tipo, com animação feita à mão.

Logo no início, fica patente o uso da câmera multiplano, desenvolvida por U. B. Iwerks, e usada proeminentemente em Branca de Neve e outros projetos. Com esta câmera alcançou-se um nível tridimensional na profundidade da imagem, permitindo aos realizadores idealizar movimentos de câmera e angulação inovadores, e em perfeita harmonia com os personagens animados.

No Blu-Ray o som mono original foi substituído com vantagens pelo formato 7.1 surround. Eu não entendi bem porque o disco foi codificado pela versão HR (High Resolution) do codec DTS HD, mas na prática não faz diferença perceptível. As cenas com tempestade, pontuadas por efeitos especiais muito bem bolados, foram remixadas com efeito sonoplástico em surround, que circula pela sala toda. Diálogos estão bem preservados, e mantidos no canal central.

No geral, é um disco que merece a atenção do colecionador ou do fã, não deixando nenhum aspecto técnico do filme a desejar! [Webinsider]

. . . . .

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7 respostas para “Bambi, obra master de Walt Disney (e suas conotações absurdas)”

  1. André disse:

    Penso que todas as animações da Disney antigas eram recheadas de subtextos. A questão da homossexualidade sempre foi algo embutido nas entrelinhas de diversas obras, muitas vezes porque seus criadores eram gays mesmo e porque a época não permitia manifestações explícitas. O tema do macho sensível parece ser recorrente em vários desenhos, de pronto lembro-me de um touro amante de flores do campo em um desenho que já não me lembro o nome e também do gênio em Alladin, claramente um personagem “Bear” na terminologia GLBT, entre outros.

    Sempre achei que por conta das citações e insinuações os desenhos Disney tinham também como alvo o público adulto.

    • André, me perdoe, mas eu sinceramente espero que você possa provar que os animadores eram gays, e se puder por gentileza me passa as referências.

      Até onde eu sei, tudo isso que inventaram a respeito do Disney e sobre os animadores e quem sido espalhado pela Internet é pura lorota, estorinha do boi ta-tá, gente maldosa, que tem inveja de um homem que lutou a vida toda para derrotar a derrota.

      Anos atrás, eu fiz questão de escrever uma coluna sobre o espírito pioneiro de Walt Disney, ao introduzir o som estereofônico dentro do cinema, quando aquilo tudo ainda estava em escala de laboratório. E nesta mesma época ele apostou no Technicolor de 3 películas, tendo realizado novas técnicas de animação até chegar a Branca de Neve, na época considerado por alguns uma loucura, perda completa do investimento no projeto. Ironicamente, foi o único dos grandes estúdios que não foi vendido para gente de fora da área de cinema, tendo ficado como parte da família até hoje e isso se deve ao próprio Disney, que montou a Disneylândia para sustentar o estúdio.

      Disney e colaboradores são estudados por um monte de críticos e historiadores, alguns dos quais aparecem com frequência nos discos, fazendo comentários sobre os longas de animação.

      Eu tenho guardado até hoje comigo a primeira edição do livro do Leonard Maltin, um desses historiadores de cinema, chamado “Of Mice and Magic” (veja em https://www.amazon.com/Mice-Magic-American-Animated-Cartoons/dp/0452259932), e não se encontra uma só menção sobre isso que você está afirmando.

      Se você me permite, eu sugiro que você tenha muito cuidado ao ler as fontes de qualquer assunto, nunca leia uma opinião só, procure comparar informações o mais que puder, e só depois tire as suas conclusões. Eu, aliás, já afirmei isso até a leitores dessa coluna, porque eu não me acho referência de coisa alguma, apenas um entusiasta falando a outros entusiastas sobre assuntos de gosto comum.

  2. Fabio F disse:

    Paulo, obrigado pela resposta.

    Um comentário “off” tópico que contém uma pergunta, e um pedido de ajuda, se não for muita ousadia…

    Primeiro o comentário e a pergunta. Ontem e anteontem rodei dois grandes shoppings da cidade (Porto Alegre) olhando e pesquisando alguns eletrodomésticos e eletrônicos pois estou na iminência de me mudar e vou aproveitar para renovar algumas coisas em casa. Me chamou a atenção o fato de que depois de ter visitado umas 8 grandes lojas do ramo, não vi NENHUM BD Player disponível para venda. Perguntei aqui e ali e todos os vendedores disseram que não sabem a razão, mas não estão mais recebendo… Essa tecnologia morreu no Brasil?? Não tem mais BD player por aqui? Sabes algo sobre isso?

    Agora, o pedido: estou querendo uma TV nova, e os modelos são tantos que nem sei por onde começar. Alguma dica? Atualmente tenho uma Panasonic Plasma 42 Full HD, tecnologia já ultrapassadinha, mas cuja imagem acho linda. entretanto, estou à procura de um modelo maior (50, 55, 60, 65, sei lá…). Já vi que as plasmas sumiram, então não sei bem pra onde partir. Além disso, minha capacidade de investimento tb é limitada (não queria passar de uns R$6 a R$8 mil, e já vi que que tem modelos que passam de R$20K). Não quero te imputar a responsabilidade de apontar uma marca e modelo, mas já sei que conheces o assunto e aceitaria uma ou outra dica, se não for abusar demasiado do teu tempo…

    • Fabio, sem problema algum, imagine.

      Uns dias atrás um amigo meu me ligou comentando exatamente sobe a ausência de Blu-Ray players nas lojas. Precisando indicar um modelo a uma pessoa conhecida, ele teve que pesquisar on-line.

      Se já não é compreensível esta estória das lojas, muito menos o anúncio de um suposto lançamento de discos 4K por aqui. E eu te pergunto: com que player? Note que p anúncio está gravado em disco que eu comprei uns dias atrás, portanto vem do estúdio.

      Sobre TVs, eu sei que é possível ficar na faixa de uns 8 a 10 mil com uma tela 65 pol. HDR. Não espere 3D, porque os homens tiraram de praticamente todos os modelo 2016/2017.

      Dê uma olhada nas Sony, que têm preço mais em conta, pelo menos até a última vez que eu as vi nas lojas.

      OLED eu não indico, apesar das telas serem primorosas, e explico por que: elas são exageradamente caras e ninguém sabe ainda com certeza quanto tempo leva para alterar a gama de cores pela descompensação de reprodução, que já foi citada em épocas passadas aqui mesmo na coluna.

      As telas atuais de LCD tem demonstrado desempenho acima do que existia antes. E se for possível tente comprar uma tela com iluminação traseira e não nas bordas.

      Sim, e boa sorte na sua compra.

      • Fabio F disse:

        Legal falar com quem entende… Tinha até me encantado com uma LG Oled, mas achei salgado o valor (R$9.999 – tela 48″)… A SONY achei massa os recursos, embora tenha muita coisa que o cara acha legal quando vê na loja mas depois acaba não usando. De qqr modo me chamou a atenção que o mesmo modelo SONY custa R$5.800 na versão 55″ e R$10.450 na versão 65″ , muita diferença… Sobre o 3D, não me fará falta alguma, a minha atual tem o recurso e só usei duas vezes… Vou continuar procurando e pesquisando, mas agora já tenho um norte mais definido. Obrigado por dividir o conhecimento.

  3. Oi, Fabio,

    No Brasil eu até hoje não vi nada nesta direção (nenhuma surpresa, aliás).

    O que está disponível está citado no texto, e eu repito o link: http://nature.disney.com/

    Para compra: https://www.amazon.com/s/ref=nb_sb_noss_1?url=search-alias%3Daps&field-keywords=disneynature

    A série True-Life eu não vi em lugar algum. Me lembro entretanto de alguns desses filmes, muitos deles rodados em 16 mm.

  4. Fabio F disse:

    Confesso minha ignorância total em relação a essa série de documentários True-Life Adventure. Isso está disponível no Brasil? Tem DVD ou BD? O mote é apresentar a natureza mesmo?

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