Somos as cobaias da internet

21 de março de 2017

A idade da pedra em que vivemos nos transforma todos em cobaias. Ou pioneiros, dependendo do ponto de vista.

Visitando um doente nos confins da Amazônia, meu pai, que não era médico mas doutor, administrou-lhe alguma das parcas medicinas de que dispunha, tintura de arnica, violeta de genciana e alguma cachaça bem forte. A família agradeceu e o paciente se acalmou. Passando por ali meses depois, encontrou a esposa do paciente.

– Como está o Severino?
– Ah, Doutor, ele faleceu.
– Puxa, meus pêsames.
– Mas olha, Doutor, ele morreu tão melhorado!

Quantas pessoas tiveram muita dor de barriga experimentando novas drogas ou posologias. Quantos morreram para que outros vivessem graças a suas coragens involuntárias?

A Internet nasceu redentora na teoria e artesanal na prática mas ainda precisou piorar muito antes de melhorar. Não são poucos aqueles que pintam com cores demoníacas os efeitos perversos dessa massificação do acesso: da criancinha sendo seduzida por perversos adultos ao exibicionismo constrangedor das redes sociais, das ameaças à sobrevivência da produção autoral à manipulação voluntária da opinião através das mecânicas obscuras dos algoritmos publicitários.

Cobaias pioneiras

A idade da pedra em que vivemos nos transforma todos em cobaias, ou pioneiros, dependendo do ponto de vista.

Nos Estados Unidos, as assinaturas de conteúdos estão aumentando significativamente nos últimos meses. Tende a desaparecer aquela utopia de que todo conteúdo tem que ser gratuito.

Essa regra estabelece como alternativa para a sustentação da produção que a audiência aumente e que os canais se remunerem pela publicidade. Em outras palavras, uma regra velha, muito velha, de mídia velha, muito velha, para uma realidade nova, muito nova.

Essa regra nos leva inevitavelmente para um círculo muito vicioso: conteúdo gratuito, audiência grande – audiência grande, qualidade baixa – qualidade baixa, audiência baixa. Foi assim com a mídia de massa, foi assim com a mídia por assinatura, ainda não é assim com as celebradas plataformas de massa porque, apesar da tentação da produção do mínimo denominador comum, as assinaturas ainda crescem, o que evita o deslize.

Mas as novidades se concentram principalmente nas novas alternativas de canais segmentados que conseguem se sustentar – e produzir qualidade – atingindo nichos de pessoas que estão dispostas a pagar para sair do plantel obediente.

Embora seja difícil ver a luz no fim do túnel e ainda esteja distante o tempo em que as promessas de igualdade de oportunidades e universalização do conhecimento se concretizem, alguns sinais aparecem de que o povo não é o gado disciplinado que os grandes monopólios da nova (e velha) era manipulam.

Morreremos todos muito melhorados.

[Webinsider]

O trabalho de um publicitário

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O drama da propaganda é a falta de identidade

Apresentação de campanha

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