Drive para reproduzir Blu-Ray 4K lançado no mercado

30 de março de 2017

A Pioneer lança um drive interno e outro externo para reproduzir Blu-Ray 4K. Mas o usuário vai enfrentar obstáculos com esquemas de proteção contra cópia.

No início deste mês de março de 2017 a Pioneer anunciou o lançamento de um novo drive interno para instalação em PCs e Macs e mais tarde de um modelo similar externo, de maneira a possibilitar a reprodução do Blu-Ray 4K.

Este lançamento merece alguns comentários:

É impressionante como a tecnologia não para de avançar, em um mercado supostamente esvaziado por um público que não se interessa mais em mídia rotativa, em favor dos serviços de streaming.

É claro, e isso me parece bastante evidente, que a indústria não pode ficar parada. Ela tem que oferecer novos produtos, de forma a tentar movimentar o mercado em clara recessão, aqui e lá fora, de modo a manter o seu parque fabril em ordem.

No caso de um lançamento desses, algumas coisas ficam às vezes de fora ou pouco esclarecidas, e isso é ruim para o consumidor, porque a instalação e uso de um drive pode facilmente resultar em frustração por quem aposta em um novo formato.

Explico por que: a reprodução de um Blu-Ray 4K impõe restrições, tanto a nível de hardware quanto a nível de software!

O leitor poderá entender que um modelo de mesa feito para este tipo de reprodução é desenhado de forma a atender o seu fim precípuo, que é reproduzir a mídia sem que ocorram tropeços de qualquer ordem, e mesmo quando isso por acaso acontece, o fabricante disponibiliza uma atualização de firmware que corrige o(s) problema(s) encontrado(s).

O leitor de mesa é montado com componentes testados e escolhidos a dedo, com a integração necessária no board mãe e/ou no board de vídeo, quando este é separado, através de chips dedicados.

Em um computador, a situação muda porque as montagens variam enormemente. O meu irmão costumava dizer, com referência à plataforma IBM, que “não há um micro igual ao outro”, e ele tinha razão. A seleção de componentes é feita ou pela montadora (Dell, Compaq, etc.) ou pelos usuários hobbyistas. Embora existam computadores dedicados para áudio e vídeo também, os chamados HTPCs (ou Home Theater Personal Computers), não há hoje garantia de que um deles, principalmente se montado há algum tempo atrás, possa ser capaz de reproduzir um Blu-Ray 4K.

A questão do drive e do software de reprodução

O primeiro aspecto a ser considerado é o drive de leitura do disco propriamente dito. Aparentemente, ele tem que ser capaz de ler (ou gravar) mídia de alta densidade, especificamente o Blu-Ray XL (BDXL), que é capaz de sustentar armazenamento de dados até 128 GB, em até 4 camadas. Este tipo de disco não é compatível com leitores de mesa ou drives para disco Blu-Ray convencional.

O drive em questão, modelo BDR-211UBK, lançado pela Pioneer, atende a este requisito, mas não é o único no mercado capaz de fazer isso. Eu, por acaso, uso um drive LG modelo WH16NS40, com igual capacidade, e que foi, por coincidência, um dos primeiros drives reconhecidos como capazes de ler a integridade da árvore do diretório de um disco Blu-Ray 4K comercial.

Então, eu posso presumir (e poderia estar certo) de que eu posso usar um drive capaz de ler e escrever um BDXL e usá-lo para a reprodução de um Blu-Ray 4K. Claro que, para saber se isto é falso ou verdadeiro, só mesmo experimentando, mas a chance de ser uma hipótese verdadeira é quase zero!

Não obstante, o drive só não basta, é preciso se obter um software para reproduzir o conteúdo do disco, mais especificamente os arquivos contendo vídeo e áudio multiplexados no novo formato.

Neste momento, somente a Cyberlink deixou no ar que o seu programa de reprodução PowerDVD, versão 2016 Ultra, estaria sendo adaptado para Blu-Ray 4K. Eu solicitei informações ao suporte da empresa, porque eu uso este aplicativo, e o que eles me disseram não deixou margem para dúvidas quanto às dificuldades encontradas, inclusive sobre aspectos técnicos que vem impedindo superar todos os obstáculos. A pista sobre o programa vem do próprio site da Pioneer, que entrega o aplicativo junto com o drive, embora em uma versão OEM anterior. Alguns especulam que a versão 14 foi propositalmente modificada para ser usada com o drive da Pioneer, e que esta modificação seria lançada na versão Ultra 2017.

Outros componentes que farão falta

Fosse só drive e aplicativo, qualquer computador poderia reproduzir um Blu-Ray 4K sem problemas. Mas, infelizmente, não é bem assim, e aí começam os desastres. Primeiro, uma explicação:

Existem, em um computador de arquitetura moderna, dois componentes que trabalham integrados, e que precisam ser o mais compatível possível entre si: o processador principal – CPU – e o processador de vídeo – GPU.

CPUs mais recentes trabalham com vários núcleos, que funcionam como se fossem CPUs independentes, debaixo do mesmo chip e batimento. Cada um desses núcleos pode executar até duas fileiras de códigos. A última CPU AMD Ryzen, por exemplo, lançada agora no mercado, tem 8 núcleos com 2 fileiras de execução cada um, perfazendo um total de 16 fileiras (linhas ou threads, se quiserem).

Mas, não para por aí. Cada núcleo pode ser estacionado (“parking”) se ele ficar ocioso, de modo a economizar energia. Quando a carga de trabalho aumenta, alguns desses núcleos são estacionados, para aumentar a velocidade dos outros núcleos. Existe, de fato, uma variação dinâmica entre os núcleos, de maneira a acelerar o processamento de dados quando isto for preciso, e quando o programa em atividade for escrito para aproveitar tal recurso.

Na nova versão Ryzen, a AMD não só aumentou o número de filas de execução por núcleo como permitiu que houvesse controle de velocidade independente para cada núcleo, o que torna a CPU em tese extremamente eficiente, até em velocidades de batimento mais lentas, e com TDP (dissipação térmica) baixa.

Nas informações preliminares exibidas nos drives não existe menção a qualquer CPU AMD dentro dos requerimentos de reprodução, e na realidade a menção é feita a apenas um tipo de CPU Intel com microarquitetura Zaby Lake, obrigatória, em virtude do esquema de proteção usado (veja mais abaixo). A notícia afasta definitivamente montagens que não fazem uso desta CPU.

Essa supra mencionada eficiência, em CPUs Intel ou AMD, é a que permitirá teoricamente a reprodução de um disco Blu-Ray 4K sem grande transtorno, uma vez respeitada a capacidade gráfica do sistema.

Isso é conseguido com a instalação de um adaptador (cartão) gráfico, em um slot PCIe adequado. Em se tratando de placas Nvidia, somente a série 10, com GPU Pascal, é descrita como capaz de reproduzir HDR-10. O resto fica por conta do monitor.

Chips gráficos Nvidia e AMD precisam ser obrigatoriamente acima de um certo nível de performance, para dar suporte a 4K sem tropeços. As GPUs Pascal e Polaris, estão no topo das linhas Nvidia e AMD respectivamente, mas a um custo elevado.

Monitor, conexões e os famigerados esquemas de proteção

Usuários têm relatado que o disco Blu-Ray 4K não tem código de região. Não li até agora nada sobre a presença no disco do vírus Cinavia.

Ao conectar um monitor 4K a um computador é imprescindível usar portas de transmissão digital, HDMI ou, melhor ainda, DisplayPort, esta última com excelente desempenho de até 10 bpc.

Em ambas as conexões é obrigatória a presença de interface com proteção HDCP 2.2 compatível, tanto ao nível do adaptador gráfico instalado quanto do monitor. Da mesma forma, o protocolo de transmissão por porta HDMI dever ser da versão 2.0/2.0a.

Fala-se também da necessidade da presença de um esquema de proteção da Intel chamado de Software Guard Extensions (SGX), embebido na CPU Intel Zaby Lake e com suporte na placa mãe.

Sendo o SGX aparentemente obrigatório (CPU + BIOS da placa-mãe) a quantidade de computadores excluída será inacreditável.

Quantos usuários estarão dispostos a sacrificar o hardware e realizar nova montagem só por conta da reprodução de um disco 4K?

A proposta e a perspectiva em si são insanas, visto que o custo da construção ou aquisição de um máquina desktop supera em milhares de dólares a aquisição de um reprodutor de mesa.

Não para por aí. Discos Blu-Ray são criptografados com a versão 2.0 do AACS (Advanced Content Access System). Qualquer aplicativo para reproduzir Blu-Ray 4K no computador vai ter que lidar com isso! Se depender do firmware do drive, a maioria bloqueará a reprodução.

Comentários finais

Eu creio que é inútil neste momento ficar procurando respostas em um mercado que não existe neste país. E mesmo já tendo passado por isso várias vezes, época onde se procurava mídia importada, como foi o caso do Laserdisc, nesta altura do campeonato não existem certezas que possam nos assegurar se o Blu-Ray 4K irá rapidamente para um nicho ou não.

São tantas as proteções impostas que a gente se pergunta se não é este um dos principais motivos pelos quais o consumidor final vem sistematicamente abandonando a mídia ótica, provavelmente até consciente da qualidade que está perdendo, mas evitando com isso a dor de cabeça que acompanha cada um desses esquemas contra cópia.

Aparentemente, a introdução de um sistema para reproduzir Blu-Ray 4K no computador irá redundar em um sonoro fracasso. Seria fácil dizer isso em função de um mercado inexistente, mas mesmo nos principais mercados consumidores o nível de rejeição deverá ser alto.

Basta considerar o SGX. Sendo obrigatório, tornará inoperantes sistemas construídos sem observância na compatibilidade que inclui CPU e placa-mãe. E aí, fica a pergunta no ar se alguém irá sacrificar o seu orçamento, trocando o que pode ser um bom computador de mesa ou notebook com outro processador, só para tocar discos Blu-Ray 4K?

A exclusão de outros modelos de CPU cheira a uma rasteira de uma indústria em cima da outra. É triste saber que há conivência entre parceiros para que tal aconteça. Depois são os mesmos que reclamam que a mídia rotativa não tem o sucesso esperado. Também pudera: dando tanto tiro no pé ninguém anda sem desconforto! [Webinsider]

Cinavia, proteção injusta para o usuário

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Uma resposta para “Drive para reproduzir Blu-Ray 4K lançado no mercado”

  1. Fábio F disse:

    Não tem coisa mais cretina do que sistemas contra cópia e sistemas de travamento por região. As cópias me impedem (na verdade tentam impedir, dá um pouco de trabalho mas sempre tem como “quebrar” a proteção) de fazer back up dos meus muitas vezes caríssimos e/ou raríssimos VHSs, DVDs e BDs de filmes e shows; e as travas de região não fazem mais sentido em um mundo globalizado e com informação/conteúdo viajando à velocidade da luz. É ridículo, é desgastante, desestimulante e, tenho certeza, contraproducente do ponto de vista das próprias empresas.

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